Artigo publicado no Jornal Contexto de 17/10/1998 e também publicado no Livro “Estes imigrantes entre outros – Imigração na Serra Polonesa na Gaúcha” de Vitor Kozowski
Tomei a iniciativa de escrever algo sobre o nome “Johan Mokwa” que se encontra em relevo no sino maior da capela Imaculada Conceição de Sete de Castro. Ele é um sinal visível da colonização polonesa.
No florescer da localidade “Azevedo Castro” da colônia Conde d’Eu. Hoje pertencente ao município de Carlos Barbosa. Foi lá que se estabeleceram os primeiros imigrantes poloneses do Rio Grande do Sul, fato este pouco conhecido pelo povo em geral. A modesta lápide, na pedra colocada na praça da Igreja Matriz de Garibaldi, evoca a lembrança.
Em 1875 antecedendo uns meses aos italianos, vieram a Castro pouco mais de duas dezenas de famílias polonesas. Nos anos seguintes aportaram muitos. A pequena comunidade, desde então tinha se tornado ponto de referência e abrigo para antigos vizinhos da Polônia, parentes e amigos que optaram por uma nova vida no Brasil. De 1890 em diante, milhares de famílias vindas da Polônia povoaram outros locais de nosso Estado. Hoje Carlos Barbosa herda de Garibaldi a honra de sediar a localidade onde os primeiros imigrantes poloneses se instalaram no Estado. As milhares de famílias polonesas que povoaram o solo gaúcho provinham de todas as partes da Polônia, na época dominada pela Rússia, Áustria e Prússia. Assim, como muitos de nossos imigrantes “italianos” eram também dominados pela Áustria. Os poloneses de Castro eram os que estavam sob o domínio da Prússia (Alemanha) provinham da região chamada Alarietwer-deti - Pomerânia – ou conforme alguns, Prússia-polonesa. Para nossa orientação geográfica, tomar os arredores de Czersk ou Chojnice (Kraitz-Koenitz), locais esses muito pressionados pela germanização desencadeada pelo chanceler alemão Otto von Bismark. Passados mais de cem anos, volto a minha atenção a um desses imigrantes, provável doador do sino, Sr. Johan Mokwa.
Entre a centena de famílias polonesas que vieram para Azevedo Castro, havia quatro de sobrenome Mokwa. O grande parentesco entre uma e outra não me foi possível desenvolver. Pelas informações de minha mãe, Marta Mokwa, duas não tinham parentesco próximo. Atenho-me a Johan Mokwa – nome que esta no sino – “F. BERTSCHINGER – PORTO ALEGRE – ASSUNPÇÃO – 1893 – JOHAN MOKWA”. (No recenseamento de 1883, referente ao lote nº 7 da Capela, lemos o seguinte. “Este lote foi pelo diretor Sr. von Hoskholtz concedido a uma irmandade que construirá uma Igreja e uma escola”).
A Inauguração do sino aconteceu onze anos depois do recenseamento. Seguindo a genealogia de cada uma das quatro famílias Mokwa, mesmo carecendo de mais dados comprobatórios, fiz fiz devidas exclusões e cheguei a uma conclusão mais lógica. Nesas quatro famílias, três tem Johan.
Na de Francisco Mokwa, casado com Suzana Linski, não consta nenhum filho chamado Johan. Somente Pedro, casado com Mariana Miszewski, o qual teve dois filhos nascidos no Brasil: Pedro filho e José. Pedro filho, morador de Santa Tereza, foimeu conhecido. Nem ele nem seus filhos lembram algo sobre o sino.
