22 João Baginski de São
Feliciano, Rio Grande do Sul à família (o endereço é desconhecido). 1/01/1891
23 .João Baginski e esposa de
São Feliciano, Rio Grande do Sul à família, (o endereço é desconhecido).
2/02/1891
24. A
. Bakalarski de Florianópolis, Santa Catarina, à
esposa e filhos. (endereço desconhecido). 10/01/1891
25. A
. Bakalarski de Florianópolis,Santa Catarina à esposa
e filhos, (endereço desconhecido). 2/02/1891
26. A
. Bakalarski de Florianópolis, Santa Catarina à esposa,
(endereço desconhecido). falta a data
27. Antônio Bartnicki de
Santo Antônio da Patrulha, Rio Grande do Sul ao filho Adão. Ciechanów (?). 224/03/1891
28. Inácio e Mariana
Binkowski de Silveira Martins, Rio Grande do Sul para sua esposa e família,
(endereço desconhecido)
29. André Borkowski de Tomás
Coelho, Paraná para a família, (endereço desconhecido). 10/3/1891
30. Ana e Jacó Bufalt de
Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul aos pais (Zyrardów). 2/04/1891
Veja local desta carta: Zirardów
31. Antônio Czerwinski de
Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul para a família. (Zyrardów). 3/03/1891
Veja local desta carta: Zirardów
32. A
. Fruscinska de São Paulo para um tal Sr. Slojewski
(endereço desconhecido). 27/03/1891
33. Leon Galbierczyk de Santo
Antônio da Patrulha Rio Grande do Sul para J. Kaminski e sua esposa (endereço
desconhecido). 28/12/1890
34. J. Gasiorowski de São
Paulo para um tal Sr. Javorsk (endereço desconhecido). 27/03/1891
35. Gasiorowski de São Paulo aos pais (endereço
desconhecido). 27/03/1891
36. Gasiorowski de São Paulo
aos pais (endereço desconhecido). 28/3/1981
37. Ludovico Gier do Rio de
Janeiro para uma destinatária desconhecida
38. Luiz Gmuchowski de São
Mateus do Sul, Paraná, para a Sra. Maria Zóltkowski (endereço desconhecido;
província de Lomza). A carta está endereçada para o padre de Bremen. 1/01/1891.
39. Estanislau Jablonski de Rio Carolina, Santa
Catarina, para seus pais (endereço desconhecido). 5/02/1891.
40. José Jaczynski de São
Mateus do Sul, Paraná, aos pais (endereço desconhecido). 22/02/1891
41. Adalberto Jakukowski de
Jaguari, Rio Grande do Sul, para a irmã (endereço desconhecido). 15/02/1891
42. João Jaras de São
Feliciano, Rio Grande do Sul à esposa (Zyrardow). 29/02/1891.
Veja local desta carta: Zirardów
43. Martim Kalinowski de Ijuí, Rio Grande do Sul
para Fernando Schultz, (endereço indefinido). 6/03/1891.
44. Martim Knaczynski de Silveira Martins, Rio
Grande do Sul a um destinatário desconhecido. 6/04/1891.
45. Martim Knaczynski de
Silveira Martins, Rio Grande do Sul. (o destinatário é desconhecido).
6/04/1891.
46. Alexandre Kucinski de São
Feliciano, Rio Grande do Sul à família. (endereço desconhecido). 23/12/1890
47. Mariana e Casemiro Kurków
de Indaial, Santa Catarina ao irmão (endereço desconhecido). 28/12/1890.
48. Adão Labuda de são Mateus
do Sul para seu cunhado (endereço desconhecido). São Mateus, 14 de fevereiro de
1891
49. Mateus lesinski de São Feliciano, Rio Grande
do Sul à esposa (endereço desconhecido). Falta data.
50. Josefa e Antônio Lewinski
de indaial, Santa Catarina o cunhado (endereço desconhecido). 22/03/1891
51. Valentim Miecikiewicz e sua mulher de Nunes (Massaranduba), aos pais. Santa
Catarina (endereço desconhecido). 2/01/1891.
52. Martim Miler e esposa de São Mateus, Paraná (destinatário desconhecido). em Ostrowy, mun. de Kutno. 20/11/1891.
53. Casemiro Monatowski de Blumenau, Santa Catarina
ao cunhado Antônio Bronski (endereço desconhecido). 1890.
54. Pedro Murlik de Santo Antônio da Patrulha, Rio
Grande do Sul para a família (endereço desconhecido). 26/11/1891.
55. João Muszynski de São
Feliciano, Rio Grande do Sul, á esposa,
Regimin, município de Ciechanów. 1/04/1891
Veja local desta carta: Regimin
56. Caetano Nowak de Rio
Carolina, Santa Catarina para a família (endereço desconhecido). 25/01/1891
57. Caetano Nowak, Rio
Carolina, Santa Catarina para o irmão (endereço desconhecido sem data e falta a
introdução da carta)
58. André Palinski de Alfredo
Chaves, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, à esposa (endereço desconhecido). 29/01/1891
59. José Rogowicz de Dona
Joana, Santa Catarina para a filha Úrsula, em Dobrosolosovo, município de
Konin. 5/03/1891
60. Estanislau Sabelski de
Brusque, Santa Catarina para os pais (endereço desconhecido). 15.03.1891
61. Antônio Saniewski de São
Feliciano, Rio Grande do Sul à esposa. (endereço desconhecido). 2/02/1891
62. João Sitniewski de Santa
Cândida, Santa Tereza (?) Rio Grande do
Sul para Francisco Baginski, Stara Wiés, município Prasnysz. 13/03/1891
63. José Skowronski e esposa de São Mateus, Paraná,
para os pais, Ostrowy, município Kutno. 19/03/1891.
64. Francisco Skurczynski de
Rio Negro, Paraná ao irmão (endereço desconhecido). 31/03/1891. Não existe o original e o texto foi
transcrito pelos assistentes da Universidade Polonesa Livre e Oculta de
Varsóvia
65. Alexandre Slwaski à
família de lugar indeterminado do município de Encruzilhada, Rio Grande do Sul
(endereço desconhecido). 27/12/1890
66. José, Josefa e Estanislau
Sobiesiak de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul aos pais. Zyrardów, 3/04/1891
Veja local desta carta: Zirardów
67. José Sobiesiak, de
Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul (endereço desconhecido). Zyrardów. Falta data.
68. Antônio Stolarski, de
Caxias do Sul aos pais (endereço desconhecido). Escreveu João Wietrzykowski. 25/01/1891
69. Constantino Strzelarski
de Santo Antônio da Patrulha, Rio Grande do Sul ao irmão Max (endereço
desconhecido) 23/02/1891
70. João Strzelec do Brasil
para Mariana Seklicka, (endereço desconhecido). 15/12/1890. Não existe o
original. O presente é transcrição reconstituída durante a ocupação pelos
alunos da Universidade Polonesa Livre e Oculta de Varsóvia. 15/XII/1890
71. Mariana e Teófilo
Suchowski de Porto Alegre à mãe (endereço desconhecido). 25/04/1891
72. Estanislau Ratas de
Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul aos pais, (endereço desconhecido). 23/03/1891
73. João Wietrzykowski de
Caxias do Sul aos pais, (endereço desconhecido). Falta a data
74. João Wietrzykowski, de
Caxias, Rio Grande do Sul à família, (endereço desconhecido). 26/01/1891.
75. Estanislau Wisniewski de
Nova Trento, Santa Catarina aos pais, (endereço desconhecido). 15/03/1891.
76. Inácio Zielenski, são
Mateus, Paraná, para destinatária desconhecida, Ostrowy, província Kutno,
15/11/1891. A carta foi escrita por uma outra pessoa.
77. Antônio Zielinski de Santo Antônio da Patrulha, Rio Grande do Sul para Nicolau Bama,
(endereço desconhecido). Correio Ciechanów. 26/11/1891.
78. Um autor desconhecido da
região de São Feliciano, Rio Grande do
Sul à esposa, (endereço desconhecido). Falta a data.
79. Autor desconhecido de Rio
dos Patos, Paraná, ao filho (endereço desconhecido). 21/03/1891.
80. Autor desconhecido, de um
lugar desconhecido do Brasil, para Tomás Konecki, (endereço desconhecido).
13/02/1891. Não existe o original, mas uma transcrição feita durante a ocupação pelos alunos da Universidade Polonesa Livre e Oculta
de Varsóvia.
81. Autor desconhecido, do
Brasil aos pais. (endereço desconhecido). 6/03/1891.
82. Autor desconhecido para
destinatário desconhecido (falta o princípio da carta).
CARTAS
22. João Baginski de São Feliciano, Rio Grande do Sul à
família (o endereço é desconhecido). 1/01/1891.
Brasil, 1 de janeiro de 1891
Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
Saúdo-vos
querida família inteira. Estamos aqui vivos e todos com saúde, toda a família.Descrevo a viagem toda, de Bremen a Rio de Janeiro.
(Levamos) 18 dias até Rio de Janeiro; nesta cidade ficamos de quarentena,
durante 12 dias; em outro navio viajamos durante 12 dias até Porto Alegre
navegamos três horas até a ilha. Nesta ficamos 12 dias e partimos de trem,
viajando três horas. Da ilha cavalgamos em bois e viajamos com carretas de duas
rodas, tiradas por cinco parelhas e viajamos durante sete dias. Chegamos a colônia São Feliciano, onde nos estabelecemos. Até agora
não recebemos colônias e não sabemos quando nos darão, mas esperamos que ganharemos em breve essas colônias. No momento participamos
de trabalhos diários pelo que ganhamos diariamente 2 rublos. Com isto adquirimos os víveres e a vida é cara.
Não tenho
ninguém conhecido, porque todos se espalharam, somente Inácio Bienkoski. Os
Leszcynski partiram para Mato Grosso. Se eles escreveram cartas, mandem-nos
notícias como passam.
No Brasil produz-se tudo; tudo o que se atira à terra cresce da melhor
forma. Pode-se colher duas vezes por ano. Descrevo tudo e não tenho nada mais a
escrever, porque não sei mais nada. Aguardem outra carta que enviarei, então
talvez possa descrever mais coisas. Peço-vos, queridos pais que me respondam
quanto antes. Rogo igualmente ao prezado tio que entregue essa carta a
Francisco Baginski na aldeia de Garkowwo. Endereço: América do Sul, Brasil,
Cidade Porto Alegre, Colônia São Feliciano, João Baginski. (a última frase,
após Brasil está riscada no original). Bilhete anexo: Escrevam para este
endereço: Brasil, Estado do Rio Grande do Sul / Porto Alegre / Município
Encruzilhada / Colônia Francisco Glicério / Herr Jan Baginski.
23.João Baginski e esposa de São
Feliciano, Rio Grande do Sul à família, (o endereço é desconhecido). 2/02/1891.
Brasil, 2 de fevereiro de 1891.
Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre Amém.
Queridos
pais, irmãos e irmãs. Levo ao nosso conhecimento que estamos com saúde por
graças de Deus, o que também lhes desejamos de todo o coração. Fizemos uma boa viagem.Quando chegamos ao destino recebemos uma propriedade
de uma légua de largura e não sabemos qual é o seu comprimento. Se é do vosso
desejo vir, venham e o mesmo que o faça o irmão mais
novo. O mais velho que permaneça (lá). Aqui cada um recebe sua propriedade.
Peço que me respondam se receberam a carta ou não. Solicito que escrevam antes
de viajar. Vocês terão que pagar 18 marcos da
fronteira até Bremen e de Bremen para o Brasil é grátis. Quando chegarem ao Rio
de Janeiro, inscrevam-se para Porto Alegre e
em Porto Alegre
para
Feliciano. Aqui o clima é igual ao da Polônia na festa de São João. Levem roupas de corpo e de cama e tudo o que puderem de
roupas e panos. Não são necessárias as roupas de inverno.
Escrevam-nos
e peço que nos forneçam o endereço de Antônio Olszewski da América. Não tenho
mais nada a escrever, a não ser fazer votos de sucesso e de boa viagem.
Lembranças a Alberto Bloskieewicz e a toda a família; ao Ruteczki e a todos os
conhecidos. Permaneçam com Deus.
João
Baginski e esposa Helena Baginska
Adeus.
A. Muzakowski (assinatura de quem escreveu a carta).
24. A
. Bakalarski de Florianópolis,
Santa Catarina, à esposa e filhos. (endereço desconhecido). 10/01/1891.
Sul
do Brasil, Cidade de Desterro, Estado de
Santa Catarina.
Dia
10 de fevereiro de 1891.
Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Queridíssima
esposa minha e meus caríssimos filhos. Apresso-me em noticiar e levar-lhes os
meus planos e a última decisão de trazer-te e a vocês minhas crianças.
Envolvi-me em muitos pensamentos, refletindo como fazer. Perdi mais de 100
mil-réis para encontrar vocês trabalho, querida
esposa, bem como para o Pech. Queria fazer-lhe isto de alma e coração, trazê-lo
juntamente com vocês. Ele seria o melhor protetor, querida esposa, tanto teu,
quanto das minhas crianças. Aguardava e buscava de diversas formas achar alguma ocupação para o Pech. Esperei pelas promessas
do povo, mas até o momento não tenho nenhuma posição certa para o Pech. Por
isso finalmente escrevo-lhes que não prometo ao Pech que o possa trazer. Uma
coisa apenas: não há para que chegar, porque há excesso de tecelães e os ganhos
na tecelagem estagnam-se de tal forma que não tem para que vir. Quanto a sua
fixação em colônia não lhe desejo, a não ser que tenha uma economia de uns mil
rublos então poderia adquirir algum terreno perto da cidade. Em segundo lugar a
passagem gratuita terminou com o Ano Novo.Somente
viajarão (gratuitamente) aqueles que tiverem bilhetes expedidos antes do Ano
Novo. Depois do Ano Novo o Sr. José dos Santos de Lisboa não enviará a ninguém
mais a passagem, porque a emigração foi cancelada. Ninguém mais chegará ao
Brasil por conta (do governo) brasileiro. Se alguém quizer (vir) pode faze-lo as suas expensas. Minha
querida Catarina podes dizer a todos os conhecidos que tudo foi água
abaixo para aqueles que se preparavam para (viajar na) primavera. Ouvimos que
metade da população desejava partir para o Brasil e, no entanto tudo falhou, a
não ser que queiram partir por conta própria. Por isso se o Pech chegasse,
deveria ter pelo menos 500 rublos para a manutenção de sua família. Mas quem
tem 500 rublos, também na Polônia estará bem e não necessita buscar o Brasil.
Agora
escrevo o que diz respeito a você, querida esposa e estimadas crianças. Para
aqueles que estão no Brasil, a situação apresenta-se
da seguinte maneira: quando o marido está aqui e tem esposa e filhos na Europa
ou quando o filho está no Brasil e deseja trazer o pai ou a mãe, a Emigração
ajuda, mesmo que se trate de irmão ou irmã. Para eles também conseguirá passagem
de graça, mas deve escrever (solicitando os bilhetes) não para Lisboa, mas para
Rio de Janeiro, cidade Capital, para a administração Central
só do Rio de Janeiro enviarão as passagens, todavia somente para aqueles
que tem no Brasil a mulher, o marido, os pais, o filho ou a irmã ou o irmão.
Portanto
eu, querida esposa, digo-te categoricamente e escrevo-te a carta que desejo
trazer com certeza, bem como as minhas crianças, o mais tardas até abril se
Deus todo Poderoso me der saúde. No que respeita à marcenaria, esta vai muito
bem, no Brasil. Especialmente um bom marceneiro de móveis é valorizado e por
sua capacidade e trabalho pagam bem. O nosso Szulc desde que retornei
pressiona-me, não me deixa em paz para que te traga e suas crianças. Quando te
trouxer, disse-me que vai aumentar a minha remuneração. Pede-se que não o
abandone. Disse-me que estava satisfeito e em verdade não possui nenhum outro
melhor do que eu, porque quando aparece um serviço melhor não tem quem o faça e
eu tenho que executa-lo. Disse-me para aprender o português então me entregará
a chefia e haverá uma nova marcenaria para 130 pessoas e precisará de um chefe.
Eu me decidi (aceitar) e disse-lhe que está bem, mas afirmei-lhe que não
possuía dinheiro para trazer a minha esposa em breve tempo. Ele me falou de
emprestar uns 100 mil-réis, para que junto com o meu (dinheiro) pudesse trazer
a esposa. Só então estará certo de que não o abandonarei, pois se estiver com
minha esposa, estarei obrigado a permanecer fixo. Ele mesmo encarregou-se de providenciar
a passagem. Foi comigo ao Cônsul prusso, Sr. Epkie, e o próprio cônsul escreveu
ao Rio de Janeiro, solicitando a passagem para você, queridíssima esposa e para
os meus filhos. O cônsul Epkie afirmou-me que receberei a passagem o mais
tardar em três semanas e que podia escrever a esposa para que se prepare
devagar, porque três meses passam depressa. Tão logo que me enviarem a passagem
do Rio de Janeiro, no mesmo dia enviar-te-ei, juntamente com o dinheiro.
Por ora te
aconselharei como deves portar-te e preparar para a viagem. Não escute ninguém
e não deixe que perturbem a tua cabeça. Quando receberes a passagem e o
dinheiro não tema nada, mas venha, porque o marceneiro o Brasil pode viver
muito melhor do que n Polônia. Agora escrevo-te,
querida Catarina para que não compres nada de vestidos, no Brasil pode-se obter
de muito melhor qualidade, pois só existe material francês e inglês. Os preços
são quase iguais aos da Polônia. Em segundo lugar não se usa as mesmas roupas
(que lá), mas leves e finas. Os maiores magnatas não usam roupas de lã, mas
vestem-se de “zagnatowe” e percaline.Só estes estão
em moda. Venha
com aquilo
que você e as crianças possuem. Se não tens vestido ou a Clara ou a Ladislava,
então compre apenas um, mas “zagnatowe” e de cor escura. Se Joãozinho e
Romeuzinho não têm ternos pode lhes comprar de “cajga” e leves. Se comprou ao Joãozinho um paletó de inverno e um capuz para
a Ladislava, como te escrevi, pedindo que comprasses roupas quentes, não as
desperdices, mas sim leve consigo porque às vezes há dias frios no navio e
roupas quentes servem. Permanece-se aproximadamente 4 semanas sobre as águas. Você se tiver alguma coisa mais quente leve consigo,
porque durante a viagem tudo o que existe, serve. Quanto à roupa de cama, venda
os dois cobertores de pena e em seu lugar compre uns dois acolchoados. Não
compre aqueles de algodão, mas de lã. Podes adquirir em Bremen, onde é mais
barato do que na Polônia. Leve-os consigo conservando perto de si porque
servirá para se cobrir no navio.
Em Zyrardów
no máximo podes comprar três cortes de fazenda para camisas, um par de toalhas
de rosto, umas duas ou três toalhas de mesa e uns dois cobertores. Para mim não
compre nada, porque essa graça também consigo no
Brasil. Leve consigo o relógio, pois estes são caros no Brasil, bem como os
quadros de Nossa Senhora de Czestochowa e Santo Antônio e coloque-os no meio
dos pertences para não se quebrarem. Leve consigo os travesseiros que tens e
coloque-os nos colchões da mesma forma como vistes que fizeram na casa de
Lazarek. Leve também os lençóis, o mais que tiveres. Escrevo-te mais uma: não
venda os travesseiros, mas traga consigo e o resto venda tudo. Venha
imediatamente, após receber a passagem e o dinheiro. Quanto às roupas e objetos
vá a Varsóvia e compre um baú e acondicione tudo nele. É a melhor forma. Não
carregue consigo o cofre, porque é muito pesado. Sobre o baú e sobre os
colchões onde acondicionarás os travesseiros, escreva com letras grandes, tinta
preta para que não se apague, escreve assim: Catarina Bakalarska, Nº 1; sobre o
baú, e sobre o colchão Nº 2. Ainda tens que levar mais uma cesta porque não
podes empacotar todas as coisas.É preciso deixar
algumas roupas para trocar, tanto para você, quanto para as crianças, pois não
se pode viver quatro semanas com uma camisa só.
Quando te
enviar a passagem e o dinheiro, escreverei mais. Só eco-te querida Catarina,
não receie nada. Vão à confissão antes da partida e levem consigo para ajuda
Deus e Mãe Divina e ela não abandona a ninguém que a Ela recorre. Peça a
Bakiewicz e diga que eu peço se ele não poderia fazer junto com o comissário
Kowalski para ajudar-te na passagem pela fronteira. Talvez de alguma forma
pudesse emitir-te o passaporte, porque viajar até Kalisz a despesa é muito
grande. Se o Sr. Kowalski negar, experimente em Grodzisk com o Sr. Pieczewicz e
peça-lhe o favor, porque não deixam sair sem o passaporte, nem a você, nem as
crianças. Faça constar no passaporte todas as crianças. Se não conseguir desta
forma, talvez te posso oferecer outro conselho. Quiçá
eu possa fazer alguma coisa junto ao Sr. Epkie. Pode ser que mande a passagem e
o dinheiro antes da Páscoa. Na outra carta vou-te escrever mais como deves proceder, o que deves comprar, como te deves comportar
no navio e quando devem partir da casa. Abraço-te e bejo, juntamente com as
crianças. Responda-me o mais depressa possível. Enviarei o dinheiro ao Pech,
junto com a tua passagem.
A.
Bakalarski.
25. A
.
Bakalarski de Florianópolis, Santa Catarina à esposa e filhos, (endereço desconhecido).
2/02/1891.
Desterro
no dia 1º de março de 1891
Província
de Santa Catarina.
Minha
estimadíssima esposa e queridas crianças!
Escrevo-te pesaroso profundamente esta carta, caríssima esposa e caros
filhos. Desejava mandar, como auxílio dinheiro, 50 mil-réis no momento, para as
festas para que minhas crianças não sentissem desejo ao olhar outras crianças,
porque na Polônia existe esse costume. Quer dizer que pretendia enviar-te 100 marcos, mas você, esposa querida não vai acreditar
quanto me magoou o que fui saber somente agora. No dia em que te desejava
mandar o dinheiro, isto é no dia 2 de março, primeiramente falei com o Sr.
Szulc que pensava em mandar-te dinheiro, cujo montante no momento seria de 100 marcos. Sei que você não tem com que viver juntamente
com meus filhos. No mês de abril pretendo enviar mais para a viagem ao Brasil,
isto é para que venhas para junto de mim. Narrei-lhe o problema que tiveste com
aquela letra de câmbio que te mandei no valor de 200 marcos.
Disse-lhe que desta feita pretendia resolver de outra maneira, com estes 100 marcos. (Falei-lhe), porque Szulc é meu mestre e
foi ele que me acompanhou até o cônsul prussiano, Sr. Epkie. Explicou-lhe a
minha intenção de enviar 100 marcos a minha esposa,
narrou-lhe os problemas que tiveste com as letras de câmbio, solicitando outra
solução. Entretanto Epkie respondeu-lhe que agora não quer incomodar-se por
preço nenhum, em mandar dinheiro para a Polônia, isto é, para um Estado Russo.
Aquelas letras de câmbio que mandei no valor de 200 marcos, ele teve que pagar
20mil marcos e disse: que boba foi essa mulher desse operário ao vender as
letras a um judeu, em vez de vende-lo num banco que
mantenha intercâmbio com banco de Berlim ou Hamburgo. Ela vendeu a um judeu e
este falsificou a letra para 20 mil marcos. Foi a
Berlim e lá o banco pagou-lhe a quantia.
26. A
.
Bakalarski de Florianópolis, Santa Catarina à esposa, (endereço desconhecido).
Falta a data.
Sul
do Brasil, Cidade de Desterro,
Província
de Santa Catarina.
Queridíssima
esposa e caras crianças.
Minha querida esposa trago-te notícias sobre a tua viagem.
Tudo aconteceu diferente do que te escrevi naquela carta. Não serei eu a
mandar-te a passagem. Mandaram-me de volta do Rio de Janeiro para o Escritório
da Administração da Emigração em Desterro e convocaram-me para (falar com) o
Diretor. Comigo foi o tradutor e anotaram o teu nome,
minha esposa. Escreveram o teu nome e sobrenome e igualmente das crianças e
remeteram para Portugal, Lisboa e de lá enviarão as passagens. Assim me
falaram. O Diretor de lá tem autorização para tanto. Pelo fato de me encontrar
no Brasil inscreveram-me junto ao Diretor da Emigração. Do contrário não
conseguiria as passagens para vocês. Mandaram imediatamente para que não houvesse
uma delonga maior. Lembre-se de mandar alguém ler, logo após receber a passagem
porque lá está determinada a data que deves te apresentar. Pedi para que
enviassem para abril ou maio, mas não sei se fizeram como eu pedi. Se receberes
para março ou abril, poderás partir em abril, todavia não existe problema em
atrasar até maio. Se partires no mês seguinte procure acertar para a mesma data
que consta na passagem, porque os navios partem mensalmente. Lembra-te, minha
esposa, reflita bem se irás expor-te a tamanhos sacrifícios, com tantas
crianças para uma viagem tão longa. Não quero fazer imposições. Você tem juízo,
por isso medite bem porque com as crianças vai ficar bastante penoso. Pondero
da minha parte que as crianças já não são tão pequenas. Ladislava e Janka podem
ajudar-te. Peço-te querida esposa, sacrifiquem-se um
pouco, peça ajuda a Deus e Sua Santíssima Mãe e não te perderás com minhas
crianças. A vida que agora levamos não serve para nada. No Brasil um marceneiro
pode viver bem melhor do que na Polônia. Minhas (crianças) Ladislava e Janka,
vocês já estão com uso da razão. Já não são crianças cuidem do Romeuzinho e do
pequeno Alexandre durante a viagem porque a mãe terá que se preocupar com os
pertences e outras coisas. Lembrem-se de que devem ser auxílio para a mãe.
