Maryan Magrowski
Texto de Gilberto Magroski

            Uma lágrima rolou dos olhos de Maryan. Aquele amanhecer, no início de outubro de 1890, era o mais triste de sua vida. Os primeiros raios de sol ainda não tinham surgido no horizonte de Raciazek, mas a luz difusa da manhã já fornecia claridade suficiente para que começasse a preparar aquela que seria a jornada mais dolorosamente decidida  em toda a sua existência. Na carroça, puxada por dois cavalos, aos poucos ia ajudando sua mulher Katarzyna a colocar todos os pertences necessários à viagem. Não era muita coisa, pois tiveram que se restringir ao mínimo necessário: roupas, alguns utensílios de cozinha e também ferramentas de trabalho, dos quais muito precisariam em breve, em seu novo destino.

            O pequeno Julyan, na inocência dos seus cinco anos, fazia brincadeiras com o irmão caçula Szczepan, ainda bocejando no colo da mãe. Na parte de trás da carroça, em meio às malas, pacotes e bolsas, acomodaram-se suas irmãs Tekla e Apolônia, ambas em seus primeiros anos de adolescência. Estavam quietas, e temerosas. Ao contrário dos irmãos menores, já tinham consciência do que estava acontecendo. Sabiam o que aquela viagem significava: a escola que não mais frequentariam, a igreja dos domingos, as amigas da vizinhança, os olhares furtivos e insinuantes dos rapazes da comunidade, tudo ficaria para trás. O futuro lhes era uma total incógnita e causava apreensão.

            Enquanto a carroça avançava lentamente pela estrada, margeada de campos ainda cobertos de orvalho, Maryan pensava na família: no pai, Andrzej, alfaiate de mão cheia lá em Nieszawa, onde nascera, e prematuramente falecido quando Maryan ainda era criança de tenra idade; nos irmãos Jan, Leon, Waclaw e Kazimierz, dos quais soubera pela mãe terem todos morrido quando ainda crianças; na mãe, Paulina, que após a morte do marido mudara-se para Ciechocinek, onde vivera até o final de seus dias. Lembrou-se também de alguns primos do pai, que visitara umas vezes em Dobrzejewice e Swietoslaw e que também se mostravam dispostos a tentar vida nova em outro lugar. Todos queriam fugir do jugo czarista, que a todos e tudo se impunha, sufocando cada vez mais os sentimentos nacionalistas e religiosos e a esperança de dias melhores num país já tão longamente sofrido..

            Imerso nesses pensamentos, Maryan mal se deu conta que havia chegado na estação de trem. Na verdade, era apenas um ponto de embarque, num prédio acanhadamente simples, pequeno, com dois ou três bancos de madeira para acomodar os passageiros que ali embarcavam, com destino principalmente a Hamburgo e BremerHaven, na Alemanha. Enquanto esperava, do alto da plataforma de embarque Maryan examinava detidamente a paisagem ao seu redor: as casas, as ruas, a torre da igreja local, um ou outro monumento, as áreas de terra plantada, alguns animais no verde dos campos ã distância. Olhava cada cena, cada imagem dessas com o máximo de atenção, pois queria deixar bem fixadas em sua memória as imagens da terra onde nasceu, cresceu, amou, se fez homem e pai: sabia, do fundo de seu coração, que nunca mais veria sua Polônia querida outra vez.

            No horizonte próximo, rolos de fumaça preta subindo aos céus anunciavam a chegada do trem. Maryan chamou a mulher e os filhos para junto de si e todos se uniram num abraço. Uma lágrima rolou dos olhos de Maryan.