Estanislaw Zubik

 

“Me matem, mas não me peçam para destruir o símbolo de minha Nação”

 

Por Anaí Zubik Camargo de Souza

Jornalista, mestre em comunicação e escritora.
Neta de descendentes poloneses.

 

              Naquela manhã soprou um forte vento que levou tudo pelos ares. Cadeiras, folhas secas, até a vassoura que tinha ficado na rua. Tudo estava fora de lugar.
              A família Zubik acordava e Estanislaw já estava na porta meditando sobre o tempo. Olhou para longe, espremendo os olhos e comentou com a esposa Izolina:
              “Mulher vai acontecer alguma coisa por aqui hoje. Não sei o quê, mas vai”.
              E Izolina chamou o marido e as crianças para o café. Na mesa humilde tinha leite, café passado e pão feito em casa, no dia anterior. Ainda estavam a mesa quando alguém bateu na porta. Uma batida forte e nervosa. Estanislaw arredou a cadeira e Izolina segurou sua mão. Cruzaram um rápido, mas profundo olhar, e ele acenou a cabeça positivamente para ela.
              A abrir a porta viu o amigo Josef que mal conseguia falar:
              “A Sociedade, a Sociedade...” tentava dizer Josef.
              “Calma homem, entre e tome uma água”, convidou Estanislaw.
              “Não há tempo, você tem que evitar a destruição da nossa Sociedade Progresso”.
              Estanislaw calçou suas botas, pegou o casaco de inverno e saiu recomendando à família que ficasse em casa. Era o ano de 1941, na Vila de Dom Feliciano/RS e a II Guerra Mundial chegava ao Brasil através de proibições e perseguições aos estrangeiros e minorias sociais.
              Nada de música, nada de falar em outro idioma, a não ser o português, nada de danças, folclores, culturas, livros de autores de fora... A ordem era calar e obedecer.
              Ao chegar à praça, na qual se localizava a Sociedade polonesa Progresso, Estanislaw e Josef encontraram-se com outros amigos e mais à frente, com o professor Lorenz, o médico, o escrivão, e a polícia. Um policial se dirigiu a Estanislaw e ordenou que retirasse do local toda e qualquer coisa que fizesse menção à nação polonesa.
              Estanislaw Zubik, nascido em Cracóvia, em 1903, saiu de seu país em busca de melhores condições para receber sua família (pai, mãe e irmãos) que tentariam fugir da guerra antes que ela estourasse definitivamente. Contudo, tomou o navio errado e ao invés de ir para a América do Norte foi para a do Sul. Antes, chegou a servir por sua pátria e contava histórias aos filhos sobre esses tempos.
              Agora estava em uma situação difícil e resolveu por obedecer à ordem, já que o temor era geral, e ele tinha mulher, filhos. Não era nenhum irresponsável. Começou por retirar alguns cartazes que convidavam a comunidade local para almoços e cursos de dança, os quais organizava. Depois os letreiros da Sociedade e por fim, teria que retirar a Águia, símbolo maior da Polônia. Porém, o Brasão Nacional Polonês estava entalhado na madeira e seria muito difícil removê-lo, então os policiais mandaram estilhaçá-lo com uma foice ou o que tivessem a mão.
              Todos se olhavam e não conseguiam dar um passo sequer para ajudá-lo, apesar das contundentes ordens policias. Estanislaw secou o suor do rosto misturado às lágrimas e declarou: “Me matem, mas não me peçam para destruir o símbolo de minha nação”.
              Estanislaw jogou o machado no chão e quando olhou para cima todos os poloneses na praça choravam e começaram a cantar o Hino da Polônia.
              O Brasão não foi retirado e todos viveram anos de medo e tensão, mas jamais com a culpa de macular um símbolo da Pátria distante, onde muitos deixaram parentes, amigos, pais e mães que nunca mais tiveram notícias.