Tudo está
muito bem, minha esposa e queridas crianças, mas fiquei muito triste em saber
que vão viajar para Antuérpia e não (via) Bremen. Isto deve-se ao fato de que não se pode embarcar para o Brasil em Bremen, mas só em
Antuérpia, no mesmo lugar onde Kaleja embarcou para a Argentina. Isto porque a
emigração foi suspensa ou cassada, mas aqueles que tem familiares no Brasil vão receber passagens, porém via Antuérpia e não via
Bremen. De Bremen não te levarão, assim me disseram no Brasil, no Gabinete do
Diretor da Emigração. Não podes ir para Bremen. Deus te livre, porque lá não te
deixam embarcar. Escrevo-te mais uma vez de que de Bremen não partem navios,
conforme me informaram. Isto me entristece e preocupa muito, porque o caminho para
Antuérpia é mais longo e não o conheceis. Para Bremen o caminho é direto e
conheço-a bem e poderia descrever-te para Antuérpia, porém, como sabes
desconheço o caminho. Perguntei a muitos se o conheciam. Desejava descrever-te
pelo menos pela descrição, pelo menos aproximadamente. Ninguém conhece aquela
rota e não poude saber nada por isso não te descrevo a viagem que deves fazer.
Peço-te com certeza sabe, uma vez que seu filho viajou via Antuérpia. Ele tem
que saber. Peço-o em meu nome, diga que o imploro por tudo para que te explique
como deves te portar em Berlim, quando lá chegares. Quando comprares a passagem
na fronteira, compre somente até Berlim e em Berlim deves comprar bilhete para
Antuérpia. Minha querida esposa, em que estação deves desembarcar em Berlim,
não te vou escrever porque lá existem cinco estações
por isso pergunte aos condutores do trem. Diga-lhes que deseja viajar para
Antuérpia. Ele é o mais indicado para te explicar em que estação deves desembarcar em Berlim e onde deves comprar a passagem
para Antuérpia.
Querida
esposa, você sabe que será bastante difícil chegar até aqui. Se fosse via
Bremen seria melhor, mas agora que mandam viajar par
Antuérpia, isto me aborrece. Como você vai chegar até lá com as crianças e
pertences? Oh, isso me preocupa, toda vez que penso em tua viagem. Se tivesse
boa saúde e alguma família junto como era nossa intenção, pois o Pech deveria
ter vindo junto. Agora, porém não adianta esquentar a cabeça porque Pech não
ganhará a passagem e, em verdade, não tem para que vir para cá. Isto já lhe descrevi em mais de uma carta, sobre a situação
no Brasil. Por isso pense bem, minha esposa, se deves ou não arriscar. Pondere
bem se tens saúde e força então não preste atenção para nada, mas venha. Mas se
refletires que não darás conta sozinha e que poderias perder as crianças então
melhor desistir. Eu assim mesmo não vos esquecerei, e daqui a alguns anos
poderei voltar. Somente te falo que no Brasil os negócios par marceneiro são
bons. Pode-se viver melhor do que na Polônia. Por isso escrevo-te mais uma vez,
se julgas que darás conta com as crianças então não ligue para nada, para o
medo de que falam, somente leve para auxílio a Deus e
venhão tão logo receber a passagem. Mandarei dinheiro em fins de março, quanto
puder. Esforço-me, quanto as forças me permitem para
vir em vosso auxílio. Se julgam que poderão dar conta
venham para fins de abril ou no final de maio. Quando chegar a Antuérpia exija
sua bagagem. Na estação haverá agentes. Mostre-lhes a passagem. Eles te levarão
sob sua proteção. Lembre-se minha esposa, principalmente em Berlim, porque em
Berlim é como no inferno. Tão logo você desembarca do trem, peça imediatamente
sua bagagem. De preferência compre um baú grande em Varsóvia e coloque nele
seus pertences, o resto
em colchões. Peça
ao Lipinski que faça a inscrição
com letras grandes, tinta a óleo e preta no baú: Catarina Bakalarska Nº 1. No
colchão da mesma forma: Catarina Bakalarska Nº 2 e o resto
das coisas para si e para as crianças leve consigo. Quanto aos negócios,
não faça nenhum. É suficiente que possam com que viajar. E ainda te escrevo,
querida esposa, compre para si uma cesta para que possas levar consigo. Compre
para manutenção uns 15 limões,
10 libras
de açúcar, meia libra de chá, porque
serão úteis no navio. Quando estiverem com ânsia tomar um limão e espremer
sobre o açúcar e dar às crianças. Podes fazer com freqüência chá. Você pode
obter água pronta na cozinha do navio. Compre umas 2 ou 3 garrafas de vinho tinto, umas
3 libras
de manteiga, queijo suíço igualmente
algumas libras. Quando chegar a Antuérpia compre umas duas tigelas de latão. As
facas e as colheres leve na cesta e mantenha consigo e uns dois canecos. Mande
a um latoeiro que te faça uma chocolateira porque será útil para água e outras
coisas. Adquira igualmente umas duas libras de sabão. Quanto para a viagem de
trem até que cheguem ao navio prepara mantimentos para três ou quatro dias o
que julgar melhor. Compre algumas libras de presunto e asse umas boas libras de
carne. Lembre-se que serão cinco pessoas. Quando chegarem ao navio não passarão fome, porque ali dão comida à vontade para quem
pode comer, e é relativamente boa. Recomendo-te querida esposa: cuide das
crianças. Não permita que corram quando estiverem no navio, pelo menos sem o teu
cuidado. Quando o navio navega calmamente podem subir ao convés, porque lá é
mais saudável e agradável. Quando o navio balouça é melhor que fiquem deitadas
na cama, porque há casos em que passageiros caem e quebram ou machucam a
cabeça. Quanto ao andar pelas escadas para subir ao convés, deve-se ter muito
cuidado, porque muitos descem de fundilhos, quando o navio balouça. Fui
testemunha da queda de uma senhora da escada. Machucou-se tanto, quebrou uma
perna e morreu em três dias. Ela estava naquele navio que eu viajei.
Lembre-se,
minha esposa escolha as camas superiores. Escolha uma para si e para as
crianças. Não escolha as de baixo, porque quando os de cima começam a vomitar,
vomitam diretamente sobre as cabeças daqueles que estão
em baixo. Isto
não é agradável,
por isso mantenham-se nas camas de cima. E escrevo-te querida esposa, compre um
urinol de latão, pois tens crianças e constantemente vão querer satisfazer suas
necessidades. Creio que não seria fácil buscar cada vez o banheiro. Leve uns
dois cobertores e travesseiros, conserve consigo, porque no navio não há nada
para se cobrir, nem para por sob a cabeça. Cada um tem que ter os seus. Naquela
carta escrevi-te que vendesses os cobertores de pena e em seu lugar compre 2 acolchoados de lã e os travesseiros melhores leve e
empacote nos colchões. Leve os piores e mantenha-os consigo para que tenham
sobre o que repousar a cabeça. Os acolchoados podem ser comprados em Antuérpia,
ou se preferes, podes comprar em Varsóvia, porque lá também podes obter desse tipo,
por quatro rublos e são belos. Leve-os consigo para se cobrir, não guarde no
baú. Compre um pouco de fazenda e um par de toalhas, umas duas ou três toalhas
de mesa e não compre nada mais porque no Brasil pode-se conseguir o mesmo.
Agora no que diz respeito à travessia pela fronteira. Se o comissário não
fornecer nenhuma instrução, peça-a a Janowski para que tome certidão em nome de
sua esposa. Vocês inscrevam-se como Janowski e não com Bakalarski. Peço ao
Jankowski que ele te faça isto. Se ele não puder fazer, então peça Bakiewicz.
Diga-lhe que eu o peço por todos os meios, para que te possa de alguma forma
transpor pela fronteira. Não arrisque sem o passaporte porque não permitem
ultrapassar a fronteira. Se não houver outro jeito então tens que viajar até
Strzemieszyce. Fica na fronteira com a Prússia, última estação antes da
fronteira. Aqui vai receber orientação para o prosseguimento da viagem de Romão
Grabinski. Ele é irmão de um colega meu, com quem moro junto e trabalho na
firma do Szulc. Quando chegares a Strzemieszyce tome uma charrete e chegue a
Grabocin na residência do marceneiro Romão Grabinski.A
bagagem pode deixar na Estação, porque a sua residência dista apenas 3 léguas
da estação. Esse Grabocin é uma grande fábrica, uma mina de carvão. Isto quer
dizer Alemanha, chama-se da mesma forma que entre nós
Ruda Guzowska e a fábrica Zyrardów (?). Peça ao tal Romão Grabinski e ele te
fará os bilhetes de travessia. Meu colega escreveu-lhe e é seu irmão. Ele
pediu-lhe que fizesse para você e ele responde que se a esposa do colega
chegasse, ele faria o documento. Ele vai-te esclarecer como deves portar-se e
onde comprar as passagens para a continuação da viagem. Você também lhe peça
para que ensine os caminhos certos. Esse documento de travessia é a mesma coisa
que passaporte. Basta que te faça e ele com certeza fará.
Podes ir porque ele é conhecido dos funcionários muito bem e já fez para
muitos. Além do mais trata-se de uma pessoa muito boa,
mande-lhe os meus respeitos e diga que eu peço por amor para que te informe e
faça atravessar a fronteira. Esse será o meio mais fácil de ultrapassar a
fronteira. Não é necessário pedir favor a Jankowski ou a Bakowicz. Em caso de
ser interrogado pelos gendarmes, durante a viagem de trem, na estação de Ruda,
diga-lhes que estás viajando para Czestochowa, par a
casa da irmã. A estação de Strzemieszyce é terceira ou quarta depois de
Czestochowa. Romão Grabinski ocupar-se á contigo como se eu próprio estivesse
contigo. Ele me conhece pois estivemos juntos em Lódz,
na firma de Kamer. Lembre-lhe a meu respeito e sobre Pyrka. Quando Pyrka saiu
da firma de Kamer pela primeira vez então eu trabalhei em ladrilhos.
Minha
esposa siga as instruções, como te escrevo e tudo sairá bem. Mandamos uma outra carta para Romão Grabinski que já te mandamos a
passagem e que certamente irás procura-lo em abril ou maio. Pedimos mais uma
vez para que te faça com toda certeza e exponha a despesas. Minha querida esposa, se
julgas que darás conta durante a viagem, então venha. O pior será chegar
até Antuérpia. No instante em que estiveres no navio, metade
das dificuldades estarão superadas.
Não vou te
escrever mais nada porque não disponho de tempo. Acabei a carta durante o café.
Noutra carta direi mais detalhes. Peço-te que não tenhas medo de nada, somente
se julgas que vencerás as dificuldades, venha.
Você já
está com o endereço para o irmão do meu colega. Recomendo-te ir até lá porque
assim será melhor. Ele te fornecerá as informações e ajudará a transpor a
fronteira. Pergunte direito onde deves apanhar os bilhetes para Berlim. Ao
receberes esta carta, responda-me no mesmo instante, para que eu saiba como
devo esperar tua chegada.
Peço-te
ainda uma vez. Medite bem se deves ou não vir e responda-me a verdade. O dinheiro vou mandar-te de outra maneira. Enviarei em marcos prussianos que serão mandados de Berlim ou Hamburgo.
No fim do mês de março receberás 300 marcos e quando
os receber não troque em dinheiro russo. Se vieres para isto não é necessário.
Use estes marcos para a tua manutenção. Abraço a todos
e peço resposta.
O endereço
do trem que vai para a casa do irmão do meu colega é este:
Romão
Grabinski, marceneiro/Grabocin ou Alemanha, aldeia Bedzin/última estação de
estrada de ferro, Szamieszyce.
Recomendo-te
ir para lá. Será o melhor.
A.
Bakalarski.
27. Antônio Bartnicki de Santo Antônio da Patrulha, Rio
Grande do Sul ao filho Adão. Ciechanów (?). 224/03/1891.
Louvado
seja Jesus Cristo!
Querido
filho Adão.
Não te
preocupe o fato de não ter-te escrito carta porque até hoje ainda não estamos
em lugar definitivo, o que deve acontecer pela festa do Divino Espírito Santo,
quando estaremos em nossa propriedade prometida. Por ora permanecemos por conta
do governo, isto é ganhamos para a manutenção e moramos em barracos.
Por graças
de Deus Supremo estamos todos com saúde o que também desejo a você meu filho e
a tua esposa de todo o coração. Depois da partida da Pátria em pouco tempo
chegamos de trem prussiano para a cidade de Bremen. Após alguns dias novamente
viajamos de trem expresso para a cidade portuária Bremerhaven. Diante de nossos
olhos surgiu o navio, recém construído, enorme, de dois mastros de ferro de
nome Darmstadt. Aqui é o último adeus com a Europa. Começou o embarque.
Embarcaram 500 famílias, isto é 2.600 almas e ao mesmo tempo uns 180 serventes
do navio, isto é marujos. Darmstadt partiu no dia 23
de novembro de 1890, navegou pelo mar alemão. Em 24 horas aportamos em
Antuérpia, cidade marítima na Bélgica. Aqui o vapor carregou durante 48 horas,
pois levou muita mercadoria para a América. No dia 27 de novembro partimos de
Antuérpia para o Oceano. Após 21 dias de viagem vimos a costa do Brasil, isto é América do Sul. Durante todo o percurso vimos apenas
duas ilhas, uma delas na Espanha, Las Palmas e outra pertencente à África, São
Vicente. Desembarcamos somente no dia 15 de dezembro de 1890 numa ilha próxima
a cidade Capital do Brasil, Rio de Janeiro. Aqui nos perguntaram para onde
desejamos ir, para que região do país e deram-nos 8 dias para decidir. Escolhemos o sul, porque lá é mais ameno o clima, portanto
para Porto Alegre. Novamente embarcamos em navio grande e viajamos durante 6 dias e desembarcamos exatamente na cidade de Porto Alegre.
Aqui novamente nos perguntaram para onde queremos ficar na província. Aqui
durante algumas semanas ganhamos a manutenção do governo e depois instalaram-nos em carroções tirados por 12 bois. Os
carroções eram de duas rodas. Em cinco dias alcançamos as serras, onde
instalamo-nos em enorme barraco e permanecemos até hoje. Aqui ganhamos 500 réis
para a comida para cada pessoa adulta. Aqui entra em conta também uma criança
de 12 anos. Portanto eu recebo diariamente para alimentação 2 mil reis. Por 100 réis pode se comprar por exemplo:
meia libra de açúcar escuro, 1/3 de libra de carne de gado, quase uma quarta de
cachaça que aqui é a mais barata, uma libra de feijão, mais de meia libra de
farinha de trigo, uma grande abóbora, como um balde, que na Rússia custa 15
kop. 100 réis é a mesma coisa que lá 12 centavos, ou 6 kop.
Quanto à produção,
basta perguntar aqueles que conhecem a Geografia Universal e eles te dirão que
a América Latina é a mais rica em todo o mundo. Aqui até sobre pedras crescem
enormes cactus e ao longo dos caminhos medram enormes árvores de “oleander”, e
laranjeiras. Sobre jardins, nem fale pois neles
crescem frutas e flores que entre nós não crescem nem em vasos e aqui medram em
qualquer canto.
O que diz respeito ao plantio aqui começam apenas no mês de
agosto, agora aqui é época de chuvas fortes. Chove cada semana porque aqui o
calor é de 30 graus, enquanto as noites são frescas e com bastante orvalho.
Planta-se aqui trigo e o centeio é vigoroso, o milho e o arroz aqui são mais
procurados, cevada, feijão preto, batatinha branca e americana (provavelmente
batata doce) crescem muito bem, repolho, pepinos,
cenoura, abóbora, tomates, bulbos, e tudo aqui cresce muito bem porque a terra
é boa. Ganhará aquele que levar consigo da Polônia
sementes. Também deve-se levar roupas de corpo e cama,
porque aqui são muito caras. Igualmente deve-se trazer
ferramentas e objetos de metal porque aqui são importados da Inglaterra e
Alemanha. Faz bem aquele que se cuida com o dinheiro. Por exemplo, deve-se
chegar para Bremen ou no dia 8 ou 18 de cada mês, porque se vier antes deverá
comprar a alimentação por sua conta. Aqui é necessário cuidar-se porque
exploram nos hotéis. Quando se chega ao Brasil, cada um que se dirija para
aquela região, onde tem família, porque aqui contratam para serviços. Não se
deve dar ouvidos a ninguém a não ser ao governo que dá terra de graça e ajuda
no valor de 50 mil-réis e 120 morgas de terra.
Rogo-te
filho, venha e traga junto consigo Marciana Jaworski. Leve consigo roupas de
corpo e cama, quanto mais.Não dê atenção para a língua
do povo. Deve-se levar consigo algumas ervas medicinais polonesas para o navio,
porque aqui é difícil adquirir e até não existem. Peço-te Adão, quando
estiveres em Bremen compre para mim um fuzil, porque na Prússia é barato e aqui
muito caro. Eu tenho um mais ou menos, mas servirá para você. Se for possível,
traga quadros (de santos) e miudezas porque aqui são muito caros. Um vidro
pequeno de
14 polegadas
quadradas custa 1 mil reis, pois são importados os
vidros da Bélgica.
Não tenho
nada mais a escrever a não ser permaneça com Deus e mande meus cumprimentos
primeiramente a Antônio Bartnicki, Júlio Puchalski e esposa, Antônio Puchalski
e esposa e finalmente a todos os companheiros de Ciechanów e a todos os
cidadãos. Se alguém deseja pode chegar porque para mim até o presente, Graças a
Deus, vai muito bem. Todos estamos com saúde, isto é a
esposa e minhas duas filhas estão com boa saúde. O trem, através da Prússia
custa 18 marcos e nós vendemos cada rublo russo por 2 marcos e 40 fennigs na Prússia. Assim pagavam naquela época e depois mais caro.
A partir de Bremen é grátis e graças a Deus a alimentação é boa durante toda a
viagem. De manhã dão café e um pão, para o almoço arroz, feijão, carne, às
vezes batatinha ou repolho e para o jantar café e pão ou alguma coisa cozida.
Nunca tivemos fome, até agora.
Agora tens
o meu endereço em português, bem no final desta carta e escreva-o no envelope,
em caso de me endereçar uma carta. Sigam-nos da seguinte forma: quando chegarem
ao Rio de Janeiro, para a primeira ilha, peçam que os mandem para Porto Alegre
e aqui solicitem novamente para que vos mandem para a colônia Santo Antônio da
Patrulha e aqui nos achareis a todos.
Escrevi
esta carta na Nova Colônia de Santo Antônio da Patrulha, na província de Porto
Alegre, no dia 24 de março de 1891.
Despedimo-nos
de vós
Antônio
Bartnicki
Beijamos
cordialmente
Se alguém
não tiver dinheiro que empreste de outro e aqui terá a restituição porque é
possível ganhar.
Unidas
Estados Republika Brazil
Estado do
Rio Grande do Sul,
Colônia Villa
Novo Santo Antônio da Patrulha
Antônio
Bartnicki.
28. Inácio e Mariana Binkowski de Silveira Martins, Rio
Grande do Sul para sua esposa e família, (endereço desconhecido).
Dia
15 de março de 1891.
Nas
primeiras palavras de minha carta, louvado seja Jesus Cristo. Por
todos os séculos dos séculos, amém.
Querida
esposa prepara-te o mais depressa possível para chegar ao Brasil para junto de
mim, pois aguardo-te impaciente
em Silvério Martins. E
você, irmão Francisco Hojnacki com sua esposa, deixe tudo para a avó (...) e
siga os meus passos, trazendo consigo minha mulher o mais depressa possível.
Leve em dinheiro o mais que tiver, pelo menos uns 60
rublos. Também você, tio Mateus Jaworski e esposa tragam os bens que possuís e sereis grande senhor no Brasil. Ao chegar a Bremen sereis
levados para um hotel para ficar por alguns dias até a chegada do navio. Vão
ter alguns dias de folga. Comprem umas três espingardas de cano duplo, uns três
revolveres, mas bons e munição para os mesmos: umas
30 libras
de pólvora e
cartuchos, chumbo, porque no Brasil são necessários contra os pássaros que são
abundantes e no Brasil é difícil conseguir (armas). Atracareis na primeira ilha brasileira, Rio de Janeiro. Lá inscrevam-se para Porto Alegre e de Porto Alegre para Silvério Martins. Ali eu vos
aguardarei com impaciência. Reúnam-se em maior número possível. O irmão
Dymkoski e Dziwunkoski e todos os conhecidos que estão com vontade de vir para
o Brasil que não tenham medo de nada e não prestem atenção para a fala do povo.
Quando
estiverem para atravessar a fronteira, dirijam-se para Osiek. Fiquem em algum
lugar, procurem junto à fronteira algum sitiante para que ele vos apresente a
um russo. Acertem com ele (a importância) e ele vos fará atravessar a fronteira,
sem qualquer problema. Igualmente suplico-vos, caio de joelhos perante você,
querida esposa para que encomendem uma Santa Missa em minha intenção e roguem a
Deus e sua Mãe, querida família. Suplico-vos querida família para que respondam
quanto antes porque aguardo impaciente e derramo lágrimas, lastimando minha
sorte porque é penoso para mim ficar solitário.
Agora mando
lembranças para toda a família: a ti querido vovô e avó, a ti esposa e mãe,
caio de joelhos diante de vós, a vós viúva Wieniecki com tuas filhas apresento
a minha reverência, venham igualmente para o Brasil. Agora não tenho nada mais
a escrever, somente a vós querida família e a todos os conhecidos mando
lembranças e ainda mais uma vez peço urgente resposta a respeito de como andam as
coisas. Não tenho mais nada a comunicar e que Deus nos ajude, amém.
Inácio
Kalinowski igualmente manda a sua esposa Miguelina os mais profundos respeitos,
para os pais e para toda a família da mesma forma e pede que venham ao Brasil.
Envia igualmente os mais respeitosos cumprimentos aos Zieminski e pede que
mandem resposta urgente. Peço resposta sobre a situação (reinante) lá. Agora o
nosso endereço é: Brasil, Estado, Che, (sic).Rio
Grande do Sul.
(Segue
escrito com outra mão):
Prezado e
querido cunhado, Inácio Gromceski.
Graças a Deus Poderoso estamos com saúde o que também vos desejamos, bem como tudo aquilo que pedia\s a Deus. Estimado
cunhado apresente minhas saudações a Kcinski e sua esposa e a seus filhos. Querido cunhado se tens vontade e intenção venha com
Kucenski para cá porque é melhor do que na Polônia, para vocês também vai ficar
melhor que na Polônia. Quando estiverem em viagem, façam como nós e nos
veremos. Permaneçam em Deus.
Inácio
Binkoski e sua mulher
Mariana
Binkoski.
29. André Borkowski de Tomás Coelho, Paraná para a família,
(endereço desconhecido). 10/3/1891.
Brasil
dia 10 de março de 1891.
Queridos
Pais.
Estou com
saúde graça a Deus todo Poderoso o que também vos desejo. Quanto à situação não
vou escrever, porque a situação não está definida. Tenho fé em Deus, que as
coisas vão melhorar porque aqui já há colonos com
15 a
20 anos e estão bem,
embora fossem emigrantes, como eu. Lá na Polônia
propalavam que iríamos viver sem religião. Isso é mentira, porque temos
sacerdotes e bispos e quem quer, pode crismar-se. Tudo é da mesma forma como na
Polônia. Aqueles que estão com famílias, isto é, casados ou pais com filhos
podem receber propriedades nas colônias. Eu, embora a lei me faculte receber
terra como aos outros, não quero. O que faria com ela sozinho, uma pessoa. Aqui
dão propriedades relativamente grandes, segundo nossa medida trinta morgas e só
com matas. Como eu procederia com isto? As terras são muito boas, produzem de
tudo, da mesma forma que na Europa. Não há necessidade de
prepara-las tanto. O clima é mais ou menos ameno, de forma que no verão, ou seja em dezembro o calor vai 28 ou 30 graus, o que
é igual ao da Polônia. Durante o inverno, segundo dizem, as geadas são de três
graus durante a noite e durante o dia faz calor que se pode andar de camisa.
E vós
queridos pais, se estão gozando de boa saúde e se puderem, venham para cá. Sempre será melhor do que na Polônia em trabalhos assalariados.
Receberíamos uma colônia e labutaríamos em nosso pedaço de chão (no original:
em nosso pedaço de pão) e viveríamos à vontade, sem problemas. O governo
brasileiro cuida bem do povo a tal ponto que aqueles que vivem aqui, há vinte
anos, não pagaram ainda três réis de imposto. Portanto se decidir partir, não
disperdicem os pertences, nem roupa de cama. O mesmo digo com relação às
roupas, porque aqui são demais caras. Aquilo que lá custa um rublo, aqui sobe
para 4 rublos. Podem levar todas as sacolas tanto de
trem, quanto de navio. Não se deixem ludibriar com o dinheiro. O dinheiro russo
circula bem em toda a parte, até no Brasil. Recomendo-vos queridos pais se
tiverdes intenção de partir em viagem para encontrar uma pessoa decente que
conheça bem os meandros da fronteira. Peçam que informe adequadamente a
passagem pela mesma. Nisto concluo a minha carta porque tenho dificuldade em
descrever mais amplamente. Nem sequer mesa apropriada possuo.