Meu avo Johan Mokwa, único filho homem de Francisco Mokwa e Suzana Radzinskinski (Radzinssmescher), pai de minha mãe Maria, casou-se em Garibaldi em 1886. Recém chegado da Polônia – alfaiate – não tinha conseguido um lote para comprar. Morava no lote 16 2ª secção na casa de um parente, como muitos outros que aguardavam assentamento definitivo. Tinha ele sob sua tutela o pai, viúvo, que viera junto, Com 27 anos de idade, além do pai aos seus cuidados tinha a esposa e a filhinha Mariana nascida em 1888. No ano de 1892, participou com dezenas de famílias, da malograda aventura de ir se instalar em Blumenau, SC. No ano da inauguração do sino, em 1894, meu avô Johan Mokwa estava morando em Santa Tereza, onde faleceu aos 92 anos. Meu avô, apesar de ser pessoa culta, não deixou nenhuma alusão ao sino. Talvez nem ele próprio soube da doação, que possivelmente tenha sido feita na sua ausência.
O segundo Johan era filho de Tomaz Mokwa e Juliana Szarmak. Este Johan era dois anos mais novo que meu avô. Casou-se em Garibaldi com Francisca Miszewski. Este Johan mais tarde ficou conhecido com aventureiro e fazedor de fortunas com serrarias em Não-Me-Toque. Está excluído da probabilidade de ser o doador do sino pelo mesmo motivo que meu avô. Sendo jovem e recém-casado, mesmo supondo eu dominado pela sua índole, tivesse liderado coleta e ido a Porto Alegre fazer a encomenda do sino, descarta-se da imaginação que quisesse ressaltar no sino seu nome.
Ao falar do terceiro Johan Mokwa, inclino-me a tendência de afirmar que esse último deve ser o doador. Nada mais compreensível e lógico atribuir o mérito da doação ao Johan Mokwa casado com Rosália Kaszubowski. Morador do meio lote 6 da 2ª secção sul, foi proprietário de um moinho. Idade próxima aos 68 anos. Era pai de José Mokwa cujo filho estava estabelecido no lote nº 7 da zona sul 2 ª secção que confrontava com o de nº 7 da Capela. Seu filho José nasceu na Polônia em 1850 e era casado com Joana Kroplidowski
Na época do encerramento da epopéia dos poloneses em Castro, este Johan Mokwa e seu filho José, em 1893 ainda estavam no local. Naquele mesmo ano Johan vendeu seus bens, lote e moinho, a Luiggi Tessari. Seu filho, também em 1893 vendeu sua terra a Luiggi Sandel e Luiggi Becchio. Pai e filho foram se estabelecer na nova Colônia de Alfredo Chaves, a beira do rio das Antas, na 8ª Secção. Em 1923** José era proprietário do lote 66c da 8ª Secção, próximo à Capela do Rosário. O deslocamento do último Johan Mokwa ocorreu um anos antes da inauguração do sino. Os outros dois Johan Mokwa saíram antes de 1893. Só este último Johan Mokwa pode ter encomendado o sino. Assim raciocinando, este terceiro é o único mais provável doador. Se tinha idade, capital e filho “colocado”, é lógico que quis fazer uma doação eu marcasse seunome no local onde viveu, ao mesmo tempo selar para a história de que ele, filho e conterrâneos, compunham a comunidade. Como ele e seus colegas se deslocaram por novas terras, é provável que não tivessem na festa de inauguração.
Encontrei seus descendentes em Erechim. Dionísio, bisneto de Johan Mokwa, com 84 anos, nada soube me dizer sobre o sino. A viúva de outro bisneto, Francisco Casemiro Mokwa, Sra. Jadviga Makowski Mokwa ***, com 89 anos, foi a única pessoa que mencionou lembranças.
Qual Johan Mokwa deixou seu nome no sino? Foi Johan Mokwa, um dos imigrantes poloneses que desbravaram, ao lado de outras etnias, as matas de Carlos Barbosa. Sabemos que o sino ostenta um nome, um dos poucos sinais que iluminam a epopéia de pessoas heróicas que construíram com denodo o nosso atual bem-estar. Infelizmente, sua passagem e significância é esvaída pela passagem de uma corrente do vento mais forte.
O polonês, humilde, trabalhador, fez o que devia. Não pediu retribuição. Deude coração e não esperou ovação. Nós, seus descendentes, damos valor às suas obras. Herdeiros de seu espírito exemplar, haurimos, hoje saudosos, seus conhecimentos. |