Encontro-me como
em
viagem. Envio-vos
os mais profundos respeitos, abraços e
beijos, milhões de vezes a todos. Com amor André Borkowski.
Querido tio
quando receber esta carta então envie-a com a maior
urgência ao pai.
Meu
endereço: quando chegarem ao Rio de Janeiro alistem-se para o Paraná, Província e me achareis na Colônia Tomás Coelho, nos barracos
dos emigrantes, mesmo que eu não esteja, lá informarão porque me acho inscrito.
30. Ana e Jacó Bufalt de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul
aos pais (Zyrardów). 2/04/1891.
Veja local desta carta: Zirardów
Brasil,
dia 2 de abril de 1891
Noticiamo-vos
que estamos com saúde o que também vos desejamos. Depois que partimos de
Zyrardów, em 16 de outubro, 10 semanas depois chegamos ao nosso destino, isto é
para a colônia. Ganhei 4 wlócas por terra, só mato,
bem como 80 mil-réis para a construção de casa própria,
32 libras
de pregos, uma
fechadura, quatro dobradiças e ganhamos também implementos para a lavoura.
Recebemos igualmente um machado, duas enxadas, uma picareta, uma pá cortadeira,
um facão, uma foice para desbastes de galhos e uma serra que deverá servir para 7 famílias. Por tudo isso pagar-se-á apenas 200 mil-réis no prazo de 10 anos. Se alguém não tiver recursos ficará
pagando até a morte. As árvores são de diferentes espécies. Sua grossura varia
de um, 2, 3 e
4 metros
e a altura de 20 ou
30
metros
. Nós não as conhecemos, a não ser uma, “manhon”. Os pinheiros são mais ou menos grossos e
altos, mas são diferentes do que na Polônia porque não possuem
nós na parte baixa, somente
em cima. Fornecem
muita madeira.Nós
não os serramos, porém, partimos com cunhas de ferro, lascando tabuinhas e
taboas de diversos tipos são rachadas, como cartas de baralho. Os pinheiros não
são tão densos. Um dista do outro de
30 a
40 braças e entre eles vegetam pequenos
arbustos e vegetação. Em duas semanas pode-se cortar lenha suficiente para o
ano inteiro. Para semear, corta-se, deixa-se alguns
dias e quando seca ateia-se fogo. Após a queimada não se vira a terra, não se
ara, mas lança-se a semente à terra, entre tocos e
troncos. Tudo cresce: centeio, trigo, cevada, aveia, trigo preto, batata,
ervilha, linho, sorgo, beterraba, cenoura, abóbora, abobrinha, pepinos, alface,
cebola, alho. Nós chegamos para uma época ruim. Ainda não semeamos nada.
Somente em maio vamos plantar e semear, porque agora é tarde demais. Já tenho
duas morgas desbastadas. Vamos ganhar semente do governo de centeio, trigo,
feijão, batata e milho. A minha casa já esta pronta. Agora construímos casas
para os outros. Pagam-nos 80 mil-réis por casa o que equivalerá dois mil-réis
por dia para mim. A minha chácara constitui-se de 2 cabras, 5 galinhas e já ajeitei todos os utensílios domésticos que são
idênticos aos da Polônia, somente custam muito mais.
Tenho duas
residências. Uma em cima e outra
em
baixo. A
minha casa tem
8 metros
de comprimento, o
quatro de largura e três de altura. Eu mesma fabriquei os moveis com machado,
porque aqui não há outro costume. Cada um tem que fazer sozinho. O toucinho
custa 500 mil-réis o quilo, a carne de gado 200 reis, salame 600 reis, a
farinha de trigo 200 reis, a de centeio 150 reis, a batata 200 réis e o arroz
320 reis. O quilo de feijão espada custa 120 reis, o açúcar 500 reis, mas não é
igual ao da Polônia. É pó. O quilo de café custa 1 mil
reis, a dúzia de ovos 200 reis, uma quarta de leite 200 reis, uma quarta de
cerveja 240 reis, uma quarta de cachaça 400 reis, uma quarta de vinho 200 reis,
um quilo de fumo 1 mil reis, uma quarta de querozene 300 reis, um quilo de
queijo 1 mil reis, um quilo de manteiga 1 mil e 200 reis. Nós mesmos assamos a
broa como na Polônia. A galinha custa 400 reis, uma vaca custa 40 mil reis, um
cavalo 25 mil-réis e com 30 mil-réis pode-se conseguir um bom animal.
Nós já
tivemos um cavalo e pagamos por ele 15 mil reis. Compramo-lo em sociedade de 4: Czerwinski, Brozoski, José Sobieswik e eu.
Lastimavelmente adoeceu e morreu e agora estamos sem cavalo. Em nosso mato não
há muitos animais, encontram-se tigres, veados e porcos do mato. Há muitos
macacos, cobras, gado selvagem, crocodilos, lagartas grandes como gatos,
insetos das mais diversas espécies e jamais imagináveis. Existem “moscas” tais
que à noite tem os olhos como eletricidade, tal á a luz que emitem.
Existem
pássaros diversos, alguns são muito bonitos. Há grandes e pequenos e
semelhantes a perus. Alguns não voam de forma alguma e somente se escondem
quando enxergam a gente. Não causam nenhum prejuízo, porque fogem da gente por causa que desconhecem. O clima é muito saudável. Temos
água muito boa, porque vem diretamente da fonte. Aqui não existe inverno como
na Polônia. Aqui o inverno começará em abril e a mais forte geada atinge 4
graus e a neve derrete imediatamente. As chuvas são fortes e com trovoadas.
Quando troveja tem-se a impressão de ser perto. São raros os raios. O dia
apresenta uma diferença de 7 horas. Quando no Brasil são 12 horas, almoço; na
Polônia são 7 horas da noite. Ainda não temos nenhuma igreja. Em cada “brigada”
estão construindo uma igreja polonesa, isto quer dizer em cada aldeia e deverá
vir um padre polonês. Já existe um padre alemão.
Em Porto Alegre
existem
dois tipos de igrejas e há 12 (sic) igrejas polonesas. A distância para essa cidade é de
20 milhas
. Aqui também teremos igreja somente
mais tarde. No Brasil vai bem, mas somente para aqueles que
tem saúde força para o trabalho. Os artífices também estão bem em geral,
exceto os carpinteiros porque aqui não existem carroças e também são
desconhecidos os ofícios de barriqueiro. Essa mercadoria teria procura. Ainda
quero explicar o dinheiro. O mil-réis corresponde a 1 marco prussiano. Divide-se
em reis. Não
tenho nada a escrever mais porque não
tenho papel. Mando aos meus pais profundos respeitos, o mesmo a mulher do
irmão, aos irmãos e a sogra. Venham quanto antes para chegarem para o batizado.
Quem vier que traga bastantes sementes. Entreguem essa
carta a sogra, para que leia. Quando estiverem para viajar comprem para mim um
relógio e uma pistola, municiada com pólvora, de cano duplo, porque aqui são
caras. Ela deve ter ½ braça de comprimento e que não seja para cartuchos. Vou
devolver o dinheiro. Crianças que vos amam.
Ana
e Jacó Bufalt
31. Antônio Czerwinski de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul
para a família. (Zyrardów). 3/03/1891.
Veja local desta carta: Zirardów
Dia
3 de março de 1891.
Louvado
seja Jesus Cristo.
Com estas
primeiras palavras de nossa carta estamos levando ao vosso conhecimento que
estamos com saúde por graça de Deus Todo Poderoso, o que também lhe desejamos.
Agora escrevemos a respeito de nossa partida de Bremen, no dia 7 de outubro.
Viajei de trem durante quatro horas até Bremerhaven e lá embarcamos no navio.
Ficamos ancorados por três dias e só partimos no dia 10 de outubro. Viajamos de
navio, durante 19 dias, até Rio de Janeiro e lá desembarcamos numa ilha. Ali
permanecemos um dia. De lá levaram-nos para navios
menores e viajamos durante uma semana até Porto Alegre, desembarcamos e
descansamos 3 dias. De lá partimos em barcos e com estes viajamos por água,
durante 4 horas. Descemos na primeira parada e levaram-nos
em carroções. Os
pertences e as mulheres viajaram de carroça, enquanto os homens andaram, a seu
lado, a pé. Viajamos 4 dias de carroça e chegamos
cidade de Izabel e ali nos deixaram. Levaram as mulheres e os pertences,
enquanto os homens tinham que prosseguir a pé até a cidade de Alfredo Chaves. A
travessia não foi longa, pois durou apenas 2 dias, mas
os estragos foram grandes porque os animais não andaram direito. As bestas
andaram por tigüeras e em meio a arbustos espinhentos. Chegamos no dia 23 de
novembro. Eu ganhei 100 morgas de mato e na capoeira não se pode semear. É
necessário cortar, o que é difícil porque o mato é denso e impenetrável.Graças
a Deus já limpei mais ou menos 1 morga, mas isso não adianta nada porque agora
não se pode semear porque os meses são frios e é necessário esperar uns três
meses. Tenho que trabalhar fora. Ganho 1.200 réis diários, o que em dinheiro
russo equivale a 1 rublo. Leon deixou-nos, porque não
há serviço para ele. Ficamos somente nós e temos muitos aborrecimentos.
Ainda não
vimos nata, nem broa, a não ser no navio. A nossa situação é triste porque
ficamos sem um vintém, o que nunca imaginava
em Zyrardów. Agora
novamente tenho que voltar a trabalhar porque não teremos o que comer. O Natal
aqui é muito triste porque não vimos nem sequer um pedaço de carne, mas apenas
um pouco de farinha escura de segunda categoria. Ambos choramos nesta Vigília a
tal ponto que o coração quase partiu-se de dor. Em
verdade o Brasil é um país católico, mas o que adianta se a gente não entende
nada? Além disto à distância para a igreja é grande e
é difícil ir até a cidade. A minha casa já está construída. Trabalho na
construção de casas com os colegas de Zyrardów: Sobiesiak, José Bzowski, José e
Jacó Bufalt são exatamente meus vizinhos. Se tiverem planos para chegar, não
esbanjem dinheiro como eu fiz, isto eu vos alerto. Se
estiverem para chegar para junto de nós quando estiverem no Rio de Janeiro,
alistem-se para o Rio Grande do Sul. Serão levados a Porto Alegre. Ali inscrevam-se para Alfredo Chaves. Por favos não se alistem
para outras partes. Ficaria imensamente satisfeito se nos pudéssemos encontrar.
Acredito que todos poderíamos sustentar-nos nessa enorme
área de terra, porque aqui é possível fazer a colheita 2 vezes ao ano. Podem
trazer consigo sementes: centeio, trigo, feijão da roça e da horta, trigo
preto, alface, pepinos, salsinha, batata salsa, alho, maçã, pêras, ameixas,
toda espécie de ervas que se encontram na Polônia.
Não temos
nada mais a escrever a não ser enviar nossos profundos respeitos aos pais, aos
dois Migrowski, José e sua mulher Ana, ao Palubicki com sua Constância, aos
Kwistkowski com Sofia, ao Michalski com Mariana Leonora Czerwinski, ao Janicki
com esposa, ao José Jezierski, ao Jedwabny com esposa e a todos conhecidos, aos
vizinhos e também a Margarida Jezursmi (?) e ao Teófilo Sowinski com sua esposa
Sofia.
Abraço e
beijo a todos os amigos e parentes e aos meus conhecidos. Com isto vai o meu
pedido de resposta para esta carta. Enderecem
em alemão. Fim
e
mandem notícias, como vai a Francisca e se ela andou doente por muito tempo,
porque nós dois tivemos freqüentes sonhos.
Antônio Ludovica Czerwinki. Amém.
Meu
endereço: Brasil, Porto Alegre, Colônia Alfredo Chaves.
Antônio Czerwinski.
32. A
.
Fruscinska de São Paulo para um tal Sr. Slojewski
(endereço desconhecido). 27/03/1891.
Prezado
Senhor Slojewski!
Prosto-me
profundamente diante de V.S. e comunico que estou bem de saúde, saúde essa que
desejo a V.S. de todo coração. Agora levo ao seu conhecimento que viuvei. O
marido faleceu no dia 2 de março do corrente ano e fiquei sozinha com a
criança. Foi penoso, mas o que se pode fazer. Agora vou casar com um viúvo, cuja
mulher e filhos também morreram no Brasil. Trata-se de um tal de Urbanski, natural de Lódz. Ele é marceneiro, uma pessoa
muito distinta e um ano mais velho do que eu. O casamento será no
domingo depois da Páscoa. Mando cordiais saudações ao Sr. Slojewski, à irmã
Wesimieski, juntamente com seu marido, ao Sr. Kubiak, ao Sr. Sitko e a todos os
conhecidos.
A.
Fruscinska. O Sr. tenha a bondade de dar esta carta
aos Sitko para lerem. Até logo. Gasiorowski igualmente manda lembranças a todos
os conhecidos. São Paulo, dia 27 de março de 1891.
33. Leon Galbierczyk de Santo Antônio da Patrulha Rio Grande
do Sul para J. Kaminski e sua esposa (endereço desconhecido). 28/12/1890.
Santo
Antônio 21 de dezembro de 1890.
Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Com estas palavras saúdo-vos queridos irmãos
(ordem Terceira de São Francisco. Parece que o autor da carta e os
destinatários fazem parte da Ordem. (Nota do autor do livro)).
Queridos
irmãos comunico-vos que por graça de Deus estamos com saúde agora, isto vos
desejamos também de todo coração. Não lhes desejo Boas Festas de Natal, porque
já as comemorastes, mas em compensação faço votos de Bom Ano Novo e os votos de
encontrar-me convosco, mas nem na Polônia, nem na Prússia, mas aqui no Brasil.
Estimados
irmãos da Ordem de São Francisco agora pretendo escrever-lhes sobre a minha
viagem. Quando saímos de casa em 18 de outubro, pela manhã, como é do vosso
conhecimento, no domingo às 6 horas encontrava-me em Berlim, na estação
central. Ali fiquei até 1 hora da tarde, quando embarcamos para Bremen, onde chegamos às 11 da noite daquele domingo. Fomos levados
ao Hotel de nome Lampa, nº3 que não dista muito da estação férrea.Ali
explorou-me. Pelo pouso pagamos 40 marcos, sem nenhuma
necessidade. Quanto ao navio lá tudo é gratuitamente. Passamos assim: sopa de
ervilhas para o almoço ou de arroz, comemos carne diariamente com algumas
batatas para o almoço.Para o desjejum recebemos café
preto e o mesmo para o jantar. O café era acompanhado de pão
com manteiga e à noite torradas.
Agora
quanto a viagem. Embarcamos no navio (da Companhia)
Lloyd denominado Rachen no dia 25 de outubro, as duas
da tarde. Era um sábado e levantamos âncoras no domingo as duas da tarde, isto é, no dia 15 de outubro, porque o navio ainda não estava
carregado. Quando o navio iniciou a viagem, somente tivemos uma noite de forte
balanço do navio, ainda que a nossa viagem durasse 19
dias. Paramos apenas no porto Espanhol “Stat Paulus” (não foi definido, segundo
o autor este porto), durante 24 horas. Não paramos em nenhum outro lugar a não
ser no entreposto do Rio de Janeiro. Ali tivemos um descanso de 6 dias, isto é até o dia 21 ao dia 26, quando seguimos para
Porto Alegre, porque para lá nos havíamos inscrito. Chegamos a Porto Alegre em
29 de novembro. Lá apenas existem duas fábricas, uma de papel e outra de vidro.
Neste mesmo dia alistamo-nos para Santo Antônio e prosseguimos imediatamente,
no mesmo dia 29. Viajamos de carroças de Porto Alegre a Santo Antônio. Temos
comida própria porque recebemos cartões e cada um retira o que deseja e prepara
em casa.Cada casal recebe 1 mil reis, ou seja, o
equivalente a 2 marcos, a criança de
3 a
15 anos tem 300 réis e aquelas com mais de
15 anos calculam na base de 500 reis, ou seja correspondente a 1 marco. Isto
eles dão até que se receba a colônia. Cada colônia mede
1.000 metros
de
comprimento por 500 de largura.Aqui a terra não é
trabalhada da mesma forma como na Europa. Lá é necessário fazer muito esforço.
Aqui faz-se com jeito, ou seja (--). Quanto a terra em
si, ela é mais fértil nos morros. Nestes encontram-se as maiores árvores e
produz em qualquer parte. Durante 7 anos não se paga
nenhum imposto. Existe uma ajuda para a terra, durante cinco meses, no valor de
35 mil-réis mensais. Durante esse tempo deve-se construir a casa que apresenta
as seguintes características: por uma casa de 8 x 6 o
governo paga 150 mil-réis ou seja 300 marcos. Depois dos cinco meses é
obrigatório ajudar a construir outras casas. Esse trabalho é recompensado pelo
governo com 2 mil-réis diários. O serviço das 8 da
manhã às 6 da tarde. Queridos irmãos, escrevo-vos a verdade, tão clara como na
palma da mão.
Agora,
queridos irmãos, se alguém de vocês quizer chegar que me escreva o mais
depressa possível. Eu enviarei a passagem de navio. Pensei em mandar agora, mas
não sei se vocês não mudaram de idéia. Tão logo receba vossa carta, mandarei e
podem embarcar
em
abril. Aqueles
que não querem aguardar a passagem, escrevam-me. No Rio de Janeiro alistem-se para Santo
Antônio, considerando que poderemos estabelecer-nos juntos e um será auxílio
para o outro, mas sempre comigo.
Querido
irmão João Kaminski e tua estimada esposa, não me levem a mal porque não
escrevi por tão longo.Em verdade, parcialmente foi
preguiça e por outra parte somente desejava escrever quando já estivesse em
minha colônia. Durante o Natal tive dois sonhos, um repetiu o outro. Tive
problemas (durante o sonho) com tua mulher a respeito daquele dinheiro.
Queridos irmão e irmã da Ordem Terceira de São Francisco, digo-lhes que restituirei
tudo. Se chegarem, pagarei aqui, senão, escrevam-me onde vão ficar. Se Deus se
dignar em me conceder saúde, farei tudo para pagar tudo no decurso de um ano,
não só a vós mas a todos que tem direito. Agora
queridos Kaminski, se quizerem chegar com os pais e irmãos, com a mesma
passagem, saibam que cada casado que trouxer a esposa, receberá uma colônia
inteira, enquanto o solteiro metade da colônia.
Esquecia-me que no nosso navio vieram 1313 pessoas. Durante a viagem morreu
apenas uma criança e nasceu uma. Aquela criança que era amamentada, faleceu-nos. Aguardo a vossa carta, enquanto isso vou par a minha colônia. Enderecem certo
as cartas conforme a seguinte instrução:
Na Den
Leon Galbierczyk
Brasilien Profins
Rio Grande
do Sul
Santo
Antônio da Patrulha.
34. J. Gasiorowski de São Paulo para um
tal Sr. Javorsk (endereço desconhecido). 27/03/1891
São
Paulo, dia 27 de março de 1891
Prezado Sr.
Jaworski.
Recebi a
sua carta e a dos pais no dia 20 de março do corrente e imensa foi a minha
alegria. Admiramo-nos muito que seu filho não vive mais.Infelizmente
é difícil, mas a todos nós aguarda isso. Agora desejaria dizer ao preclaro
senhor alguma coisa sobre o Brasil. Para nós, por exemplo, é bom no Brasil, mas
não o é para todos. Para o carpinteiro, para o marceneiro, para o celeiro está
bem e podem ganhar bastante dinheiro. Os simples
trabalhadores, aqueles que vieram para se estabelecer em propriedades
rurais no Brasil, para alguns a miséria é extrema. Quase morrem de fome.
Aqueles que faziam serviços corriqueiros na Polônia e querem trabalhar pesado,
saem da Emigração e alistam-se para propriedades. O governo manda que escolham
as colônias onde querem e os envia para lá. É verdade que o clima não é salubre
em toda à parte. Desde que alguém quer trabalhar vai para as obras do governo.
Trabalha na construção de estradas para viajar, pois todas as regiões estão
cobertas de matas enormes. Recebem pelo trabalho 1 e
meio mil reis, por dia. Se alguém leva uma vida modesta, economiza alguma coisa
ou se tem dinheiro de casa ou alguma ajuda, então
aceita uma colônia de 40 morgas de mata enorme. Pela colônia deverá pagar 75
mil-réis mas quando? Ninguém sabe. Limpa a terra aos
poucos, semeia milho, planta parreira, trigo preto, batata, e toda sorte de
verduras, pepinos, repolho, etc. Compra uma carroça e um burro. Leva lenha para a cidade ou serra taboas e vende. Em pouco
tempo poderá conseguir um belo dinheiro e uma bela propriedade. Só o vinho dá
bom dinheiro. Se alguém não está acostumado a trabalhar ou não quer, passa
enorme fome. Muitos poloneses e outros vivem na “Emigração” às
custas do governo. Não querem saber de trabalho. Querem retornar a
Polônia por conta do Governo. O governo não manda ninguém de volta por isso
curtem miséria. Cada um deles queria açambarcar tudo. Pretendia encher os
bolsos com ouro e retornar, entretanto aqui recebem ordem para trabalhar. Por exemplo o açougueiro Ochman de Wolka e seu genro
Guilherme, parece que o senhor os conhecia e muitos outros, num total de 500
famílias alistaram-se para colônias. O governo enviou-as para lá, onde vicejam
enormes florestas. Isso não lhes agradou porque o trabalho seria ingente
transformar aquelas matas em terra cultivável. Não começaram nenhum serviço e
queriam que o governo os mandasse de volta para a Polônia. O governo, todavia,
manteve-os lá durante alguns meses, pretendendo vence-los dessa forma. Metade
deles morreu e o restante retornou a São Paulo. Continuam (residindo) até hoja
na “Emigração” às expensas do governo. O que vai acontecer com eles, não sei. Outros que deixaram
antes a “emigração” e foram para a cidade, sem qualquer profissão, alguns
começaram a trabalhar como pedreiros, marceneiros e em outros serviços. Ganham 2 mil diários o que lhes dá para a vida, para a moradia e
ainda economizar algum dinheiro, porque não são esbanjadores. Os que não
trabalham passam fome e andam maltrapilhos. Outros venderam suas esposas aos
pretos, obtiveram grande lucro e se retiraram. Ninguém sabe para onde foram.
Outros maridos deixaram as mulheres com crianças e fugiram para outras regiões.
As mães e as crianças andam pelas ruas, esmolando um pedaço de pão ou ingressam
na vida fácil. Outros ainda transformaram suas casas, em públicas, onde
trabalham as mulheres e filhas. Várias coisas acontecem que é difícil de
descrever. Permaneço a sua disposição. Boa saúde e boa sorte.
J.
Gasiorowski
35. Gasiorowski de São Paulo aos pais (endereço
desconhecido). 27/03/1891.
São
Paulo 27 de março de 1891.
Queridos
Pais, Gasiorowski.
Comunico-vos
sobre a nossa saúde. Todos estamos bem o que também
vos desejamos de todo coração. Recebi todas as vossas cartas que já se elevam a
cinco e também a registrada na qual se achava a carta de Jaworski. Agora quanto
às minhas cartas, já lhes mandei algumas com descrições sobre o Brasil.
Primeiramente mandei duas e recebi resposta, depois mandei mais três juntas;
uma para vós, outra para os Racki e a terceira para o Sr. Rutkowski. Destas
cartas recebi a vossa resposta e deduzi que (os Rutkowski) foram para “aluguel”
(provavelmente perderam a propriedade e arrendaram outra). O endereço que me destes foi para Ileowa por isso mandei três cartas,
em nome de Gustavo Berner, para vocês e uma para F. Racki. Estanislau enviou
uma para vocês e recebi a resposta de que apenas chegaram duas. Não sei o que
isto significa: ou o endereço para Ilowa estava errado, ou não entendo mais
nada. Quanto a minha situação, repito-a em cada carta que vou bem de saúde,
trabalho numa fábrica de móveis isto é faço serviços
de marcenaria de móveis, recebo por peça fabricada, cento e poucos mil-réis
mensais. Traduzido para o dinheiro russo, o rublo, representa muito. A
manutenção custa-me 40 e poucos mil-réis mensais.
Levamos uma
vida boa, melhor do que na Polônia. Que Deus nos conceda saúde e em breve
chegarei a ter bom dinheiro. No início foi um tanto difícil com a língua, bem
como no trabalho porque no Brasil a marcenaria é diferente. Agora já me
orientei no serviço.Falo a língua alemã razoavelmente.
Compreendo um pouco o português e o italiano, por isso estou bem. Estanislava
domina razoavelmente o português. Agora quanto a Estanislau a situação não é
das melhores. Trabalha em obras públicas. Pagam-lhe 1.500 mil-réis diários e a
vida é cara. Além disso, como lhes escrevi, estiveram muito doentes. Ele ficou
de cama durante quatro semanas e ela durante seis. Deu à luz uma criança morta,
antes do tempo. Se não lhes tivesse ajudado, ser-lhes-ia muito difícil. Já
gastei com ele bastante dinheiro. Agora comprei-lhe uma serra de ferro. Preparava-se para ingressar em serviço particular e poderia
ganhar bom dinheiro com a serra, mas soube que quem abandona o serviço público
o governo também o abandona. Não pode receber mais colônia e ele esteve
inscrito para uma delas. Se ele receber a colônia, ajudá-lo-ei em dinheiro e
ele poderia ficar bem. Eu igualmente aproveitaria com isso porque teria taboas
de madeira à vontade. O próprio diretor lhe disse que tão logo terminem a
construção das estradas, receberão colônias e o governo construirá casa para
cada um. No início, durante alguns anos não pagarão nada ao governo, sob forma
de imposto. Por estas razões Estanislau vai esperar e continuar a trabalhar nas
obras públicas até alcançar algum resultado. Eu e Estanislava na Páscoa vamos
visitá-los, porque Estanislava passou com eles quando estavam doentes. Eu ainda
não lhe fiz visita, embora Estanislava faça-o freqüentemente. Toda vez que vem
dou-lhe alguma coisa. Agora no que respeita ao Francisco, ele que fique nas
minas de carvão, porque ainda tem tempo. Depois eu lhes escrevo como deve
proceder com ele. Envio cordiais reverências e beijo-vos milhões de vezes,
queridos pais. Cumprimentamos também o Chiquinho, Catarina, ao cunhado e a toda
a família, bem como a todos os conhecidos. Reverenciamos profundamente e
desejamos saúde e sucesso.
O calor
aqui é de 25 graus, o dia é de 12 horas e 45 minutos.
J.
Gasiorowski
36. Gasiorowski de São Paulo aos pais (endereço
desconhecido). 28/3/1981
São
Paulo, dia 28 de março de 1891
Queridos Pais
(...). Comunicam-vos que estamos bem de saúde o mesmo desejamos a vós de todo o
coração. Quanto à situação, vamos bem, graças a Deus. Agora levo ao vosso
conhecimento que faz bastante tempo que não recebemos vossa correspondência.A
última foi aquela que trazia a vossa carta e do Pomorski e mais uma. Portanto
não sei se o endereço que colocastes estava errado ou se já totalmente nos
esquecestes. Os pais de Júlio mandam muitas cartas e de vossa parte não vem
nada. Toda vez que vem uma carta aos Gasiorowski, corro com satisfação,
pensando que também veio a minha. Mas as vossas não aparecem e não aparecem.
Por isso peço-vos que escrevam com mais freqüência.Não
tenham pena de alguns vinténs para selos, porque isso não vai aliviar o peso
que levo no coração. Toda vez que recebo vossa carta e leio, tenho a impressão
de estar vos vendo e falando convosco. Por isso peço que não me esqueçam,
porque eu sempre me lembro de vós. Estais em meus pensamentos dia e noite. Não
se preocupem comigo. Faço votos para encontrar-vos com saúde, quando retornar.
Preocupa-nos
a falta de padre que fale polonês. Todos falam só em
português e nós ainda não falamos bem e, por conseguinte não nos podemos
confessar. Trago-vos notícias sobre a festa do Padroeiro. Nunca vi uma semelhante festa. Só a decoração das ruas de São Paulo
custou mais de 150 mil reis, despendidos pela cidade. Durante a quaresma
ninguém jejuou. Eles confessam-se católicos e nas igrejas portam-se como nós, mas não observam a religião com tanto rigor como nós. Não festejam
quase nenhum dia santificado. Guardam somente o Natal, Sexta Feira Santa e os
domingos. Este é o costume durante a Semana Santa: Na quinta Feira Santa
depositam Cristo no Tabernáculo, na Sexta Feira no túmulo e à noite, às 10
horas, saia a procissão pelas ruas. Vão de uma igreja
para outra. Os padres levam a Cristo na urna, com luzes e estandartes. Os que
acompanham a procissão riem, falam, alguns assobiam. Não é como entre nós em
que cada um anda em silêncio e reza. Para a Páscoa não preparam nada, nem a
“swienconka”. Os padres não benzem os alimentos. Nós só jejuamos três dias
durante a quaresma e alguns poloneses comeram carne até na Sexta Feira Santa.
Em verdade os alimentos de abstinência são mais caros do que a carne, mas os
poloneses estragam-se no Brasil.
Comunicamos
que Fruscinski morreu; as crianças pequenas dos Witkowski também faleceram, bem
como as do Guilherme. Fruscinska está para casar-se com outro marceneiro do
Lódz, um tal Urbanski.
Nas
colônias pereceram muitos poloneses ( ). Nada mais temos a
escrever. Enviamo-lhes uma saudação profunda, queridos pais e também ao irmão
Francisco e sua esposa. Desejamo-lhe sucesso, em sua nova propriedade, sorte e
saúde e o mesmo às irmãs, ao cunhado Ftorkowski e a toda a família almejamos saúde
e boa sorte.
Júlio, Estanislava e Ladislau Gasiorowski
Mandamos profundos
cumprimentos ao Andrzejewski, ao Sr. Malewski, ao Sr. Pryborowski e a todos os
conhecidos.
O endereço
é o mesmo que antes.
37. Ludovico Gier do Rio de Janeiro para uma destinatária
desconhecida.
Rio
de Janeiro, 3 de fevereiro de 1891.
Queridíssima
e única no mundo Maria!
Certamente
vais-te admirar que ouso escrever-te e por isso peço
escusas. Estas poucas palavras que rascunho para você, saiba que para mim são
muito agradáveis, a ponto de ter a impressão que estou falando com você, mas
basta que olhe pela janela e contemple a imensidão que nos separa (moro perto
do mar), tenho a impressão de que você não quer mais saber de mim, que já me
esqueceste, afinal mereci isto. É verdade fui um tresloucado, mas o que se há
de fazer. Certamente sou e serei forçado a peregrinar pelo mundo e pensar em
você dia e noite. Ainda não estou desesperançado, algum dia, mesmo que seja uma
hora antes da morte tenho que te ver. Hoje sinto o que você significava para
mim, querida Maria!!! Confesso sinceramente que
escrevo esta carta com verdadeira dor de coração que quer arrebatar-se para a
Europa para te ver e pedir perdão de joelhos. Não estou em condições de
externar o que se passa comigo. Mas queridíssima Maria, esqueça tudo o que te
fiz de mal, perdoe-me tudo e diga somente esta palavra que me amas, como me
amavas antes e que serás minha até a morte. Como fui bem sucedido e ganho muito
bem, estou disposto a abandonar tudo e voltar para junto de ti. Se a tua
resposta for ao contrário então peço-te que me lembres
se tens falta de alguma coisa e estarei pronto a fazer tudo por você. Sei que a
tua resposta será esta: Perguntas se preciso de alguma
coisa? Você sabe como me deixou, então logicamente não deveria perguntar-me. Se
aceitas que te mande alguma coisa então aceito o meu,
talvez já não seja meu, Figurski. Responda-me pelo menos algumas palavras que
me serão mais caras do que tudo, mas o mais depressa possível. A viagem não vou descrever, porque não há nada de
interessante, menciono apenas que aqui temos um calor excessivo. Estamos em
pleno verão.
Querida
Maria! Só isto quero escrever-te e esperar o que você
vai responder. Ganho aqui muito bem, pelo menos uns 12 rublos mensais e depois
poderei ganhar até mais. Eis a razão de minha pergunta, se me é permitido
interrogar, minha Maria: você não quer vir? Pelo menos ficarás 100 vezes melhor
do que na Europa. Imediatamente alugarei uma casa bonita e jamais te
abandonarei até a morte. Isto jurarei na Igreja.
Aguardo ansioso a tua resposta.
Se porventura me negares tudo, então a partir desse instante
vou perambular pelo mundo e você querida serás a minha companheira dessa viagem
e até a morte ser-me-ás anjo para quem vivi e morro.
Teu até a morte Ludovico Gier.
Meu
endereço: Luiz Gier, Rio de Janeiro / Rua Ourives, Casa Oriental,
Nº 49,
Brasil.
38. Luiz Gmuchowski de São Mateus do Sul, Paraná, para a
Sra. Maria Zóltkowski (endereço desconhecido; província de Lomza). A carta está
endereçada para o padre de Bremen. 1/01/1891.
São
Mateus, em 1º de janeiro de 1891.
Que esta
carta não ultrapasse os umbrais da casa, sem antes louvar a
Deus:
Louvado
seja nosso Senhor Jesus Cristo.
Tomo a
caneta em minhas mãos e vos cumprimento: sento-me á mesa para conversas
convosco. Querida e amada mãe, queridos irmãos e irmãs, nestas poucas palavras
levamos ao vosso conhecimento a nossa situação. Por graças de Deus supremo
estamos com saúde, o que também por graças de Deus vos desejamos a melhor
saúde. Amada mãe, irmãos e irmãs, agora descrevemos a nossa viagem, através do
mar. Nos primeiros dias estivemos doentes a ponto de não poder levantar a
cabeça, durante três dias. Depois que nos acostumamos, passamos bem, com saúde,
apesar de termos muito enjôo. Viajamos durante quatro domingos, parando algum
dia, às vezes, em algum lugar, junto a alguma ilha, onde carregavam carvão. Era
enjoado, pois não víamos nada além da água e do céu.
A comida
que ganhamos era boa, durante toda a viagem: carne e pão à vontade, bem como
outros pratos. Todavia essa vida enjoou-nos bastante, porque não havia nada de
azedo, mas tudo doce.
Amada e
querida Mãe e queridos irmãos e irmãs se vocês tem meios e desejo de vir, venham, porque aqui é melhor. Ganhamos nossas
propriedades, separadas. Possuo mais de quatro eitos (wlóki) poloneses de belo
mato que limpamos e plantamos.
Querida
Mãezinha, se decidirdes partir, tragam consigo toda sorte de cereais e outras
sementes, tudo aquilo que cresce na Polônia, porque nós teremos nesta
propriedade boa manutenção para todos. Se Jesus ajudar-vos a transpor com
felicidade a fronteira porque esta é a pior parte de toda a viagem, porque nós
fomos apanhados na fronteira e tivemos que entregar o último travesseiro, então
querida mãezinha, queridos irmãos e irmãs levem tudo o que puderem consigo:
roupa de cama, somente muito cuidado na fronteira para que não lhes tirem tudo.Não escutem ninguém porque por mais coisas que levardes
não vai-lhes custar nada
em
Bremen. Mesmo
que queiram pagamento não lhes daí nada, mesmo
que tenhais consigo.Digam-lhes que não tendes nada. Se
estiverem para viajar levem consigo 10 rublos para o bilhete de trem por
pessoa. Amada e querida Mãezinha, queridos irmãos e irmãs procurem e peçam a
Deus que nos possamos ver em breve, porque estou com muita saudade e desejaria
vê-los todos dentro de uma hora. Quando receberem esta carta, que Deus ajude, respondam imediatamente.
Agora
concluímos esta carta e nos despedimos de vós, amada Mãe e queridos irmãos e
irmãs e igualmente com a irmã Antonina e todos os conhecidos.
Nosso
endereço:
Luiz
Gmuchowski, Colônia São Mateus, Prov. Paraná.
Este é o
endereço de minha irmã: Mrs.Mariana Zóltkowska,
Província Lomzynska, Município Karniewo, Distrito Maków Mas, aldeia Kronczwa
(não está definido).
Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo:
Pai espiritual pedimos perdão pelos aborrecimentos em ousar
enviar esta carta ao pai espiritual, porque nós não sabemos para onde enviar
esta carta. Pai espiritual, gratos ficaremos se os
pais receberem esta carta. Do Brasil nós não a podemos enviar, porque vão
devolver da fronteira polonesa, por isso entramos com o presente pedido, pai
espiritual, para enviar esta carta. Pedimos cordialmente, porque estaríamos
satisfeitos se ela chegasse ao destino, tendo em vista que a mãe vive
abandonada e espera a correspondência dia a dia.
“Absender von Bremen: Pfarrer Peter
Schlosser, Linden Strasse 6 – Bremen”.
39. Estanislau
Jablonski de Rio Carolina, Santa Catarina, para seus pais (endereço
desconhecido). 5/02/1891.
Ano
de 1891, 5 de fevereiro.
Colônia
Carolina.
Queridíssimos
e caríssimos pais meus escrevi-lhes uma carta, mas não posso esperar mais pela
resposta e por isso estou escrevendo a segunda. Peço-vos queridos pais se
estiverem com a intenção de chegar, tragam consigo tudo que puderem. A ti mãe,
peço que leve roupas o mais possível. Ainda peço que tragam por minha conta um par de sapatos para mil e chinelos
para minha esposa. Peço ainda que tragam uma espingarda de 2 canos, mas que seja boa.
Amado pai e
querida mãe cumprimento e inclino-me diante de vós, desejando saúde e boa sorte
e todo o bem que esperais da parte de Deus. Mando ainda lembranças para o
cunhado Zachoro (wski), Mezynski e sua esposa, bem como as crianças, inclino-me diante de vós e desejo todo o bem. Cumprimento
ainda o tio José com meus respeitos e desejo saúde e toda a sorte de sucesso.
Agora saúdo a toda a família e peço que não desprezem o meu pedido. Peço a
vocês todos que venham para cá, porque sinto-me triste
sem vocês. Não me falta nada a não ser que no início foi um tanto difícil, mas
espero que em breve estarei bem. Ainda informo-vos que
se estiverem para chegar então vocês devem viajar de
Vístula para Konopka e é necessário perguntar por Niedmelski que vos ajudará a
atravessar a fronteira e tudo estará bem. Ainda aviso que quando estiverem
partindo levem toda sorte de sementes, um pouco de beterraba, cenoura, repolho
e tudo o que existe por lá.
Comunico-vos, outrossim, que aqui faz bastante calor. Lá na Polônia
existem enormes neves, aqui existe o calor, caem chuvas, há trovoadas,
a ponto de tremer a terra. Informo que aqui pode-se viver um pouco melhor do que na Europa, porque aqui não é necessário pagar
nenhum imposto. Posso criar gado, galinhas, gansos, marrecos, porcos e tudo o
mais. Agora quando construirmos nossas casas vamos receber 50 mil réis de ajuda, mas cada um deve estar em sua propriedade. Depois que
receberem minha carta, peço que enviem resposta o mais depressa possível e
escrevam tudo, se vão ou não chegar, para que eu saiba.
Anexo segue
um cartão. O meu endereço escrevam:
Hern
Estanislau Jablonski / Provinz Santa Catarina / Posst Blumenau / Colônia Rio
Carolina, nº 2 / Brasilien / na América (Isto escrito em russo).
40. José Jaczynski de São Mateus do Sul, Paraná, aos pais
(endereço desconhecido). 22/02/1891.
São
Mateus 22 de fevereiro de 1891.
Caríssimos
pais!
Peço
profundamente perdão por ter abandonado os pais, sem me despedir. Aliás, minha
sina parece ser essa. Beijo os pais, o pai, a mãe, a Francisca, a Catarina, a
Mariana, seu marido e filhos. Avisem o meu irmão que o beijo, bem como a
Rozinha e o José, seu irmão.Beijo e abraço o prezado
Sr. Binder M. e ao mesmo tempo saúdo os tios por parte do pai e da mãe e a
todos os conhecidos.
Minha
viagem: primeiramente é conhecida aos pais a nossa despedida no dia 20 de
outubro; no dia 28 de outubro parti, entre lágrimas do irmão e outros parentes,
de barco através do Vístula; no dia 1º de novembro acho-me entre grades na
Província de Pook e no dia três realizo fuga, no dia 4, em Torun, 7 em Bremen na costa do mar, 15 no Oceano, 17 na Bélgica, na
cidade de Antuérpia, 22 na Espanha, na cidade de
La Coruña
, 25 em
Portugal, na cidade de Lisboa, no dia 27 no alto mar Atlântico, 10 de dezembro
Brasil, isto é América do Sul, no dia 12 de dezembro desembarcamos em nova
terra Polonesa, na cidade portuária do Rio de Janeiro, no dia 24 de janeiro em
lugar do nosso destino, na Província Paraná, na colônia São Mateus.
O governo Brasileiro professa a Religião Católica, a língua é
portuguesa que tenho esperança de aprender depressa. Viemos três mil
emigrantes. Decidimos o destino por sorteio. A minha “sorte” (propriedade)
recaiu perto da cidade recém-fundada. Ganhei 84 morgas de mato, segundo a nossa
medida.
As árvores
que crescem são as seguintes: palmeiras, pinheiro, imbuia, cedros, erva-mate –
esta deixo-a – o resto corto tudo e queimo.Espero que
dentro de 1 ano terei quatro morgas de terra limpa.O que cresce aqui? Milho,
feijão de horta, batata, centeiode primavera, uva e certamente tudo o que for
europeu, pois não se acha terra mais fértil e clima tão ameno, como naquela
província, mesmo que seja maio ou junho. O inverno chega a 4 graus e o calor não
ultrapassa 26º. No Rio de Janeiro o pedreiro ganha
8 a
10 isto é... (falta o
correspondente polonês) russos, mas em contrapartida o calor atinge a 50º,
porque fica perto do Equador. Eu, enquanto começam a construir a cidade,
prepararei um bom pedaço de terra, pois a casa será construída pelo governo.
Para o dia 10 de março vão buscar um padre para batizados e casamentos. O
Brasil é um país vasto que pode abrigar a todos os poloneses e ainda sobrará
lugar, ao mesmo tempo é um país onde corre leite e mel e de liberdade
excepcional. Portanto o ladrão e o assassino é melhor que apodreça nas
masmorras russas antes que veja o Brasil! Há perfume o ano inteiro. Sobre os
pássaros: faisões, galinhas do mato, pombos, galinhas de angola, e mais outras
50 variedades de outros que não conheço abundam. Não existem aves de rapina.
Tenho terra à vontade, basta que Deus dê saúde.
Queridíssimos
pais! Se receberdes esta carta respondam imediatamente. Enviem notícias sobre o
que o moscovita está a inventar com nossa religião, bem como sobre tudo o que
está ocorrendo no país e ao mesmo tempo mandem-me a benção paternal, se a
mereço, porque pode ser que não verei ninguém.Vou-me
casar com a senhorita Rosália Rydlewska, com 18 anos, natural da Província de
Plock. Já podeis cumprimenta-la como nora e cunhada.
Ela merece isto. Quando for construída a cidade vou mandar fotografias, talvez
daqui a alguns anos. Espero que nos veremos. Se alguém
conhecido estiver para vir ao Brasil que envie carta do Rio de Janeiro par a
Província do Paraná, Colônia São Mateus e eu o informarei para onde e de que forma deve se comportar e dirigir. Peço que dêem notícia a
meu respeito ao meu irmão, ele também que acrescente sua opinião. Em breve posso ajuda-los, todavia se o moscovita pressiona, escrevam imediatamente.
Existem
enormes plantações de laranjeiras, citrus, figos, uva, café e castanhas, o que
também nos vamos implantar em nosso pomar com o tempo.
Graças te
sejam dadas, ó Deus, que conduzistes os meus passos para esta região. Peço-te
somente saúde, pois com a ajuda divina, serei com o correr do tempo, um colono
próximo da cidade.
Não tenho
nada a escrever, senão beijar a todos milhões de vezes e amando-vos a todos até
o túmulo, filho e irmão.
José
Jaczynski
P.S. Se o moscovita permitir a passagem da carta de ida e
volta, então na
próxima apresentarei o meu projeto. Aguardo resposta com
impaciência.
J.J.
Endereço: São Mateus, Brasil, Paraná, José Jaczyinski.
41. Adalberto Jakukowski de Jaguari, Rio Grande do Sul, para
a irmã (endereço desconhecido). 15/02/1891.
Brasil
15 de março de 1891
Antes de
tudo comunico que, por graças de Deus, estamos com saúde o que também desejo a
você de todo o coração.
No dia 22
de novembro saímos de Bremen no navio denominado Darmstad e no dia 15 de
dezembro chegamos ao Brasil, à cidade do Rio de Janeiro. Lá descansamos durante
duas semanas. De lá partimos de navio brasileiro de nome Estrela e chegamos a cidade de Porto Alegre. Viajamos de navio durante sete
dias.
No navio
prussiano não estava mal e viajamos ao todo 2.600 pessoas. No Brasileiro
viajaram 600, mas a comida era péssima.
De Porto
Alegre levaram-nos de trem até a cidade de Jaguari e dali não
viajamos mais. Distribuíram-nos pelas colônias. Cada um escolheu a sua e
depois fomos levados para as mesmas. Nós estamos a 4 léguas da cidade.
Recebemos
duas colônias, o pai uma e o Romão a outra. O tamanho de uma colônia
corresponde a 100 morgas, mas é só mato.É necessário
cortar, queimar, para depois poder semear. Cada colônia recebe como auxílio 25
mil réis mensais o que é correspondente a 4 zlotes
poloneses. Nós, pelo fato de possuirmos duas, recebemos 50 mil reis. Recebemos
ainda 2 machados, duas foices para cortar lenha miúda,
2 enxadas,
8 libras
de pregos. Para dar uma idéia do mato, nós em dois cortamos uma morga por
semana.
Estimadíssimo irmão podes chegar. Lembro-me de você várias
vezes ao dia e ainda mais seguidamente da Ladislava que muitas vezes é
absorvida
em meditação. Nós
perguntamos sobre o que ela pensa
e ela nos responde que sobre a tia.
A capela
fica na cidade e existe padre católico. Reza missa diariamente e aos domingos a
Missa Solene, como acontece em cada igreja. Peço-te que venha porque ficará bem
melhor do que na fábrica.
Peço-te
querida irmã que me traga o Quadro de Nossa Senhora e o Escapulário do Sagrado
Coração de Jesus e de Nossa Senhora. Já tenho duas morgas de terra preparadas;
a casa já esta construída;
18 pés
de uva, no ano que vem já se poderá tomar vinho; cinco pés
de marmelo e do terreno já colhemos 4 quartas de feijão, 12 sacos de milho do
que dou ao colono uma quarta mensalmente, durante quatro meses. É pesado porque
tenho que me manter com o cartão.
Mando
cumprimentos ao Lourenço Niczepka, a sua esposa e filhos. Estimado cunhado
podes chegar. Estarás bem, mas leve tudo o que puder. Tragam o que puderem
porque eu me arrependo de ter tudo esbanjado. Se não venderem esses dois ferros
de engomar tragam consigo. Tudo servirá.
Estimadíssimo
compadre Valentim Matuszewski cumprimentamo-vos com a
esposa e crianças.
Todo dia
contemplo-te diante dos meus olhos, mas é difícil encontrar-me com você, pois
mesmo que escrevesse para chegar, não sei se gostarias de trabalhar assim.
Podes chegar, pois se eu trabalhar durante três ou quatro anos estarei bem melhor do que na fábrica. Se tivesse 100 rublos
tudo seria mais fácil. Preciso de um cavalo, uma cava e todos os implementos
para a lavoura, mas não tenho com que comprar. Com a ajuda de Deus pode-se
chegar a ter tudo. Cumprimentos a Francisco Matuszewski, sua mulher e filhos!
Querido compadre se estiver disposto a trabalhar como eu trabalho, com certeza
deixarias para os filhos uma herança maior do que em Zyrardów.
Cumprimento
a todos os compadres e aos conhecidos. Inclinamo-nos profundamente a toda a família
do Sr. Lasocki. E, como é que está a situação com o
Sr. Estanislau? Levaram-no, ou não para o serviço militar?
Encontramo-nos
com Bunilowski, com Cahjdul e com o Filipak. Até logo.
Adalberto
Jakubowski
Nosso
endereço:
Brazil /
Estado Rio Grande do Sul / Vila de São Vicente / Colônia Jaguary.
Querida
irmã, se você não chegar escreva carta urgentemente e pedimos-te muito que nos
envie dinheiro, quanto puder, em um ano te devolverei.
O mais
cordial cumprimento para José Tomaszewski. Em outra carta vou-te escrever mais,
pois não disponho de tanto tempo para escrever tudo.Não
se preocupe comigo pois estou bem.
Se o
Nieczepka estiver para chegar que se encarregue de minha irmã.
Adalberto
Jakubowski
42. João Jaras de São Feliciano, Rio Grande do Sul à esposa
(Zyrardow). 29/02/1891.
Veja local desta carta: Zirardów
Vinte,
29, de fevereiro, envio esta carta.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Amada esposa antes
de tudo saúdo-te com minha e tua filha. Abraço de todo o coração e beijo
milhares de vezes nas mãos e nos pés, querida esposa. Agora informo-te que estou com saúde e a ti desejo o mesmo com a ajuda de Deus Supremo. Peço-te
que não esqueças seu querido Joãozinho, como eu não esqueço
de você, querida esposa J.J.K. (?). Agora imploro-te a fim de te prepares para chegar o mais depressa ao Brasil. Querida esposa
informo que ganhei muita terra que nem sei quantos eitos podem ser e ainda
existem algumas tiras de mato, para completar. Quanto às plantações, crescem
duas vezes ao ano e tudo produz da mesma forma como na Polônia, apenas o calor
é um pouco mais forte, mas não é muito maior do que na Polônia. É quase a mesma
coisa. Agora vou falar sobre a nossa viagem ao Brasil. Depois que embarcamos no
navio, viajamos durante 18 dias por maiores águas. A viagem fizemos bem como deve ser. Informo-vos que ao chegar no Brasil
para a primeira ilha, Rio de Janeiro, lá (...) e depois partimos novamente de
navio para o interior do Brasil. Viajamos dois dias de navio e então paramos 15
dias sobre águas, encalhados. Sofremos de tudo, quase morremos de fome. Depois
veio um outro navio par junto de nós e nos levou.
Partimos para Porto Alegre e lá desembarcamos, onde nos deram comida e bebida a
ponto de termos tudo à vontade. Lá nos recuperamos, passeando pela cidade.
Permanecemos durante duas semanas. Depois viajamos para outra ilha na qual ficamos quatro semanas e só então partimos para a
colônia Feliciano. Viajamos durante seis dias, mas não de navio, e sim em
confortáveis carretas. Ficamos ali por três meses e depois recebemos colônias e
viveres para três ou seis meses e toda sorte de sementes para plantar. Ganhamos
as menores coisas e de tudo a começar pelo fumo.
Quanto à
propriedade, tudo nos dão de graça; quanto às construções, cada um faz a sua em
seu “número” (os lotes eram numerados) e a casa não pode ter menos do que dois
quartos pois esta é a determinação da parte do governo
e todo aquele que constrói a sua casa ganha do governo, como pagamento, cento e
cincoenta, 100 50 mil-réis (sic). Nós estamos para construir no decurso de três
meses. A casa deve ser levantada na propriedade, porque um comissário deverá
visitar cada número e vai pagar pela construção da casa no terreno, cento e cincoenta, 100 550 (sic) mil-réis para cada propriedade.
Virá uma comissão e ele será confirmado no número da propriedade. Nós não
teremos que fazer nenhum pagamento por essa propriedade nem a sua visita,
porque veio por conta deles, por isso não se despende um vintém. Por nada se
paga porque somente aquele que ficou sob as ordens do senhor vai pagar, mas
quem vem por conta do governo este está muito bem e não terá nada a pagar. Para
nós europeus o interesse está só na terra, porque na cidade não há o que fazer,
embora nos mandem primeiramente para a cidade.
Eu e
Kozlejaly estamos juntos, mas cada um em sua propriedade e cada um possui seu
número. Essa Província (sic) chama-se Feliciano. Existem várias espécies de
árvores laranjeiras, citrus, café, figos, castanhas, numa palavra tudo cresce.
Até que tenhamos produção própria estão nos dando dinheiro
somente para a manutenção, vinte e cinco mil reis, 205, mil-réis mensais. Esse
dinheiro representa vinte e cinco, 205 (?) rublos em dinheiro polonês. Quem
quer trabalhar pode ganhar 2 mil-réis diários, desde
que tenha tempo para ganhar.
Agora queremos
informar sobre tudo, como se pode viver no Brasil. Se tens vontade de vir, mas
se não agradar então me mandem minha amada esposa e filha. Peço-vos mui
cordialmente, queridos pais. Beijo-vos as mãos e os pés mil vezes. Querido peço-vos mais uma vez se ninguém de vocês vier,
mandem minha querida mulher, porque eu não lhe posso mandar dinheiro, porque
sozinho não tenho. Peço-vos que lhe dêem dinheiro para a viagem a fim de chegar
o mais depressa possível, pois tenho muitas saudades da minha querida esposa e
filha.
Amada
esposa abraço-te e beijo, bem como a minha e tua filha e peço-te por todas as
palavras santas, lembre-se de seu querido Joãozinho, lembre-se, amada esposa, eram palavras sagradas, amor jurado e medite isto bem
querida esposa porque eu não te esqueço em nenhum passo, estás (...), como
sabes bem e conheces a minha natureza como a ti mesma.Amada esposa, se não
chagares dentro de três meses, podes saber que não me acharás mais. Verás
querida esposa, juro-te, peço-te por Deus para que venhas. Querida esposa (...)
agora te instruo o modo de viajar. Procure sozinha transpor a fronteira. Peça a teu pai e eu peço junto com você e à mãe que arrumem
um passaporte prussiano, isto seria muito bom, porque poderias viajar
tranqüilamente pela fronteira, porque do contrário ser-te-á difícil passar de
contrabando sozinha. Procure, então encontrar uma
pessoa que aceita levar em seu passaporte e transponha a fronteira, ainda que
seja necessário dar-lhe alguns rublos, mas estará segura e poderás levar
consigo todas as coisas.
Amada
esposa, não venda as roupas de cama, pois aqui é muito difícil conseguir.
Somente isto ( ) podes vender, outras coisas lembre-se não
venda porque, porque aqui se vestem da mesma forma como entre nós. Ainda compre
tudo o que puder, especialmente roupas brancas.
Lembre-se bem disto que estou ensinando, querida esposa. Agora te mando
instruções que antes de partir compre diversos remédios porque são muito
necessários no mar. Agora não tenho nada mais a escrever a não ser, pedir-te querida
esposa que venha o mais depressa possível. Não tenho nada mais a escrever a não
ser abraçar-te cordialmente e beijar mil vezes as mãos e os pés, querida esposa
e filha. Lembre-se querida das implorações de seu amado Joãozinho, porque não
me verias para todo o sempre. Amada esposa se não chegar para junto de mim,
então é-me permitido contrair matrimônio no Brasil.
Eis que te escrevo a última carta, porque mandei tantas, querida esposa e não
recebi nenhuma notícia tua. Isto me enerva querida esposa. Será que me
esqueceu, mas eu não esqueci de você, querida Maria e
você não esqueça de mim e Deus não se esquecerá de nós no céu, na terra e em
cada lugar.
Agora não
há mais nada a escrever a não ser enviar os mais respeitosos cumprimentos a
toda a família, encontre-se ele em situação que
estiver, a todos os conhecidos, porque nos de Zyrardów, estamos todos na mesma
província. Os Krauze mandam cumprimentos para o irmão e a todos os conhecidos.
Agora algumas palavras ainda para a minha mãe. Se a mãe tem vontade e desejo
que venha, juntamente com minha mulher, porque pode-se fazer bom negócio quem tem dinheiro. Quem tem dinheiro é bom negócio, porque eu
tão logo consiga um pouco, vou montar imediatamente um botequim, porque aqui
não existe nenhum.
Meu endereço: Brasil, Província Rio Grande, Porto Alegre,
Colônia Feliciano.
Amado,
João
Jarás e Miguel Kozla.
(Kozla
escreveu a carta-Autor).
43. Martim Kalinowski
de Ijuí, Rio Grande do Sul para Fernando Schultz, (endereço indefinido).
6/03/1891.
Brasil,
América, dia 6 de março de 1891.
Nas minhas
primeiras palavras louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.
Queridos
pais adentramos vossa casa e cumprimentamo-vos, beijando as mãos e os pés.
Queridos pais, comunicamos que estamos com saúde, graças a Deus e a Maria
Santíssima, também vos desejamos saúde e boa sorte de sucesso e tudo aquilo que
pedis a Deus e a Mãe Santíssima. Agora vou escrever as seguintes palavras,
queridos pais, que de Bremen até o Brasil, viajamos 25 dias. A primeira ilha Rio
de Janeiro já está na América e lá, no Rio de Janeiro estivemos quatorze, 14
dias na ilha. De lá viajamos para outro entreposto, Porto Alegre. Mal chegamos
e a irmã adoeceu de parto e Deus lhe deu uma filha que batizaram com o nome de
Bronislava. Os seus padrinhos são originários de Varsóvia. Foi batizada
em Porto Alegre
na
igreja polonesa.Agora digo-vos que o Brasil não é tão
ruim quanto falam, como que faz muito calor. Nisto não acreditem que aqui seja
tão mau, como propalam. Realmente faz calor, mas onde nós estamos o calor não é
febril, apenas faz calor razoável de dia, mas à noite e de manhã é necessário
andar de casaco. Para a noite não fariam mal cobertores ou acolchoados de penas. Não acreditem que
no mar tiram tudo o que alguém estiver trazendo consigo. Agora se os pais ainda
não partiram e também o Estanislau Szulc, então querido Estanislau peço-te que
traga todas as ferramentas que tens: machado, cepilho, turquesa, veruma,
martelo, porque aqui há machados, mas para que servem se não são iguais aos da
Polônia? São de “olho” quadrado, como enxadas. Agora querido pai, leve também o
seu machado. Queridos pais, estivemos para mandar-lhes dinheiro, mas é coisa
muito difícil. Não temos. Se tivéssemos mandaríamos de alma e coração, mas não
possuímos. Não acreditem no que vão falar, cuspam-lhes nos olhos se disserem
que dão dinheiro ou roupa. É verdade que dão, mas quando se ganha, porque para
nós dão até agora. Ganhamos uma alimentação mais ou menos boa,
a ponto de nenhum senhorio de castelo não come isto e não vê igual na Polônia.
Temos vinho e cachaça como se fosse água. A wódka aqui chama-se cachaça. Aqui transportam a uva como se transporta batata lá, de carroça.
Queridos pais, se ainda não saístes e também o Estanislau, peço-vos a todos,
com toda a família, que ao sair levem igualmente o Wisniewski consigo aquele
que nos acompanhou na saída, porque ele nos ajudou. Agora queridos pais aviso
que levem para a viagem, pelo menos 10 rublos por pessoa. Até aos 15 anos
paga-se metade da passagem, depois dos 15 o preço é igual como para o adulto.
Quando estiverem viajando perguntem pelo endereço. No cantão brasileiro, Rio de
Janeiro, na primeira ilha digam-lhes que nós viajamos com o navio Ochijo, de
Bremen para o Rio de Janeiro primeira parada, Inácio
Kalinowski.
Agora
queridos pais e toda família e conhecidos no que diz respeito a terra oferecem quanto alguém quer, até 5 “wlócas”. Pode
ser mais ou menos, depende da família. Quando for maior, recebe mais terra e
para esta terra dão sementes, desde que se adaptem à terra, batata, feijão e assim por diante. Não tenho mais nada a escrever,
graças a Deus. Amém.
O nosso
endereço é este: América, Brasil, Silvério Martinho, Inácio Kalinowski.
Peço a mais
urgente resposta e escrevam para que as despesas sejam pagas por quem recebe,
pelo destinatário.
Portanto,
agora queridos pais, se a coisa é assim e isto os pais e todos... (frase
incompreensível). Cumprimentamo-vos a todos e mandamos respeitosas lembranças.
Não temos mais nada a escrever, graças a Deus. Amém.
Agora
queridos pais, informo-vos que já escrevi para Mokowo, afim de que venham para
junto de nós. Se estiverem com intenções de viajar, então comuniquem a Mokowo,
a minha esposa para que todos viajem juntos, bem assim para que tenham certeza
se vai ou não viajar. Depois disto escrevam-me para que eu saiba o que devo
fazer, o mesmo com relação a vocês se vem ou não, por isso peço resposta
urgente. Querido pai, peço que entregue esta carta a meus pais, onde eles
moram, Ferdinando Szulc. Peço entregar aos pais e peço resposta urgentemente.
Queridos
pais comunico-vos que todos os conhecidos estamos juntos. Desta feita
encontramos os Buraczynski e Skunieczny de Sulkowo, bem como o Hanoski que
esteve em Zóltowo e Zaleski de Obreb e Wichronki. Compadre Galasieski possuo 4 cavalos, melhores do que aqueles que o compadre dirige do
senhorio. Compadre se tem vontade, venha o mais depressa possível.
Francisco Kaszupski peço-te que dê ciência a Zoltowo, à
esposa do irmão que os pais, os Domaradzki e todos estão com saúde. José
Buraczynski envia os mais profundos cumprimentos ao Sr. Galasiewski, relativos
à Angélica. Queridos pais comunico-vos que reunimos a todos os conhecidos do
castelo de Dyblin e de toda a região.
E agora
queridos pais, mandam lembranças os Buraczynski, os Skunieszni, todos em
conjunto mandam os mais profundos respeitos ( ) a todos os conhecidos ( ). Venham para cá o mais depressa possível,
pois é aqui e não lá o lugar para viver. Não temos mais nada a escrever a não
ser que Deus nos ajude, Amém.
Inácio
Kalinowski escreveu no dia 6 de março de 1891. No envelope: Ferdinando Schultz
/ Powiat Cieptski / Coloni Machowo / Gminy Lessowo / Bubernia Plocka / Upolonia
(!).
Carimbo
brasileiro ilegível; carimbo russo “Doplatnik” 20 kopiikas.
No verso do
envelope: Ignatz Klonowski / Braszil / Rio Grande do Sul / Colônia Ijuhi / Cruz
Alta.
Carimbos:
Porto Alegre de 11-III-1891, russo da região de Varsóvia de 11 de abril e Rio
de Janeiro de 18-III-1891.
Um
manuscrito do censor “zadzierzat” e um resumo da carta do censor.
44. Martim Knaczynski
de Silveira Martins, Rio Grande do Sul a um destinatário desconhecido.
6/04/1891.
Cidade
Silveira Martins, 6 de abril de 1891.
Adentrando
vossa casa, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Cumprimento-vos querida
família e comunico-vos que todos estamos com saúde
pelo que rendemos graças a Deus e à Mãe Santíssima, o que também vos desejamos,
saúde e todo o bem que almejais, sucesso que pedis a Deus, isso nós também vos
desejamos.
Querido
irmão comunico-te que no Brasil é bom e ficaria satisfeito se você viesse para
junto de nós no Brasil, porque aqui nós não temos miséria. Venda sua
propriedade e traga consigo o dinheiro porque no Brasil é bom. Querido irmão
não te decepcionarei porque no Brasil é bom. Ganharás uma colônia
gratuitamente, não pagarás nada por ela e no que respeita a sementes, ganharás
cereais e tudo é assim como entre vocês na Polônia. Os cavalos são baratos de
forma que o preço que vocês pagam por um na Polônia, aqui se pode comprar cinco.
Os porcos e o gado são baratos sobremaneira. Quanto à propriedade, existem
galinhas, marrecos, gansos e toda espécie de criação. Não tenham nada porque
não passareis miséria, porque eu não a experimento. E vocês sabem que miséria
eu tinha e eu sei qual é a vossa fartura na Polônia. Vão ter produtos melhores
do que na Polônia.
Querido
irmão João Gawrysiak e igualmente estimada esposa do irmão, não contrariem seu
irmão em viajar para o Brasil, mas venham juntamente com seu marido e suas
crianças porque eu não vos quero levar para a perdição, mas somente desejo-vos
como a mim mesmo e creiam-me que é bom, acreditem, mesmo que alguém lhes diga
que vai mal. Cuspam-lhe nos olhos porque o pessoal não lhes está dizendo a
verdade. Quanto à roupa, levem tudo o que puderem,
especialmente roupas de verão, porque faz calor. Não levem em consideração
porque o calor não é excessivo, é regular.Calores
demasiados como diziam, não existem. O calor é semelhante ao de julho existente
entre vós. Portanto agora aqui é outono, entre vós é primavera. Dizem os que
aqui moram que mesmo que caia neve (provavelmente geada) durante a noite, ela
desaparece durante o dia.
Querida
mãe, creia-me.
Querido cunhado Burkowski, se tens desejo e vontade e
querer, venha para junto de mim no Brasil porque você vai ficar bem. Receberás uma colônia, à vossa moda uma propriedade. No que
diz respeito ao tamanho, no mínimo será de 100 morgas.
Agora você
querido cunhado Tomás Dalak, peço-te que venha com sua esposa e crianças,
porque está bem. Eu vivo como um senhor na Polônia que possue algumas fazendas.
Agora vou
descrever-vos, querida família, a minha viagem e como vocês devem comportar-se
durante a mesma. Chegarão a Bremen. Tenham a mão este
endereço que vos envio, porque serão abordados pelos agentes que vos levarão
para o hotel e lá oferecerão pouso e comida gratuitamente. De Bremen ireis para
Bremerhaven às costas do mar e viajareis de navio
durante vinte, 20, dias até o Brasil, Rio de Janeiro, que está no Brasil. De lá
ireis até Porto Alegre e de Porto Alegre para Silvério Martins, onde nós
estamos. Portanto agora querida família, peço a vossa resposta, o mais depressa
possível, se virão ou não. Respondam-me urgentemente. Não tenho nada mais a
escrever a não ser que Deus nos ajude. Amém. O meu endereço é assim: Brasil,
Rio Grande do Sul, Colônia Ijuhy, Cruz Alta, Martim Knaczynski.
Querida
Mãe, mando os mais profundos respeitos a Madalena Jarczylowa.
Querida
família mando-vos os mais respeitosos cumprimentos, bem como aos compadres e a
todos os conhecidos e a todos peço que venham porque no Brasil é bom. Eu estou
melhor do que um patrão na Polônia que possui dez propriedades.
45. Martim Knaczynski de Silveira Martins, Rio Grande do
Sul. (o destinatário é desconhecido). 6/04/1891.
Cidade
Silveira Martins, 6 de abril de 1891
Adentro os
degraus e louvo a Jesus Cristo. Saúdo-vos compadre comadre, junto com vossas
crianças, com Pedro Wozniak, com o compadre Radumski, sua esposa e filhos,
também a Paulo Raczkowski e sua mulher e filhos, também a você compadre André
Pace, junto com tua esposa e afilhado, também a você Przybysz com tua família,
também a você João Przybysz com família e a ti Martim Przybysz com toda a
família, a você José Dziegenski com família, e ao Zaremba e Osmul, também mando
cumprimentos ao que entrou no meu lugar, Wieczkowski com sua mulher, compadres
e comadres e a todos os conhecidos, mando lembranças a todos os amigos e
inimigos e comunico-vos que vivo como Pankossky e não sei o que é miséria, levo
uma vida de rei. Tenho tanto vinho quanta água na Polônia, aguardente e outras
bebidas. Peço-vos, aqueles que tem vontade, que venham
para junto de mim no Brasil.Levo ao vosso conhecimento o que como no Brasil:
Vocês não viram desde o nascimento, morrereis na Polônia e não vereis. Quanto à terra, tenho-a quanto quero e na distribuição ganhei tanto
quanto precisava para meu uso. Venham, não temam nada, porque aqui os aguarda
uma grande felicidade no Brasil. Como propalastes que aqui o calor é excessivo,
é uma inverdade, como estou vivo.É a mesma coisa que
na Polônia, o calor é comedido.
Agora vou
descrever a viagem e como devem portar-se durante a mesma. Quando chegarem a
Bremen, cada um compre os implementos como puder. Compre as ferramentas que
precisa, porque aqui são caros. E o endereço que lhes envio, quando chegarem a
Bremen, tenham à mão. Lá chegarão os agentes e os
levarão para o hotel. Lá tereis alimento e cama e depois sereis transportados
para Bremerhaven
na costa para embarque no navio. Viajarão durante vinte dias de navio até o Rio
de Janeiro que se encontra no Brasil. Do Rio de Janeiro irão para Porto Alegre
e de Porto Alegre para Silvério Martinho, lá para onde eu viajei.Não
tenho nada mais a escrever a não ser pedir que Deus nos ajude. Amém. O endereço
meu é este “Brasil, Rio Grande do Sul, colônia Ijuí, Cruz Alta, Martim
Knaczynski”.
Querida
família, peço-vos que entreguem esta carta para Lulumina, em mãos de Pedro
Wozniak.
Peço
resposta urgentemente.
46. Alexandre Kucinski de São Feliciano, Rio Grande do Sul à
família. (endereço desconhecido). 23/12/1890.
Feliciano,
dia 23 de dezembro de 1891
Nas minhas
primeiras palavras, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Queridos pais,
irmãos, irmã, cunhado, por graças de Deus estou com saúde e desejo-vos
felicidade e saúde e tudo o que pedis a Deus, nosso Senhor. Agora vou
descrever-vos a minha viagem: estive em Opaleniec no dia 23 de agosto, de
Szcytno chegamos a Berlim no dia 28 de agosto e de Berlim partimos para Bremen.
Ali ficamos durante 6 dias no cantão governamental,
onde ganhamos gratuitamente a manutenção que era da seguinte maneira: broa de
trigo com manteiga e café, para o almoço carne e para a merenda a mesma coisa.
O jantar era igual ao café da manhã. O pernoite era excelente. A viagem prosseguiu
para Bremerhven. Essa cidade encontra-se às margens das águas, onde chegam navios. Lá embarcamos no dia 9 de outubro, daí
viajamos durante uma semana de dia e de noite. Tivemos uma parada na Espanha,
na cidade de Las Palmas. Lá carregaram carvão durante um dia inteiro. Zarpamos
de noite e viajamos durante 14 dias e noites e chegamos a cidade brasileira de Rio de Janeiro. Todos lá tem que
ficar pro 12 dias. Nós, porém não ficamos muito tempo, pois apenas três dias e
novamente embarcamos em navio e navegamos durante quatro dias e quatro noites.O navio levou-nos para um mar suave e encalhamos
durante 10 dias e 10 noites e não tivemos socorro de nenhuma parte. Vários
navios aproximaram-se e não puderam retirar o nosso. Passamos para um navio a
vapor e viajamos durante um dia até a cidade de Porto Alegre, onde
desembarcamos. Nesta cidade permanecemos durante seis horas por águas até a
ilha que está mais próxima de Feliciano.Nesta ilha
permanecemos durante meio mês e desta ilha enviaram as famílias para a viagem
às colônias e tem que se permanecer na viagem durante seis dias. A viagem é
assim: Levam as pessoas para carroças de duas rodas e atrelam quatro parelhas
de bois para cada carroça “descalça” (as rodas não são dotadas de chapas de
ferro – tradutor). As montanhas são assustadoras, bem como as estradas. A
viagem para essas colônias é muito complicada.
Agora
querido pai e família vou descrever o país, chamado Brasil, como ele é.
Primeiramente vou dizer como são as matas. Não são como entre nós. Somente existem
árvores como pinhos, loureiros, palmeiras brasileiras e outras diversas que só
existem nos jardins da Polônia. As flores e folhagens de janelas (só existentes
em vasos na Polônia – tradutor) no Brasil crescem no mato. A terra é produtiva
porque os cereais tais como trigo e centeio e todos aqueles existentes na
Polônia, encontram-se aqui. Quanto à produtividade são muito maiores do que a
Polônia, pois as espigas chegam a ter
7 polegadas
.
Há muito deserto e em conseqüência não existe muita terra arável.
Agora vou
descrever clima: O calor brasileiro é como da Polônia durante a colheita do
trigo. O dia é longo da mesma forma, pois podeis saber que chegamos debaixo de
sol como se chega debaixo de uma viga de paiol e sempre viajamos em direção
sul. Isto pode dar a imagem como fica longe. Só nos causa tristeza que a terra
é tão plana como na Polônia, mas montanhas grandes, mas nos morros cresce
melhor do que na Polônia em terra plana.Podeis saber
que nestes outeiros o capim é tão grande quanto nos matos da Polônia.
Agora quero
descrever o tipo de gente que existe aqui: Há negros e brancos, como nós. Os
credos são cristãos e vários outros.O serviço é assim:
abrimos caminho para a cidade e construímos barracos para a gente. Ganhamos por
dia quatro marcos e mais a manutenção. Não somos dependentes como falavam na
Polônia que seriamos escravos. Estamos em liberdade, mas quem quer comer tem
que trabalhar e quem não quer trabalhar já está
viajando de volta.
Não tenho
mais nada a escrever, em tão breve espaço de tempo, mas em outra carta
descreverei melhor. Ao receberem esta escrita, respondam imediatamente escrevam
o que há de novo na Polônia.
Agora,
inclino-me, querido pai e diante de vós queridos irmãos e diante de ti
Estanislau e José, e Ludovico e diante do cunhado e irmã, juntamente com vossos
filhos.
Termino a
carta, Amém.
Alexandre
Kucinski
Meu
endereço é este:
Brasil,
Estado Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Município Encruzilhada, Colônia
Glicério, Zeller Io (Não é possível identificar – autor).
47. Mariana e Casemiro Kurków de Indaial, Santa Catarina ao
irmão (endereço desconhecido). 28/12/1890.
Colônia
Warnów 28 de dezembro de 1890
Querido
irmão!
Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Por graça de Deus estamos com saúde, o que
também vos desejamos. A viagem para o Brasil foi um tanto longa e cansativa.
Felizmente chegamos ao lugar de onde escrevo no dia 1º de novembro. Os irmãos
Francisco e Antônio e a mãe que venham. O irmão Antônio que traga sua herança e
a minha parte que retire do irmão Marcelo. Mariana e Marcelo que fiquem porque
aqui não estarão melhor, a não ser quando nos
organizarmos.Então comunicar-lhe-emos como devem proceder quanto à partida.
Francisco que leve consigo todas as ferramentas porque aqui serão de grande
utilidade para seu ofício, roupa de cama e mais possível, utensílios de cozinha
desde que sejam de ferro, roupas, numa palavra tudo, desde que consiga passar a
fronteira, porque depois não haverá problema durante a viagem inteira. Cuidado
para não emprestar dinheiro a ninguém durante a viagem, porque nunca receberá
de volta, pois assim aconteceu comigo. Levem ao conhecimento da irmã Inês que venha, juntamente com seu marido Felix, porque se tiver que
passar mal no trabalho para os fazendeiros então aqui é muito melhor. No início
é um pouco difícil, mas depois de 2 anos já será bem
melhor, mas que leve consigo roupa de cama e branca o mais que puder. Leve
consigo semente de linho, porque aqui será de grande utilidade.
Querido
irmão Marcelo, rogo por todas as obrigações, entregue ao irmão Francisco a
herança, para que me traga, porque agora no início necessito muito dela.
Recebemos colônias cobertas de mato, morros enormes, a lenha aqui não vale
nada, porque cada um dispõe a vontade, por isso é necessário cortar e queimar.
O pão nosso, como existia na Polônia, aqui não vemos, mas comemos feijão preto,
farinha de “madeira” (deve ser de mandioca) e carne seca. Durante quinze dias
construímos as nossas estradas e pagam-nos 5 zlotes
diários. Durante quinze dias trabalhamos
em casa. Não
esperem
a mesma alegria existente na Polônia que encontrareis nas colônias. Para a
igreja temos
5 milhas
, a cachaça é barata, uma
garrafa custa 2 zlotes e o fumo cresce em toda a parte. Chegamos para cá no
início da primavera, mas aqui as árvores são verdes durante o ano inteiro e não
são iguais como entre vós. O calor é excessivo, agora aqui é verão e quando lá
é meio dia, aqui são 5 horas de manhã. Quando o irmão vier para cá que traga
para mim e para si duas espingardas de dois canos, mas deve
compra-las perto da fronteira porque é mais barato e só antes de
embarcar no navio. Em Bremen devem comprar açúcar, chá, bitter (conhaque),
álcool, limão, fumo e devem fazer cálculos que tudo chegue para 40 dias, mas
que não distribuíam a ninguém essas coisas, porque no caminho isso é necessário
e no navio custa muito caro.Venham ou não, mas
respondam-me quanto antes e digam o que acontece por lá. Todos estão vivos? Com
saúde? Reverencio-vos, a todos os conhecidos com esposas e filhos e mando lembranças
a Mãe.
Meu
endereço:
Nach
Brasilien, Prowinz Santa Catarina, Posto Indaial, Kasmirus Kurek.
O bilhete
em anexo é para quando chegares ao Rio de Janeiro e segundo as indicações
chegarás até onde eu estou. Traga dois pares de sapatos somente use-os um pouco
porque novos jogariam fora na fronteira brasileira. Compre dois cobertores de
algodão e traga uma quarta de sementes de alfafa branca e vermelha e pedra
clara. Navegamos por estas águas grandes durante 21 dias até o Brasil e depois
ainda cinco dias com navio e mais um dia e meio de carroção.A
minha colônia é de morros e barracas e tudo consta de aproximadamente 60 morgas
polonesas. O trabalho é um tanto pesado e até agora moramos em barracos para 40
famílias cada um. Para a colônia talvez vamos para a festa do Divino Espírito
Santo, pois primeiro teremos que ganhar para a manutenção.
Aqui não
temos rei, mas República. Os antigos moradores eram selvagens e até o presente
bandos deles perambulam aos quais tememos, porque se atacarem e se por acaso
seu número for maior do que o nosso, exterminar-nos-iam como ratos. O povo
daqui são estrangeiros que chegaram não antes que
vinte anos atrás. Antigamente aqui era um grande deserto, com montanhas
cobertas de matas que agora temos que transformar em terra de cultura.
Peço-vos
que não esqueçam trazer consigo quadros de santos, podem ser sem moldura,
escapulários e abecedários poloneses, porque estes não se conseguem aqui. Esta
carta é enviada somente no dia 1º de fevereiro, porque nestes três meses aqui me
encontro não sabia em que fundamento escrever-vos. Saudamos, juntamente com a esposa e as crianças a Mãe, os irmãos, as irmãs, os conhecidos
e os amigos.
Mariana
e Casemiro Kurek
(No bilhete anexo):
Marsruta: Para Bremen, no Brasil, no Rio de Janeiro,
inscrever-se para Província de Santa Catarina, para Blumenau, para o Grande
Warnów, para o irmão Casemiro Kurek.
48. Adão Labuda de São Mateus do Sul para seu cunhado
(endereço desconhecido). São Mateus, 14 de fevereiro de 1891
Estimado
cunhado.
Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Comunico-vos que fizemos feliz viagem até o
Brasil, graças a Deus e estamos com saúde o que também vos desejamos. Chegamos
felizmente à colônia e desde a cidade de Bremen ganhamos comida e o governo nos
sustenta durante 6 meses, até eu tenhamos a nossa
colheita.Ganhamos aproximadamente 3 “wlocas” de terra de mata virgem com casa
na propriedade. Esperamos que estaremos bem, porque a
terra é fértil e tudo cresce. Por isso querido cunhado venha para junto de nós
e se a mãe está com saúde, levem consigo. Peço-vos juntamente com minha irmã e
as despesas pagarei todas. Se por acaso minha mãe não estiver viva, levem todavia minha irmã Margarida. Não esbanjem o dinheiro que
tiverem, não emprestem a ninguém, porque aqui o povo está espalhado e ninguém
vai devolver. Levem consigo as roupas que puderem, bem como ferramentas e
utensílios de cozinha, como potes, porque aqui são muito caros. Quem tiver
dinheiro desde o início poderá estabelecer-se muito bem. Tragam consigo alguns
quadros de santos e livros oração.
Como
escrevi anteriormente, tragam-me consigo a Mãe, se estiver com saúde. É engano
que ela não suportará a viagem. Se portanto a mãe
estiver com saúde, peço ajuda-la; se por acaso estiver falecida então tragam
minha irmã. Podem trazer alguns pares de botas de cano longo porque aqui custam
duas ou três vezes mais do que na Europa.
Aguardo-vos
com impaciência. Venham quanto antes. Cumprimento-vos cordialmente que Deus vos
ajude para chegarem quanto antes para junto de nós.
Vosso
cunhado
Adão
Labuda.
Endereço, ou para onde deveis chegar:
São Mateus/ Paraná / Brasil / Curitiba /
No verso a complementação:
Em todo o caso respondam-me imediatamente.
49. Mateus lesinski
de São Feliciano, Rio Grande do Sul à esposa (endereço desconhecido). Falta
data.
Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
Queridíssima
esposa. Depois da partida, quando viajei par o Brasil não tive nenhuma
oportunidade para te escrever carta, porque as constantes viagens não permitiam
escrever cartas, mas estou muito aborrecido porque não sei o que acontece em
casa se todos estão com saúde, como estás vivendo com as crianças na Polônia.
Onde quer que me encontre você e as crianças estais diante dos meus olhos. Queridíssima esposa peço-te encarecidamente que me escrevas, dizendo o que aconteceu em casa, se todos
estão com saúde porque eu, graça a Deus Altíssimo estou com saúde o que também
te desejo, somente estou em trabalhos pesados e não tenho nenhum descanso.
Durante o dia trabalho e à noite dormimos em barracos e eu não tenho nenhuma
coberta e no Brasil as chuvas são freqüentes, as noites frias por isso a minha
vida é difícil. No instante em que te escrevo esta carta deixamos de viajar. Eu
sozinho não sei como vai ficar daqui para a frente
porque em breves dias devemos receber propriedades com matas. Queridíssima esposa escrevo-te a verdade sagrada.
Em Porto Alegre
os
padres católicos juntamente com o bispo arrumaram de tal forma que os
poloneses, mais de mil famílias, estaremos numa mesma localidade, só católicos.
No mês de abril deveremos ter na localidade, primeiramente uma capela,
sacerdote que nos ensinará em língua polonesa.
Os lotes já
foram demarcados para nós e o lugar para a igreja já foi escolhido. Oxalá Deus
nos dê forças para suportar tudo com paciência porque trabalhamos pesado.
Derrubamos mato para abrir estradas, por isso querida esposa
sinto muito que não estejas junto. Eu desejaria quando um dia chegares
feliz para junto de mim que eu já estivesse na minha propriedade porque até o
presente não temos sossego. Peço resposta urgente, como vão as coisas para
vocês e como estão as crianças. Se por acaso estiver com muita dificuldade
então deixa a Polônia e venha atrás de mim, mas se estiver passando bem então
fique por lá até que te mande outra carta, porque eu já não volto mais para a
Polônia, se por acaso decidir vir mesmo, então escreva-me que virás. Se vier, peço-te que leves consigo roupa,
também de cama, sapatos, panelas de ferro, as melhores, sementes de tudo o que
puder, beterraba, salsa, alface, pepino, ervilha, cebola para semear, porque a
terra que estamos para receber é muito produtiva em que tudo cresce. É muito
difícil conseguir sementes porque estamos longe da cidade, por isso peço-te
encarecidamente que traga tudo o que puder e julgar necessário para a lavoura e
também verduras. Escrevo para ti, mas se o irmão quiser vir que venha. Antes de
tudo cuide-se na viagem para que não te roubem colheres, ferro de passar roupa,
livros de oração e cancioneiros com “kolendas” (Cânticos natalinos).
Viaje até
Nieszawa de trem e vá até a fronteira. Quando chegar na estação de Waganiec desembarque e vá pela estrada até a cidade de Nieszawa
e ali pergunte por José Carnecki. Ele te
fará atravessar a fronteira. É um homem alto e robusto. Leve consigo essências
para animar, aniz, chá, flores, açúcar. Isto será muito útil no navio e durante
a viagem. Siga para
este endereço que te mando e as cartas enderece segundo o endereço que escrevi.
Leve tudo isto consigo porque aqui tudo é difícil.
Crianças mais velhas, como as nossas, já ganham bem aqui.
Endereço:
Brasil /
cidade F.F. (sic) / Estado Rio Grande do Sul / Município de Encruzilhada,
Colônia São Feliciano.
Escrevam
bem este endereço e se por acaso estiveres viajando leve consigo. Quando chegar
ao Rio de Janeiro, na ilha, entregue este endereço chegarás direitinho atrás de mim. Agora queridíssima esposa, mando-te as mais cordiais
lembranças, juntamente com as crianças, com os pais, com toda a família e com
todos os conhecidos.
O
teu mais fiel amigo
Mateus
Lesinski
Antonio
Saniewski, Skowronski, Pedro Lasek e Krause e muitos outros conhecidos, todos
estamos na mesma colônia. Catarina Tomszewska somente mais tarde vai escrever
carta a seu respeito para a família.
50. Josefa e Antônio Lewinski de indaial, Santa Catarina o
cunhado (endereço desconhecido). 22/03/1891.
Meu querido
cunhado e irmão!
Somente
hoje, isto no dia 23 de março de 1891, consegui acalmar-me um pouco e
escrevo-vos e mediante esta levo ao vosso conhecimento que por Graças de Deus
estamos com saúde. Chegamos bem ao Brasil, bem como as crianças. Quando
embarcamos no navio, isto é no dia de São Miguel, somente desembarcamos no
Brasil, quase no dia de Todos os Santos. Habitamos entre gente polonesa que
mora aqui, há 17 anos. Podem imaginar, quando embarcamos éramos mais de 1.800
pessoas, desta morreram quatro crianças de colo e nasceram sete,
por isso não houve grande diferença.
Querido
cunhado Woltanski passe esta carta às mãos a Adalberto Hamermanowicz, pois nos
pediu que lhe déssemos notícias sobre Spanierski que partiu para o Brasil com
toda a família. Encontramo-nos com ele no navio, por acaso. A conversa de que
no navio a vida é ruim é falsa, é um grande engano, pois nós diariamente
recebemos carne, café, doces, broa com manteiga. A quantidade é tanta que
sempre sobra. Quando desembarcamos ainda tínhamos mais de duas quartas de
manteiga e broa, de modo que pudemos viver com isto durante uma semana com toda
a família.
Chegamos ao
Brasil na cidade do Rio de Janeiro. Lá encontramos emigrantes. Eram uns 10.000
de várias nacionalidades. Imediatamente nos perguntaram para onde e em que
direção alguém desejava ir. Nós nos inscrevemos para a Província de Santa
Catarina, distrito de Blumenau. De lá seguimos para as propriedades que eram de
155 morgas. Eram nas matas, e que matas! Imaginem que terra, que dá frutos até
duas vezes por ano. Aqui não há inverno, o clima é agradável, o verde é
contínuo, aqui crescem flores, as mais caras, à beiras
de estradas e na Europa custam caro. Existem laranjas, limões, uva, café,
açúcar, batatinha, arroz, pepinos, trigo, vacas, porcos, burros, galinhas,
marrecos, gansos maiores do que na Europa.Uma libra de
açúcar custa 9 vinténs, usa-se mais do que broa, uma quarta de cachaça custa 10
vinténs e é excelente. Cada proprietário possue cachaça própria, cada um queima (fermenta) e não há nenhum imposto.
Não vos
escrevi porque não tinha certeza. Agora retirei os meus papeis do tabelião da
propriedade que me foi escriturada para a vida inteira. Que matas existem aqui!
Que árvores preciosas
que vocês nem podem fazer idéia! Mandei cortar seis “morgas” de terra, depois
queimar, semear, plantar para que tenha para o sustento. Quanto a cidade, dista uma milha polonesa da minha colônia. As
igrejas são católicas. Temos também sacerdotes e nas cidades existem até
conventos. No que diz respeito à minha chácara, devo mencionar que o governo
construiu-me uma casa com 3 dependências e uma
cozinha.
Querido
cunhado, devo escrever-te que todos aqueles que vem ao
Brasil ganham a mesma coisa que eu. Não há distinção. Pessoas desde 18 até 70
anos recebem a mesma coisa que eu e podem fazer a escolha da propriedade até
três vezes.
Agora vou
te informar sobre os ganhos. Não é assim como falava na Polônia a respeito dos
salários do Brasil. Não são tão grandes, pois segundo a nossa moeda somente
pode receber seis rublos por semana. Se lhes apraz e quereis vir para cá, isto
é, para o Brasil, peço-vos que me escrevam quem quer vir e eu providenciarei a
passagem para toda a família imediatamente e de graça, porque será por conta do
Governo Brasileiro. Somente peço a mais urgente resposta e a lista dos nomes e
sobrenomes e os anos de cada um que virá para o Brasil. Informo-vos que o
casamento da minha filha está se acertando com um polonês que tem propriedade
em frente a minha.É solteiro, portanto o casamento
deve realizar-se depois da Páscoa. Ele tem 22 anos. Agora peço, faça a gentileza de
aconselhar a todos para que não se inscrevam para São Paulo mas para Santa
Catarina, porque lá todos caem debaixo da chibata, aqui todos são livres. Aqui
entre nós há gente com mais de 17 anos e tem propriedades, como entre nós, a
nobreza polonesa. Nós aqui não precisamos arar a terra, porque as enxadas são
largas e pode-se fazer tudo com elas.Basta abrir um buraco e no verão tudo
crescerá. Não esbanjem roupas, camisas e roupa de cama. Fazer pacotes,
empacotar bem e trazer consigo, porque não atiram ao mar. Eu me arrependo
bastante
51. Valentim Miecikiewicz e sua mulher de Nunes (Massaranduba), aos pais. Santa
Catarina (endereço desconhecido). 2/01/1891.
Eluzalba, Colônia Nunes 23, Cidade de Blumenau, dia 2 de janeiro de 1891.
Louvado
seja N.S.Jesus Cristo.
Estimadíssimos
pais. Em primeiro lugar abraçamo-vos milhões de vezes e beijamos como crianças
extremosas. Agora desejamos informar-vos sobre a nossa saúde, sobre a situação
e sobre toda a viagem que fizemos ao Brasil.
Queridos
pais, a nossa viagem foi muito ruim, porque durante vinte e três dias não vimos
nada a não ser o céu e a água. Viajamos com o navio Ochila. Felizmente chegamos
ao Brasil.Comunicamos que o nosso filhinho morreu, não
durante a viagem, mas já aqui no Brasil. Minha mulher de pena enfraqueceu e foi
hospitalizada, mas graças a Deus está melhor.
Queridos
pais levamos ao vosso conhecimento todos os acontecimentos. Informamos que já
recebemos a nossa colônia, quatro “vlocas” de terra com mato. Digo-vos que não
vistes e ninguém viu na Europa, tamanhas árvores como nós temos em nossa colônia.
É pena corta-las pois são árvores tão lindas. Quem
tivesse uma dessas árvores na Polônia, vangloriar-se-ia e nós as cortamos e
queimamos.
Queridos
pais, em vista disso, pedimos, se for esta a vossa
vontade, venham para cá porque também vós recebeis semelhante propriedade. Não
pensem que isto se paga. Não. Tudo é de graça. Somente aquilo que propalaram de
que devolvem as despesas de passagem, não acreditem. Não devolvem a ninguém.
Somente no navio tanto a manutenção quanto o navio são “frai” (de graça).
Também em Bremen tivemos pouso e comida “frai” até embarcarmos. Portanto
levamos ao vosso conhecimento para que não esbanjem dinheiro em Bremen, ainda
que exijam de vocês, digam que não possuem dinheiro. Comunicamo-vos que levem
consigo tudo o que puderem: roupas brancas, de cama e sapatos porque estão
caros, pois não existem sapateiros, embora o couro seja barato. Também se
puderem comprem sapatos para mim.
Agora levo
ao vosso conhecimento que tragam sementes, todas que puderem: trigo, alfafa,
capim, porque aqui não existem. Tudo crescerá porque a terra é apropriada, e
sorgo? (o autor da coleção coloca interrogação pois duvida da palavra).
O que diz
respeito á casa, já me construíram, e vão construir para cada um. Estas foram
montadas pelo Governo, mas quando nos estabelecermos bem, cada um poderá
construir a casa que lhe aprouver, porque há madeira à vontade
Agora acabo
a minha carta. Cumprimento, juntamente com toda a família ao compadre Poplawski
e ele se quiser que venha. Não acreditem porque tanto faz solteiro ou casado,
pois aqui poderá conseguir esposa, mesmo que não tenha documentos
comprobatórios, será aceito pela certidão de nascimento. O pior é a fronteira.
Se por acaso não vierem, escrevam, enviando-nos notícias, em resposta, tudo o
que acontece por lá. Aos meus pais igualmente abraçamos cordialmente, beijamos
e pedimos, se não for incomodo para avisar aos
conhecidos e amigos sobre a nossa situação. Se resolverdes viajar, sereis
levados primeiramente para o entreposto do Rio de Janeiro. Lá farão inscrições
para onde alguém deseja seguir. Então digam que a vossa família acha-se na
Província de Santa Catarina, Distrito de Blumenau Colônia Eluzalna Nunes, 23,
linha Massaranduba. Exijam que vos enviem para lá.
Despedimo-nos
de Vós,
Valentim
Mieciekowicz com esposa
Margarida.
(Aditamento no verso):
Aqui os ganhos são os seguintes: Construímos estrada para a
nossa colônia das 6 horas da manhã até as 6 horas da tarde. O governo paga a
importância
De 8 “zlotes” tanto para os adultos,
quanto para os menores.
52 Martim Miler e esposa de São Mateus, Paraná (destinatário desconhecido). em Ostrowy, mun.
de Kutno. 20/11/1891.
Dia
20 de fevereiro.
Primeiramente
comunico-vos que todos estamos com saúde e desejamo-vos
o mesmo de todo o coração. Chegamos ao destino exatamente no Ano Novo. A viagem
foi muito ruim, porque é muito longe.Nós que saímos da
fábrica, chegamos todos juntos: Lindry, Szczesny, Ofman, Skowronski,
Jaruszefski, Zielinski, nós todos até este momento, todos aqueles que vieram
depois de nós no dia de três Reis. Meu filho Alexandre morreu, mas não foi no
mar, mas em terra firme. Paulo igualmente passou mal, agora, porém está bem.
Não cansa de perguntar pela avó. Se a mãe quiser chegar para junto de nós que
leve roupa de cama e tudo o que puder trazer consigo, porque é permitido. Aqui
a roupa de cama também é necessária e nós não temos nada. Joãozinho trabalha
com o pai nas obras do governo. O clima é igual ao nosso na Europa, o inverno porém não é tão rigoroso como na Polônia.
Agora vou
descrever-vos o que ganhamos no Brasil. Recebemos duas “wlocas” de terra,
segundo a medida polonesa. Desde que partimos de Bremen, estamos por conta do
governo e permaneceremos
assim até semearmos e colhermos. Agora não podemos plantar, nem semear.
Chegamos numa época ruim, pois aqui passou a fase da colheita. Somente vamos
semear no mês de junho.Por conseguinte, o governo vai
ter que nos sustentar por tão longo tempo, até que tenhamos o nosso pão.Aqueles
que trabalham nos serviços do /governo, como Martim, recebe um rublo por dia e
Joãozinho meio rublo.
Recebemos
duas “vlócas” de terra, mas é necessário cortar o mato, queimar e só depois
semear e plantar. Laranjas, limões e frutos não existem porque nós não
queríamos ir para lá onde crescem, porque o clima lá é quente e nós queríamos
ficar onde o clima é ameno. Aqui somente cresce erva-mate, mas de tal qualidade
que na Polônia o quilo custa 7 rublos.
Agora peço
a Mãe, ao irmão, a esposa do irmão, a irmã e ao cunhado que tirem fotografias e
nos mandem. Entre nós ainda não há nenhuma fábrica, mas estão para instalar.
Existem fábricas no Brasil, mas lá o clima é quente. Aqui onde nós estamos vão instalar, porque eram regiões desabitadas. Nós vamos
fundar as cidades, porque já existe aqui um grande contingente de gente.
Agora mando
lembranças para todos: Jasterski, Rasuif, Augustos, a toda a família dos
Frydrich, dos Golc, a toda a família (--), ao afilhado beijos as mãozinhas, a toda a família dos Lindry e a toda a família dos Domek. Os
Ofman mandam cumprimentos a toda a família. Ela teve
uma filhinha no dia dos Três Reis. Cumprimentamos também a família dos
Ossowski, também aos Andrzejewski e finalmente apresentem os meus respeitos a
todos os meus conhecidos.
Finalmente
despeço-me de todos, da Mãe, irmão, cunhada, irmã, cunhado com suas crianças.
Abraço-vos cordialmente e peço que respondam o mais depressa possível, como
passam e se todos estão com saúde. Mandamos lembranças ao Cyndrel e pedimos que mandem a carta á Mãe,
em Lódz. Sejam
tão
bondosos de ler e enviar para a mãe.Não nos podemos
queixar do Brasil, porque aqui não existe tanta miséria.
O endereço
pode ser em Alemão.
Zitz (Süd)
Amerika, (Ryjo Zenero – Rio de Janeiro) Brazilje, Paraná Gola (Paranaguá).
São Mateus,
Colônia Kaszfero (Cachoeira).
Os
Martim Miler
Estamos na
mesma colônia que os Miler. Gozamos de saúde e mandamos lembranças para os August, Linder, Roberto Golc. A minha Vanda não vive
mais. Faleceu no dia 8 de janeiro. Cumprimentamos a toda família de Eduardo
Pufald e comunicamos que Eduardo faleceu, mas não foi durante a viagem, mas sim
já no lugar, no dia 7 de janeiro. Enterramos as duas crianças no mesmo dia.
Pedimos resposta, queridos compadres. O endereço é o mesmo dos Miler, somente o
número é 30.
Os
Zamelow Linder.
(Juntamente) com Wansok enviamos os nossos respeitos e
pedimos a todos resposta para que saibamos o que
acontece por lá na Polônia e se estão passando bem. Não nos esqueçam e
escrevam.
Os
Martim Miler.
O envelope
está danificado, subscrito por outra mão, a mesma grafia da carta nº 76.
Ostrów (Zücker Fabrik/Prov.Warschau.
No verso do envelope a
notação do Censor: “Zadzierzat” (censurado) e um resumo do censor do conteúdo
da carta.
53. Casemiro Monatowski de Blumenau, Santa Catarina
ao cunhado Antônio Bronski (endereço desconhecido). 1890.
Ano
de 1890, Rio Ada.
Amadíssimo
e queridíssimo cunhado Antônio Bronzek. Respeitosamente desejo-te saúde e toda
sorte de bem. Cumprimento-vos, com esposa e crianças, como
cunhado amoroso e como vossa irmã. Domingo saímos de casa e na terça feira estivemos
em Bremen. Lá
ficamos parados 6 dias e depois embarcamos no navio, no dia 25 de agosto. Viajamos durante dois
dias e chegamos a cidade de Antuérpia, sob domínio Belga.No
decurso de dois dias havia tempestade marítima, o navio balançava
horrivelmente, de forma que ninguém podia ficar de pé e posteriormente navegou
vagarosamente até a chegada sob um calor insuportável. Ao todo viajamos sobre
águas durante 32 dias até o entreposto, denominado Rio de Janeiro. Lá
permanecemos durante 5 dias e depois viajamos 4 dias
com navio pequeno, chegando a Desterro onde detivemo-nos quatro dias e depois,
ainda em navio pequeno, singramos mais um dia para chegar aos cais onde ficamos
mais dois dias. Novamente dirigimo-nos de pequeno barco pelo leito do rio até
Blumenau. Lá permanecemos dois dias. Recebemos machados, cortadeiras, facões e
enxadas, que seriam necessários para o trabalho. Chegamos ao destino no dia 10
de novembro.Agora já estamos no lugar que nos foi
destinado. Trabalhamos na construção da estrada e recebemos como pagamento 1 mil-réis e 15 vinténs, ou seja “1rs e 90 kop”.
Todos recebemos igual quantidade de terra, isto é 125
morgas. A terra é excelente, embora em alguns lugares seja montanhosa, mas é
fértil. Crescem: café, fumo, arroz, milho, citus, laranjas, cana de açúcar de
que se fabrica açúcar e cachaça. A cachaça é bastante barata, uma quarta chega
a custar “6 kop”.
A vida não
é cara, embora a distância para apanhar os mantimentos seja grande, uma vez que
a cidade fica distante. A mais próxima é Blumenau e dista
12 milhas
.
O difícil aqui é o primeiro ano, época em que a gente consegue o seu próprio
mantimento. Depois tudo será diferente e aqui para o trabalhador não é difícil.
Quem tiver vontade pode vir. Peço-vos, porém, uma coisa: ao receberdes esta
carta, respondam-na. Se estiverem para chegar escrevam-me e eu direi o que
vocês devem trazer. Por esta razão eu vos mandarei registrada para que
realmente tenha certeza de que chegará. Ainda quero comunicar-vos que a irmã
casou com um viúvo italiano e está bem agora, porque o mesmo é um colono velho
e tem de tudo. Além do mais adeus. Permanecemos com graça de Deus Supremo com
saúde, o que também vos desejamos saúde e toda sorte.
Atencioso,
Cunhado
Casemiro Monotowski
Meu
endereço: Hern Kazimir Monatowski, Provinc Sankt Catarina, Posst Blumenau, in
Rio Ado N 65, Brasilien, Süd Rmérika (Escrito em russo).
Querido cunhado, Antônio Brosek, ao lerdes esta carta, peço-vos que a mande ao meu cunhado, a minha irmã, Inácio Kobalczyk.
Querido cunhado mando-vos lembranças, juntamente com a
esposa e vossas crianças. Desejo-vos saúde e toda a sorte.
Informo-vos
que aqui o clima é o mesmo que na Europa, pois agora é muito quente e será
ainda mais janeiro. Da mesma forma que na Europa existem geadas fortes, aqui no
Brasil é só calor.
Queridos
cunhados meus, agora tudo está bem, somente é triste para mim que meu filho
Casemiro morreu, quando estivemos em Desterro e foi enterrado no cemitério.
Mando
lembranças para toda a família e a todos os conhecidos, desejando saúde,
sucesso total e toda sorte de bens.
Atencioso
cunhado Casemiro Monatowski
Constante
Czebonek (?) (Está escrito com outra grafia. Talvez ajudou a escrever a carta?).
54. Pedro Murlik de Santo Antônio da Patrulha, Rio
Grande do Sul para a família (endereço desconhecido). 26/11/1891.
Dia
26 de fevereiro de 1891.
Cidade
Santo Antônio.
Louvado
seja N.S.Jesus Cristo. Agora informo-vos sobre a vossa
saúde e sobre a nossa situação. Graças ao Deus Supremo estamos com saúde, o que
também desejamos: sorte, saúde e sucesso. Agora mandamos os nossos cumprimentos
ao tio, à tia, a vos irmãos e irmãs e cunhada e meus respeitos ao compadre e comadre
Wojciechjowski e a sua comadre, os Feliks. Meus cumprimentos também a Francisco
Wojciecjhowski com sua mulher e filhas e a vós senhores Andrzejewski, com
esposa e filhos. Minhas lembranças aos amigos e conhecidos.
Peço outrossim, que enviem esta carta a Chruszczowo para
Francisco Murlikowski. Minhas lembranças a vosso irmão
e cunhada, senhores Lewicki. Peço-te irmão que apresente meus cumprimentos a
Szelinski de Pilichowa (o lugar não está definido, segundo o autor).
Levo ao
vosso conhecimento que estamos com saúde, somente morreu Lucina, filha dos
Zielinski, o que se deu
em Porto Alegre. Estamos
juntos com os Zielinski.
Continuamos a caminho, sem nenhum aborrecimento e em breve estaremos na
Colônia. Ouvimos de outros colonos que cada família receberá 5 “vlócas” de terra, enquanto o solteiro 2 e meia. O pai recebe utensílios de
cozinha, 15 mil-réis e eu 10 para os implementos agrícolas. O pai recebeu 25 e
25 mil-réis – rublos (sic) e devo receber ajuda para montar uma casa comercial,
pois pretendo organizar uma venda e bar, uma vez que aqui se pode fazer tudo
sem patente. Não tenho mais nada a escrever agora, mas quando estivermos na
colônia, vou escrever uma carta atrás da outra. Irmão se
desejas, podes vir e traga-me uma boa menina.
Quando
chegarmos a colônia, vamos escrever se deves ou não
vir. Não tenho mais nada a escrever. Peço que respondas e despeço-me. Desculpe.
Pedro
Murlik
ALBERTO
LASAKAZKI DE OSCIOWO.
Estamos com
saúde, por graça de Deus Supremo, o que também vos desejamos: saúde, felicidade
e sucesso. Viajamos durante todo o percurso como os Nawrocki e com os
Zawieruchowski, com saúde. Chegamos juntos
em Porto Alegre
, onde
eles ficaram e eu parti para Santo Antônio. Meus cumprimentos e abraços,
crianças queridas, do pai extremoso. Meus cumprimentos e respeitos a Malagoski,
a toda a família, parentes, conhecidos e amigos. Lembranças aos Bienkowski.
Peço que entreguem esta carta aos Malagoski. Não tenho mais nada a escrever,
porque o que está nesta cata é a mesma coisa.
Alberto Lskowski
OBS: Esta carta foi escrita por Pedro Murik.
55. João Muszynski de São Feliciano, Rio Grande do Sul do
Sul, á esposa, Regimin, município de Ciechanów. 1/04/1891.
Veja Mapa atual de Regimin - Ciechanow
São
Feliciano 1º de abril de 1891.
Querida
esposa:
Louvado seja
N.S.Jesus Cristo. Comunico-te que estou com saúde, o que também te desejo de
todo o coração. Vou descrever-te a minha viagem porque praticamente encontro-me
no lugar destinado e daqui vão distribuir as colônias. Viajei durante 26 dias
de navio e cheguei a cidade que se chama Rio de
Janeiro, onde permaneci oito dias e inscrevi-me para a colônia de Porto Alegre.
Viajei seis dias e a vida era um pouco pior do que antes. Cheguei a este Porto Alegre,
permanecendo por 6 dias e alistei-me para São Feliciano. Seguimos para lá de
navio, viajando uma noite inteira, depois de trem e em barcos e nas tais
chamadas carretas, tiradas, não por quatro cavalos, como acontece entre nós,
mas por 10 bois e as carretas são de duas rodas. Viajamos nestas carretas
durante seis dias e uma semana antes da Páscoa , pois
exatamente no dia 23 de março, estivemos no lugar destinado. Aqui já não nos
fornecem comida, mas cada um ganha 400 réis e prepara a própria alimentação,
assim como fazem os ciganos. Você se inscreva da mesma forma.
Querida
esposa, se tens vontade, venha.Leve consigo: roupa de
cama, vestidos, ferro de passar roupa, facas, garfos, colheres, porque aqui são
necessários.Para mim compre uma calça.Você, Inácio, irmão querido venha
igualmente com mulher e crianças, mas leve consigo todas as coisas que puder.
Você, irmão Antônio, faça da mesma forma, leve o que puder, especialmente roupas e sapatos porque aqui são caros. Quando estiver em Bremen,
compre uma espingarda de cano duplo com seu dinheiro e eu te devolverei. Você querida
Mãe venha e desta forma estaremos todos juntos. Ao receber esta carta não a
jogue fora, mas guarde consigo para não esquecer para onde deve ir e não vã
para outro lugar. Não acreditem que a roupa de cama á atirada ao mar e o mesmo
acontecendo com as caixas grandes. Tudo é mentira. Venham para o lugar que eu
mandar. Irmão Sobolewski, você venha também. Vai receber 4 “wlócas” de terra, em largura, porque o comprimento somente Deus mede. Leve
roupa de cama porque as noites aqui são frescas.
Querida esposa
compre toda sorte de sementes pois aqui tudo será
útil: repolho, beterraba. Alface, cenoura, salsinha, alho poró, batata salsa e todas sementes de horta. Despeço, esperando todos com
impaciência pois vocês não imaginam como foram tristes
os dias santificados.
Teu
esposo e irmão
João
Muszynski
Querida esposa comunique a enteada de Robaczynski, em
Regimin que venha para junto de João Robaczynski que se encontra na mesma
localidade que eu.
Até à vista
João
Muszynski
Envelope (danificado)
Província de Plock, Município de Ciechanów, Aldeia Regimin
(--) , Antônio (--) Urzynski,
em Przasniski Rogatki
,
mora na casa de Jaszczuw.
No verso: Um carimbo ilegível do correio Russo com
aditamento do censor “Zat (ierzat)”.
56 Caetano Nowak de Rio Carolina, Santa catarina para a familia (endereço desconhecido) 25/01/1891
Rio
Carolina, dia 25 de janeiro 91
Escrevo a
carta para toda a família, irmãos e a ti, irmã. Com as primeiras palavras que seja louvado N.S.Jesus Cristo.Inicialmente escrevo a você
querido irmão João e para ti cunhado e compadre Pankowski. Escrevo sobre a
minha viagem e sobre a minha saúde. Estamos bem, graças a Deus Supremo, o que
também vos desejamos. Unicamente tivemos um aborrecimento porque faleceu o
filhinho, Eduardinho. Querido irmão João e compadre Pankiwski viajamos de navio
durante 18 dias, gozamos de saúde, juntamente com as crianças quando chegamos
ao Brasil. Eduardinho estava bom no primeiro entreposto. Partimos em outro
navio e singramos durante dois dias e duas noites. Neste navio a criança adoeceu,
apareceu nele uma espécie de varicela e ele teve sinais de pequena melhora.
Fomos transladados do segundo para o terceiro navio, no qual viajamos mais uma
semana. Depois transportaram-nos de carretas e viajamos
durante dois dias. No primeiro dia o tempo estava bom, mas no segundo choveu
durante o tempo todo. Não paramos até chegar ao lugar e a criança apanhou
chuva. Ao chegarmos ao destino eu mudei a roupa, colocando seca, pois ela
estava com frio e tremendo. Querido irmão eu penso e imagino que ele apanhou
resfriado. Aqui na América o clima e o calor é como
entre nós no mês de junho. Nos meses de julho e agosto chove com trovoadas.
(Há) fertilidade e tudo cresce como entre nós.
Portanto
querido irmão João e compadre Pankoski desejo descrever-vos a minha
propriedade. Ganhei uma colônia de 25 morgas de mato, árvores diversas e que
árvores (--) e tudo é cortado, secado e queimado.No
local planta-se tudo o que existe no mundo e não carece arar, nem gradear, somente
se trabalha com enxada, como acontece entre nós no plantio da batatinha. É
assim que se faz com os cereais. A mulher pode semear repolho e fumo. O povo
possui arroz e hortaliças de todas as espécies que existem no mundo
Querido
irmão João e compadre Pankoski, se entre vós existissem estas colônias, então
tudo seria diferente e seria como Masakoski ou Dzienkoski, pois com a
posse de tais árvores seria milionário. Aqui tudo se perde porque não existe
procura. Somente se corta, queima e estraga. Não faltam cobras, lagartos e
bichos, mas depois da queima tudo desaparece. Querido irmão descrevo-te o
lugar: Província de Santa Catarina é a mesma coisa que entre nós Província. O
correio ali existe. A cidade de Blumenau é como entre nós município.O
local onde eu me encontro é Rio Carolina, o número da colônia é
9. A
situação está difícil.
Procurarei semente para plantar e conseguirei a minha subsistência (A tradução
das últimas frases é apenas interpretação, pois está incompreensível – nota do
tradutor). Oxalá tivesse trazido consigo sementes de ervilha, “bóbr-Lubina?”! Os colonos velhos tem isso a vontade. Lamentavelmente é
preciso comprar. Criam até 20 vacas, carneiros, até trezentos porcos, até 10
cavalos, marrecos, gansos, entre trezentas, quinhentas e até mil galinhas.
Querido irmão a coisa não é fácil, tenho que trabalhar para organizar a minha
propriedade devagar, desde que o Senhor Jesus me conceda saúde, teremos tudo.
Trabalho no
serviço do tesouro, (?) (deve ser público – trad.), na construção de estrada.
Recebo o pagamento mensalmente, cujo valor diário corresponde a um mil-réis e
quinze vinténs, o que equivale a oito “zlotes” na Europa. Dedico-me aos
serviços de sapateiro esporadicamente, porque aqui os calçados são caros. A
língua é portuguesa e quando nos falam não entendemos nada e quando nós lhe
falamos eles também não entendem nada. O padre é português e reza a missa em
latim, da mesma forma como na Polônia, mas não entendemos a sua língua e ele
não entende a nossa. A igreja dista
12 milhas
. A capela, porém fica perto e o local
onde são enterrados os mortos dista duas milhas. É inverdade que não se pode
ter outra fé a não ser a católica. Isto é mentira, porque aqui existem todos os
credos que existem no mundo: judeus, alemães, italianos e pagãos. A
diversidade é a
mesma que se possa imaginar existir no mundo. As roupas são as mais caras. Os
serviços de alfaiataria são caros, faltam alfaiates, são poucos.
Querido
irmão, nós os conhecidos somos: Pedro Wilczewski, Estanislau Jablonski, Adão Gabowski de
Stelmachów e Joãozinho que desistiu (--). Reverencio-vos irmão e cunhado e
informo-te a respeito de teu filho João Tryskucz. Ele desistiu, embora eu
quizesse que ele permanecesse comigo, mas ele ouviu os conselhos do pai da
cidade e dos sogros de Kulinowski. Desaconselharam-no, argumentando que ele
iria trabalhar para mim e resolveu ir embora para a casa de Benedyk. Querendo
chegar até onde ele está, é necessário andar o dia inteiro. Querida irmã, ele é
um canalha, nada de bom. Quanto eu não fiz para dissuadi-lo, mas ele não
escutava. Tanto quanto ele, eu também ganho. É o mesmo dinheiro, porque aqui se
paga o serviço por dia. Ainda que se trate do homem mais forte, o pagamento é o
mesmo. Somente aquele que tem 12 ou 15 anos é que ganha a metade do dia, isto
é, da importância que eu recebo. Se eu ganho 8 “zlotes” diários, ele ganha 4. Minha irmã, assim lhe falei:
ficarás comigo, minha esposa vai cozinhar e lavar a roupa e a menina vai levar
a comida até o local do nosso serviço, porque é necessário ir com a caderneta para buscar os mantimentos, o
que leva um dia. O solteiro que não seja casado ou que não esteja junto com os
pais não ganha mantimentos e não lhe fornecem a caderneta, tem que caminhar o
dia inteiro e adquirir os mantimentos mediante dinheiro, porque não acreditam
em solteiro pois hoje ele está aqui e amanhã estará
lá. Uma colônia é abastecida da seguinte forma: se o pai tem filhos maiores de
20 anos, ou 19, ele ganha 125 morgas de terra e os filhos ganham igualmente
125. Os menores de idade não ganham. Tanto faz solteiro ou casado, cada um
ganha 125 morgas. Nas colônias não há trabalho, a não ser que vá para as
fábricas na cidade. Mas como não se conhece a língua, não querem dar emprego
(atribuir responsabilidade).
Querida
irmã, eu falei para o teu filho que receberá colônia junto da minha, ao lado, e
ambos iremos para o trabalho e limparemos (cortemos o mato) a colônia. Eu
contratei dois italianos e eles me cortaram quatro morgas e a restante vou
cortar sozinho, aos poucos.
Querida
irmã e irmãos João e Vicente, se nós tivéssemos esta colônia em dois, teríamos serviço à vontade e
de que viver. Trata-se de 125 morgas, cada uma das colônias! Portanto, queridos
irmãos eu só fiz um erro de ter esbanjado as coisas por quinquilharias porque
devagar ou poderia ter vendido e viajado, em uma ou duas semanas. Por cima
esbanjei dinheiro com registros a cargas. Tudo isto é mentira. Não é necessário
nem certidão de nascimento, nem carta alguma. Falavam que vão devolver o
dinheiro. Tudo é mentira. Até Bremen nós pagamento e até ali tive que pagar 22 marcos pelo pouso e comida. Depois ficamos por conta do
tesouro do governo até o destino. O transporte é por conta do governo. O
serviço público é o seguinte: trabalhamos, fazendo estradas para as colônias e
o governo nos paga. Por isso peço-te, querido irmão João, mande-me notícias
sobre Casemiro, esse cachorro, esse ladrão, se ele devolveu ou não os dois
rublos. Se não devolveu que pese em sua consciência e assim terá que prestar
contas diante de Deus, no juízo divino, porque ele já tem muitos pecados em
relação a mim e para com o povo, pois algum dia Deus vai lhe chaqualhar os
fundilhos. Querido irmão, mande-me notícias a respeito daqueles que partiram
para o Brasil, se esse Martim Strysko partiu ou não e escreva-me sobre o que
acontece por lá em vosso pais.
Meus
profundos cumprimentos à Mãe. Está com saúde? E ao Vicente, sua esposa, ao
filho Albino e Stelwka. Estão com saúde? Querido irmão, não se zangue,
juntamente com a esposa, por não ter ido para me despedir, pois não tinha
tempo. Já era noite quando saí da chancelaria. Portanto, lembranças e todos,
com esposa e filha Constância e Júlia e Francisco e Adélia, a toda a família e
novamente para vossos filhos desejamos boa saúde, só sorte e Boas Festas de Páscoa.
Deus nos ajude a alcançar outro ano e responder cartas
com saúde. Meus respeitos a Paulo Dambrowski, com desejos de saúde e sucesso em
todos os empreendimentos.
Querido
irmão, se alguém estiver para viajar ao Brasil, então que tenha dinheiro para a
família, uns 130 rublos, para serem gastos com parcimônia, porque em toda a
parte, sem dinheiro, passa-se mal. Enviem notícias sobre o inverno, porque na América a camisa
vive úmida de suor e a natureza é verde, como no mês de maio, as flores
desabrocham, como entre vós nos vasos, aqui nos jardins.
Querido
irmão, peço-te resposta para a carta, quanto antes.
Mande a carta registrada para que chegue, pois do contrário
não chegará. Daqui também cada um manda carta registrada. De todo coração,
vosso sincero e amoroso irmão.
Caetano
Nowak.
57. Caetano Nowak, Rio Carolina, Santa Catarina para o irmão (endereço desconhecido sem data e falta a introdução da carta)
Peço-te, irmão querido a resposta da carta, quanto antes,
porque estou muito aborrecido e sonho toda a noite. O que está acontecendo em
vosso país e o que se passa com aqueles que pertenciam ao exército e qual foi a colheita entre vós. Fique com saúde, juntamente com a
mulher, até o agradável reencontro.
Meu endereço:
Herrn Kajeton Nowoz / Provinz Santa Catarina / Correio
Blumenau / colônia nº 9, Brasilien, Süd América, na América (em russo).
58. André Palinski de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, à esposa (endereço desconhecido). 29/01/1891
Alfredo
Chaves, 29 de janeiro de 1891.
Querida esposa:
Primeiramente ao adentrar à porta
da casa, louvo Nosso Senhor Jesus Cristo. Agora comunico-te que passo bem e com saúde no Brasil. No Ano Novo ganhei a terra, cerca de 6
“wlócas” com mata de 1 légua e meia de comprimento e 1/3 de légua de largura.
Já estou trabalhando nesta terra, corto o mato e quando este seca, queimo para
que se possa semear. Se esta lenha fosse na Polônia,
valeria algumas dezenas de rublos. Nesta região não é quente demais e as noites
são relativamente frescas. A tua passagem talvez chegue antes do que esta
carta, ou talvez depois.Querida esposa, peço-te que
não desperdice objetos de cozinha e traga consigo tudo o que puderes. Leve
igualmente sementes de hortaliças, como: repolho, cebola, cenoura, beterraba,
salsinha, etc. e ainda ervilha de roça e alfafa, pelo menos metade de uma
quarta, bem como todos os feijões de horta. Agora previno-te que em Bremen não se paga nada pela manutenção e pelo pouso, porque tudo é pago
pelo Brasil.Ao chegares a primeira ilha, inscreva-te para viajar até onde se
encontra o marido, ou seja para Porto Alegre, isto é Brigada 7, número da
colônia 47. Alem disso, se alguém dos conhecidos quiser, pode vir ao Brasil.
Agora despeço-me de ti, querida esposa e beijo
juntamente com as crianças.
Cordialmente
marido extremoso
André
Palinski
Julius Liedke (?)
Kapatas 7ª
Lessiaã (?)
Alfredo Savesse.
(Segue bilhete anexo, escrito com outra mão, contendo a
relação de quatro pessoas: Francisca Palinski, Estanislau Palinski, Josefa
Palinski e Francisca Palinski).
59. José Rogowicz de Dona Joana, Santa Catarina para a filha
Úrsula, em Dobrosolosovo, município de Konin. 5/03/1891.
Ano
de 1891, dia 5 de março, Rio Joana.
Em primeiro
lugar digo estas palavras: Louvado seja N.S.Jesus Cristo. Querida filha, depois
de uma longa e penosa viagem, cheguei ao destino em 5 de novembro e já se passou bom tempo e não tive oportunidade e disposição para
escrever carta. Vou descrever a minha viagem.Partimos
de Strzolkowo numa segunda feira e no terceiro dia chegamos a Bremen. O trem
nos custou 15 dólares. Em Bremen permanecemos 3 dias e
meio e paguei 27 marcos ao agente do hotel. De Bremen partimos de trem,
viajando três horas e embarcamos no navio, denominado Weser. Depois que embarcamos,
só desembarcamos 20 dias depois na cidade do Rio de Janeiro. Aqui ficamos dois
dias e novamente partimos com navio brasileiro, viajando durante 4 dias até a cidade de Desterro. Lá detivemo-nos três dias e
seguimos em barco pequeno, alcançando em dois dias a cidade de Blumenau.
Permanecemos ali um dia e prosseguimos, em carroças, chegando a colônia Rio Ada, após dois dias de viagem. Locaram-nos num
barraco do Governo, onde até agora nos encontramos. Levaram-nos para um
destino, onde não há nem estradas, só florestas sem fim. Agora estamos
construindo as estradas. Recebemos pelo trabalho um mil-réis e 15 vinténs
diários, isto quer dizer dois marcos. (--). Informo
que ganhamos 125 morgas de terra com mato. Quem construir sua casa receberá do
governo 200 mil reis, ou seja 200 Rs russos e quem não
quiser construir, o governo lhe fará.
A terra é
boa, mas o trabalho é muito e é em demasia pesado para nós. Como já sabem, quem quizer, poderá vir, mas depois de receber a
minha carta. Por favor respondam, dizendo o que
acontece na Nação Polonesa, porque estou muito curioso.
Mando
lembrança a Casemiro como meu filho, com sua esposa Bronislava. Desejo-te
saúde, toda sorte de sucesso e tudo de bom que pedis a Deus. Ainda mando
lembranças ao filho Antônio, com sua mulher Úrsula e seus filhos, desejando
saúde e tudo de bom. Saúdo ainda, a Mariano Sporogonik
e José Spogowski com seus filhos. Mando lembranças a toda da Casa, com parentes
e conhecidos e comunico-vos que aqueles que tem vontade podem vir, mesmo que aqui não seja bom demais, mas também lá não tem
nada de bom. Cumprimento ainda a filha Marciana, com seu marido André Glowoski
e suas crianças, almejando saúde e boa sorte. Quanto ao irmão não informa nada,
porque não sei por onde anda. Esteve aqui perto durante dois meses, mas viajou
e não sei por onde anda agora pois não mais escreveu.
Andrzejak também partiu junto e mais outros dois, portanto os quatro de
Stanislawów. Andrzejak teve seu dinheiro roubado em Berlim, num total de 12
dólares, por isso passamos dificuldades porque nós o trouxemos por nossa conta
e chegamos ao destino praticamente sem um vintém.
Ainda saúdo
ao sogro de Lourenço Plesma de Zbiezymek, juntamente com sua esposa e filhos.Desejo saúde e toda sorte e todo o bem o que desejais
da parte de Deus. Cumprimento ainda Pedro Plesma com esposa e filhos, almejando
saúde. Comunico e peço o que adiante segue.
Se ela (a
filha do autor da carta – segundo o compilador das cartas) não esteve convosco,
se o irmão estiver fazendo mal, peço que se lembrem que Úrsula é minha filha. Se alguém, alguma pessoa boa, estiver para viajar que
venha para junto de mim. Ainda cumprimento a Jacó Zieniak e imploro-te, pai
querido, se ainda não partiu, após receber esta carta
que venha e encareço que vá buscar a minha filha e venha diretamente para junto
de mim, seguindo o endereço.
Cumprimento
ainda a Miguel Spozyrski e Martim Cieply com esposa e crianças, desejando saúde
e pleno sucesso. Cumprimento igualmente a Liberowski e peço que o favor de ler
e explicar para meus filhos. Ainda mando lembranças a Zielesinski, desejando
saúde, sucesso e todo o bem.
Meu filho Casemiro, escrevo-te que destinei a vaca preta
para Úrsula, bem como a novilha preta, ágil e mocha. As novilhas restantes são
para você, meu filho, enquanto a égua de cor zaina que fique também para
Úrsula, ao passo que as cinco gansas e os gansos velhos também pertencem a
Úrsula, pois eu assim destinei como pai. Os marrecos em número de 25 são da
Úrsula, as 15 galinhas também e tudo o que há é dela. Os quadros de santos e
semelhantes igualmente pertencem a ela. Para você, meu filho, destino o cavalo
pequeno e a carroça. Os dois pares de grades destino um para você e o outro para Úrsula. Pague a Úrsula a máquina de cortar palha, o mesmo com relação ao machado. Metade da balança para
cereais pertence a Úrsula, também metade do forno de
ferro e também metade das carroças de transportar batatinhas.
Tudo o que
restar de miudezas é teu, meu filho. Agora (—) irmão mais velho de Antônio
Rogowicz que mora em, (—) e o outro Sporogowski, se lhes agradar, quando
quiserem chegar, peço que levem todo o capital da
minha filha Úrsula que lhe destinei e venham juntamente com ela (—). Agora meu
filho escreva-me como terminou o processo com o fazendeiro.
Cumprimento
a todos em geral e aos conhecidos. Vosso pai estremoso José Rogowicz. Estamos,
graças a Deus, com saúde.
Meu endereço
Hern Jozef Rogowicz
Provinz Santa Catarina / Posst Blumenauin / Dona Johana nº
12 / Brasilien Süd Amerika / na América.
O envelope está endereçado
em russo. Há
um
carimbo de Blumenau de 1-IV-1891.
No verso: Resumo da carta em russo, feito pelo censor e a
decisão: “Zadierzat”. Carimbo do Correio Brasileiro do Rio de Janeiro de
9-IV-1891.
60. Estanislau Sabelski de Brusque, Santa Catarina para os pais
(endereço desconhecido). 15.03.1891.
Dia
15 de março de 1891.
Ao adentrar
a casa dos
queridos pais, louvado seja N.S.Jesus Cristo. Vosso Filho Estanislau Stabelski.
Estou com boa saúde, graças a Deus, o que também vos desejo de todo o coração.
Viemos ao Brasil com saúde, viajando por águas durante 22 dias até Rio de
Janeiro, primeira cidade brasileira. Ali paramos dois dias, descansando e depois 4 dias para chegar a Santa Catarina. Trabalhei durante 4 meses na construção de estradas, ganhando um mil e
trezentos réis por dia. Recebi 120 morgas de terra, só mato, com árvores
enormes. O trabalho é pesado. O trabalho é pesado. Aqui entre nós no Brasil,
faz muito calor, assim como lá em plena colheita de trigo. É possível dormir,
desde que a gente não se cubra com nada.
Querido
pai, não existe nenhuma escravidão. Cada pessoa é livre. O calor é permanente,
querido pai. Estou com saudades de vocês. Se quereis podeis vir para cá. Querido pai, toda a família poderá viver bem na minha
propriedade. Aqui cresce o arroz, o milho, a cevada, o trigo e o centeio são
vigorosos, bem como toda sorte de verduras: cenoura, beterraba, nabo, salsinha,
cebola, numa palavra tudo. Em nossa região ainda não há trigo vigoroso, nem
centeio, nem batatinha européia. Crescem limoeiros, laranjeiras e café. Mas tudo tem que ser
plantado. Cresce cana-de-açúcar, de que se fabrica cachaça, vinagre e açúcar.
As igrejas são poucas. Se alguém deseja fazer a confissão, despende quatro dias de ida e
volta. A capela acha-se distante quatro léguas. Há muitas capelas. Os ganhos
parecem bons, mas a vida é cara. Se a família for grande, não se consegue
manter, porque o custo de vida é alto.
Se desejais vir, não desperdiceis ferramentas agrícolas, bem
como cepilho, formão e veruma. Levem todas as ferramentas consigo. Levem tudo o que puderem de roupas de cama, camisas, roupas
de verão, sapatos, o mais que for possível. Junto comigo estão Miguel Sabelski,
Marusieski e Falkoski, bem como o ferreiro Antônio Leszczyszyn.
Despeço com
minha mulher, querido pai (—). Cresce a parreira. Peço-vos, querido pai, que
responda quanto antes, se virão ou não. Viajamos pelas águas muito bem. Da
cidade de Brusque levaram-nos para uma grande selva. Tivemos que perambular
muito até chegar a vida estável. Querido pai, para quem vai bem na Polônia, ficará bem no Brasil. Pode-se criar
porcos, gado,
galinhas, marrecos á vontade. A
batata de porco basta plantar uma vez e terá para sempre. No Brasil crescem
cogumelos nas árvores, mas tais que é necessário cortar a machado. Quem mais
partiu de Lesku a Zerardów para o Brasil?
Despede-se
vosso filho, com sua mulher Estanislava Sabelski. Despedem-se Miguel Sabelski e
Falkoski com sua mulher, bem como Maruszewski com sua mulher.
Fique com
Deus, querido Pai. Não fornecem passagem de volta de forma alguma. Deveremos
receber 200 mil-réis como ajuda para a propriedade. Um mil-réis equivale a 8 “zlotes” vossos. Despedem-se todos os que ficam no Brasil
com suas famílias (—). A primeira semeadura faremos em
nossa propriedade no mês de agosto. Quando estiverem embarcando em Bremen para
o mar, levem também quatro broas de farinha preta, vinagre, duas garrafas de
essência,
6 libras
de açúcar, chá (—), levem
gente boa que transportarão vossas bagagens pela fronteira até Dziadwa.
Endereço:
Brasil, Província de Santa Catarina, Brusque, S.S.M. dia 15 de março de 1891. (S.S.M, provavelmente significa Stanislaw Sabelski e H,
primeira letra da esposa — anotação do autor).
Adentro a
casa dos queridos pais.
Louvado
seja N.S. Jesus Cristo.
Queridos
pais, por graça de Deus, estou com saúde, juntamente com minhas crianças. O
filho que Deus me deu tive que entregar para ser criado por outros. Envio-vos notícias
tristes, queridos pais, Mariana, minha esposa querida e vossa filha, separou-se
de nós. Tivemos ao todo nove dias de doença e faleceu no dia 9 de novembro. No
final de sua vida pediu orações pelo descanso eterno e uma Ave Maria. Que o Pai
e a Mãe não esqueçam sua alma. A vossa filha Ladislava permanece ao lado do
cunhado, graças a Deus com saúde, o que também vos deseja de todo o coração.
Ladislava beija os queridos pais, irmãs e irmãos queridíssimos. Marian
pediu-vos, queridos pais e mãe Santa Missa e lembrança anual durante os três
anos seguintes. Recebi 120 morgas de terra no Brasil. Miguel Sabelski, vosso genro Lourenço Lypka, mandam lembranças aos Czerwinski
em
Biegienice Górskie
; Josefa, mulher de Kucinski de Clanin
manda lembranças para o tio. Mariazinha escreve para a vovozinha e vovozinho as
primeiras palavras, beija vossas mãos e despede-se. Fiquem com Deus, Maria Sobelska. Despeço-me de Vós, queridos pais.
Miguel
Sabelski.
Dara
Sarnowo, dia 15 de março de 1891.
Queridos
pais, adentro vossa casa, louvando N.S.Jesus Cristo.
José, vossa
filha amadíssima e João Marusienski, genro. Comunico-vos que estamos com saúde,
graças a Deus Supremo, o que também vos desejamos, segundo pedis a Deus. Queridos pais, comunico-vos que morreram Estanislava e
Josefa, quatro dias depois que morreu a senhora Szebelski. Josefa faleceu há
duas semanas e Estanislava há quatro dias.
Queridos
pais, mando-vos lembranças. Vicente e Francisco estão com saúde, graças a Deus.
Querida mãe e querido pai, estamos bem de saúde o que também vos desejamos, por
graças de Deus. Cumprimento a toda a família, esteja ela onde estiver. Peço-vos
queridos pai e mãe, que entreguem esta carta ao meu irmão Adão Maukusiewski.
Mando lembranças a Balduiva, minha irmã e peço-te, querido irmão, entregar a
ela esta carta. Quanto a minha situação, não quero dizer nada, comunicarei mais
tarde. Queridos pais não esperem de mim carta alguma, até que esteja em melhor
situação, então escreverei.
João
Streiesky e Mariana Strojiska
Quando
escreverem carta para mim, mandem-me toda sorte de
sementes, todas que possuírem de primavera. Que toda a família fique com Deus.
Queridos pais, fiquem com Deus. Ganhei tanta terra que durante toda a minha
vida não terei condições de usar. Mando-te lembranças, Estanislau Sabelski e a
Inácio Salezy seu irmão.
Os nossos
endereços são estes:
Ao cidadão
Estanislau Saberski, Estado de Santa Catarina, Itajaí, Colônia Brusque, Brasil.
( o endereço está escrito com outra tinta e grafia —
anotação do autor).
61. Antônio Saniewski de São Feliciano, Rio Grande do Sul à
esposa. (endereço desconhecido). 2/02/1891.
Brasil,
Colônia Feliciano, 2 de fevereiro de 1891.
Louvado
seja N.S.Jesus Cristo.
Comunico-te
queridíssima esposa, que por graça de Deus estou com saúde o que também te
desejo de todo o coração. Amadíssima esposa, peço-te perdão por não ter escrito por tão longo tempo. As constantes viagens não me
permitiram escrever. Somente agora o faço, por me achar em lugar definitivo.
Permaneço na colônia, pois sem terra não havia lugar para mim. Nesta colônia
somente poloneses católicos fixaram residência. Querida esposa, peço que
venhas, com tempo livre, para cá e o mesmo peço a meu irmão, porque a situação
aqui é boa. Consiga tudo o que te servir para a viagem, porque não tenho
condições de te enviar dinheiro, porque não tenho e o que nos dão, gastamos para viver e comprar as coisas necessárias para
organizar a propriedade.
Querida
esposa, não ligue para as conversas do povo, basta que tenhas o suficiente para
chegar a Bremen e depois poderás chegar ao destino por conta do governo. Leve
consigo talheres e utensílios domésticos, porque eu tive que compra-los em
Bremen, uma vez que no navio não dão nenhum talher para comer. Se puderes leve
consigo chá, açúcar e gotas de massanilha. Do mar desembarcarás no Rio de
Janeiro, depois
em Porto
Alegre
e dali para a colônia onde me encontro. No barraco
obterás com o diretor a linha em que me encontro, pois algumas linhas foram
colonizadas especialmente para nós e nem eu mesmo sei como se chama esta linha.
Querida
esposa, envio-te as mais cordiais lembranças. Cumprimento a você minha filha e
a mãe, aos tios e a toda a família e a todos os conhecidos. Mando-te o meu
endereço, querida esposa para, quando chegares ao Rio de Janeiro, inscrevas-te
para Porto Alegre e depois para a colônia Feliciano. Ainda te escrevo mais uma
vez, primeiramente para Porto Alegre e depois para a colônia Feliciano.
Teu
marido
Antônio
Saniewski
62. João Sitniewski de Santa Cândida, Santa Tereza (?) Rio Grande do Sul
para Francisco Baginski, Stara Wiés, município Prasnysz. 13/03/1891.
Cândia,
carta escrita em 13 de março de 1891.
Louvado
seja N.S.Jesus Cristo.
Estimadíssimas
crianças minhas, saúdo-vos, meu filho Francisco Sitniewski. Cumprimento a todos
em conjunto, primeiramente os filhos, depois os parentes e conhecidos, enfim a
todos, desejando sorte, saúde e tudo o que pedis a Deus Supremo.
Agora informo-vos que durante a viagem tudo foi muito bem, somente
faleceu a filha, mas já em terras brasileiras, na cidade de Porto Alegre.
Cecília foi sepultada no cemitério polonês. Comunico-vos que tenho tanta
madeira quanto o senhor Mostoski. Queridas crianças, peço-vos encarecidamente
que venham. Aqui há de tudo: galinhas, porcos, gansos, gado com chifres e
burros, tudo à vontade, como na Europa.
Quero
avisa-los de que, quando estiverem para viajar, não levem broa consigo porque pode-se comprar durante a viagem. Não é necessário pagar
pelas certidões ou passaportes, porque são de graça.
Ao viajar,
levem consigo algumas sementes, especialmente aqueles que vierem por primeiro.
Meu querido
genro, mando-te lembranças e venha quanto antes e
traga colheres o maior número de dúzias que puderes e aqui te pagarei.
João
Sitniewski, pai e mãe Francisca, nós os pais vos pedimos que venham quanto antes, seguindo estes endereços: Para
Porto Alegre e daí para Santa Tereza. Aguardo a mais urgente resposta para que
saibamos quando e em que tempo temos que esperar.
Desta forma
nós também obteremos colônias para vocês.
O meu
endereço:
Brasil, Rio
de Janeiro, Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Santa Cândida, Santa Tereza, linha
“zuzerlulu” (?), João Sitniewski.
No
envelope:
Rus Pols,
Gubernia Plocka, Município Mlawa, Aldeia Mlostowo/Stara Wies/, em mãos de
Francisco Bakenski.
(Existem
restos de selo brasileiro e carimbo do Rio de Janeiro).
No verso:
Carimbo do
correio russo, datado de 9-IV-1891 (estilo antigo) e inscrição a lápis do
censor: “Zadierzat”.
63. José Skowronski e
esposa de São Mateus, Paraná, para os pais, Ostrowy, município Kutno.
19/03/1891.
Brasil, 19 de
março de 1891.
Sejam as
primeiras palavras da minha escrita: Louvado seja N.S.Jesus Cristo.
Queridíssimos
pais, em primeiro lugar informamo-vos sobre a nossa
saúde e situação que, por graça de Deus Supremo vamos bem, o que também vos
desejamos de todo o coração. Agora vou descrever a nossa viagem. Atravessamos a
Prússia, em Bremen embarcamos e viajamos durante 24 dias e não descemos do
navio a não ser no Rio de Janeiro. Ali permanecemos 8 dias e depois seguimos para o Paraná. Do Paraná (provavelmente Paranaguá) fomos
a Curitiba e dali para São Mateus. Aqui é o nosso destino e nossa vida.
Recebemos terra, segundo a medida brasileira, 100 morgas e segundo a medida
polonesa “2 wlocas” e 20 morgas. O terreno está
coberto por enorme mata. É preciso ter saúde para trabalhar, porque é
necessário cortar tudo. Esperamos ter um pedaço de pão daqui a alguns anos.
Queridos pais, se vocês tem a mesma vontade que nós em
relação a vocês, então venham para cá. Viveremos juntos, pois vocês lá não tem propriedade, o que trará dificuldades na
velhice e aqui, com o tempo, não faltará pedaço de pão.
Por isso,
pedimos que venham quanto antes. Não tenham medo do
clima, porque é igual ao polonês, somente com esta diferença de que aqui a
colheita é na época do Natal. O inverno costuma acontecer em junho e julho e é
fraco, de forma que mal consegue congelar a água. Agora escrevo a respeito do
filho Venceslau. Ele faleceu já aqui no lugar. Peço que mandem lembranças ao
tio Dzedzanowski e a Antônio Gapienski, a toda a família e a todos os
conhecidos.
Não tenho
nada mais a escrever, somente envio os mais profundos cumprimentos, desejando a
todos o bem e tudo aquilo que pedis a Deus.
Escrevemos, pedindo que levem tudo o que puderem: roupa de cama, vestidos,
calçados, sementes de toda espécie, principalmente hortaliças, porque o
transporte é gratuito e a manutenção é por conta do governo, até o momento em
que cada um conseguir a própria manutenção. Venham para o Paraná, São Mateus,
onde nós nos encontramos. Fim.
José
Skowronski e esposa.
Escreveu
Alexandre Marciniak.
Antes de
partir, mandem resposta urgente.
Envelope
com o texto danificado:
Na Herrn
Antonio Wozm (—) Ferbwik (Fábrica?), Ostrowa.Prov.Warschau.
No verso,
consta a anotação do censor a lápis “Zadierzat’”.
Segue anexo
um bilhete do censor, dizendo e atestando que Skowwronski convida a família
para o Brasil.
64. Francisco Skurczynski de Rio Negro, Paraná ao irmão
(endereço desconhecido). 31/03/1891. Não existe o
original e o texto foi transcrito pelos assistentes da Universidade Polonesa
Livre e Oculta de Varsóvia.
Cidade
Rio Negro
Último
dia de março de 1891.
Segue, cartinha querida, não sejas em lugar algum retida e
quando chegar ao destino, lembre-se de louvar a Deus. Louvado seja N.S.Jesus
Cristo e Maria. Para sempre, Amém.
Estimadíssimo
e queridíssimo irmão e esposa e você meu Joãozinho, alma minha, queridíssima e
estimada. Mando-vos os mais profundos cumprimentos e saudação. Talvez seja pela
última vez e informo-vos sobre a minha saúde, que estou bem por graça de Deus,
o que também vos desejo de todo o coração e mais aquilo que pedis a Deus.
Agora vou
descrever a minha viagem, o que passei e o que vi diante de mim. Querido irmão,
primeiramente peço-te perdão por não me ter despedido de vocês. Como você já
sabe, antes de partir entregamos carta com despedidas, nas mãos do querido tio
e depois partimos para Bremen. Chegamos a Bremen e ali ficamos durante 7 dias, pagamento 5 marcos e recebemos uma folha de metal,
em que se punha a comida. Mandaram-nos bilhetes para viajar de trem e passagens
para o navio.Depois embarcamos no último dia de
dezembro. Por isso escrevemos a carta de despedida e votos de Feliz Ano Novo.
Ao
chegarmos ao Rio de Janeiro, desembarcamos na ilha e encontramos uma carta de
Czelinski. Alegramo-nos bastante, porque soubemos para onde ele se dirigiu. Nós
também deixamos bilhetes para os nossos conhecidos. Alexandre e João Grzela e
Martim viajaram para Porto Alegre e outros lugares, enquanto Cylinski e Luciano
seguiram para o Paraná, que a província. Nesta ilha ficamos 8 dias, a fim de decidir para onde alguém queria inscrever-se. Nós, com Francisco
Skurczynski e João Cylinski, fomos atrás de Cylinski e Luciano, para o Paraná.
Na quinta estação, encontrei-me com Cylinski e Przybylski. Alegrei-me muito e
juntos ficamos 7 semanas. Agora tivemos que nos
separar porque os casados foram para uma colônia, enquanto os solteiros para
outra. Cylinski foi para Ponta Grossa e eu, Suczynski, e Przybylski, para Rio
Negro. Até a Páscoa permanecemos nesta cidade, no barraco. Recebemos a
alimentação do governo e ganhávamos para as nossas despesas. A seguir fomos
para nossas colônias, percebendo durante seis meses, até que tenhamos a nossa
colheita. Se em outras províncias faz calor, aqui não. Agora é como lá na festa
de São João e estamos logo depois do Ano Novo. Nos meses de maio e junho
teremos inverno e este é fraco, de forma que se um marreco pisar
, ele quebra. O clima é agradável e saudável, embora em outras regiões faça
calor. Crescem todos os cereais, cevada, batata,
centeio. O inverno dura três meses. Informo-vos, pois se falavam na Polônia que
no Brasil não existem igrejas, nem padres, isto é mentira.Eu,
Francisco e Luciano tomamos parte nos festejos, confessamo-nos e recebemos a
Crisma. Aqui esteve não somente o bispo, mas o substituto do Santo Padre e as
cerimônias foram lindas, acompanhadas de excelente
música de instrumentos. Houve foguetes de maneira, que a gente ficava
ensurdecida, dentro da igreja. O coral cantou a velha canção polonesa: “ Boze cos Polske” (Deus que a Polônia guardaste...) “por
tão largos anos cobriste com esplendor de potência e Glória, os miseráveis
privastes de vossa proteção. Diante de teus altares levamos a prece, para que
guardeis a nossa Pátria, Senhor...” sentimo-nos tão alegres, como se
estivéssemos no paraíso. Tudo é verde, alegre, agradável. Queridos pais, se
estiverem dispostos a nos seguir, então preparem-se para partir de casa, se puderem com roupa de cama porque aqui não existe e não
há de que fazer. Tudo é caro, roupa, sapatos, utensílios; dinheiro, quer russo
ou prussiano,
pode ser trocado: os russos são trocados no consulado e os prussianos nas casas
comerciais e valem como se fosse ouro e pode-se ganhar muito dinheiro com os comerciantes.
Se tiverem condições, seria melhor resolver os problemas
em Bremen. Tragam
espingarda de cano duplo, revólver, pois aqui é permitido ter em casa, sem
qualquer imposto e, como sabem, as armas sempre são
necessárias. Aqui são caras porque ainda não existem fábricas como na Europa e
tudo é importado da Prússia, por isto é grande a procura do dinheiro prussiano.
Agora o que
posso comunicar é que eu, Francisco, peço ao querido irmão João Skurczynski que
me mande notícias sobre Joana (?) Makowski, se a devo
esperar ou não. Não tenho mais nada a escrever, somente despeço-me, desejando
saúde, todo bem e o que pedir a Deus Nosso Senhor. Beijamos as vossas mãos,
senhor Przybylski e a ti, querida irmã Wanda, juntamente com Ladislau e toda a
família de casa. Eu, Luciano, abraço igualmente ao tio Korzycki, aos senhores
Koroleski e suas crianças e aos senhores Zaleski. Despedimo-nos de você, João
Skurczynski e esposa, beijamo-vos carinhosamente e pedimos que nos escrevam, informando o que se passa por lá. Se for possível
obter as certidões de nascimento, mandem-nos quanto
antes. Mande-nos resposta, caríssimo tesouro nosso e amor. Esperamos que receberemos aquilo que pedimos. Despedimo-nos cordialmente,
eu Francisco Skurczynki e Luciano Przybylski.
Caríssimos,
informo-vos sobre as propriedades que devemos receber. São 100 morgas de terra,
casa na propriedade, construída pelo governo. Quanto ao imposto, não se paga
nenhum e não se pagará no futuro nada por esta propriedade, somente vai se trabalhar para si.
Nestas terras existe muito mato e erva mate, isto é árvore de chá, que é
semelhante ao vime que cresce por lá e com ela pode se ganhar bastante
dinheiro. A vida é boa. Recebemos comida quatro vezes ao dia. De manhã um pão e
café, a outra refeição consta de arroz e carne, para o almoço feijão e carne à
vontade e para o jantar pão e chá.
Queridíssimos
e amados pais, eu Luciano, peço-vos encarecidamente que consigam as certidões. Se estão expedindo agora, tragam, se tendes intenção de vir,
senão escrevam e mandem as certidões em carta.
Mando os
mais profundos cumprimentos aos Korolewski e peço a mão da senhorita Mariana e
que seja tão bondosa de chegar com seus pais. Se porventura os pais dela não
vierem, então peço que a Senhorita venha com os meus pais. Se não vierem,
respondam e mandem que nós procuraremos resolver o
nosso (—) e tem que nos mandar sem falta. No navio não há perigo algum, porque aqueles que tem medo podem passar o tempo todo sem ver água.
A viagem é confortável e o navio nunca pode virar nem afundar a não ser que se
choque com alguma rocha e quebre e assim mesmo vão dar um jeito e não permitem
que o povo se afogue. O navio percorre
15 milhas
por hora.
Quando atravessávamos o ensolarado Equador, o navio balouçou 3 vezes a ponto que os viajantes caíram
das camas, pois era noite e nós estivemos no mar, no grande oceano, enquanto os
peixes pulavam ao lado do navio, como porcos.
Querido pai
Przybylski, quando estiveres para partir, certamente vai-me trazer uma
espingarda de cano duplo que custa 21. Estou enjoado de escrever por isso
cumprimento-vos e despeço cordialmente, estimadíssimos Przybyski e Skurczynski,
juntamente com os filhos. Beijamos cordialmente vossas mãos e despedimo-nos
pela segunda vez, desejando saúde, sorte que a pedis a Deus Supremo, tanto para
vós como para os nossos amigos, amigas, conhecidos, parentes, compadres e
comadres e ao conhecido Rogalski e Golambiewski, feitor de Wloclawek, e suas
crianças. Enviamos lembranças e cumprimentos. Beijamos e abraçamos
cordialmente, com toda satisfação e de todo o coração vossos filhos e colegas e
conhecidos. Com amor e estima, eu Francisco Skurczylski e Luciano Przybylski, pedimos que nos
escrevam para este endereço.
65. Alexandre Slwaski à família de lugar indeterminado do
município de Encruzilhada, Rio Grande do Sul (endereço desconhecido).
27/12/1890.
Escrevo
esta carta em 27 de dezembro de 1890.
Pronuncio
para vós, queridos pais, as primeiras palavras: Louvado seja N.S.Jesus Cristo.
Inclino-me diante de vós queridos pais, Pai e Mãe, juntamente com vossos
filhos. Agora meus cumprimentos a você, meu irmão e esposa do irmão e vossos
filhos, especialmente Anastácia, que gostava mais. Informo a respeito da saúde
e da situação.
Vou nem
bem, nem mal. Estou com saúde, graças a Deus e desejo-vos tudo aquilo que pedis
a Deus. Agora descrevo-vos a minha viagem que foi
assim:viajamos três dias e três noites, de Szczyt a Berlim e o fizemos de trem.
Custou-nos 12 marcos, menos alguns “centavos”. De
Berlim a Bremen, igualmente fomos de trem e a viagem durou horas. Em Bremen
fomos separados em grupos de poucos e detivemo-nos lá 6 dias, até chegar a Bremerhaven. Na cidade de Bremen ganhamos as passagens, com
as quais viajamos em frente e em Bremen também ganhamos a alimentação do
governo, até Bremerhaven. Viajamos igualmente de trem, durante 2 horas. Nesta
cidade, embarcamos no navio chamado “Stutgart”, este é o nome do navio no qual
viajamos, parando apenas dois dias num lugar. De Szcytno, partimos no dia 27 de
agosto e de Bremerhaven saímos no dia 10 de outubro. Viajamos de navio, através
de água e mar, durante 6 dias até a Espanha, isto é
até a ilha que se chama Lãs Palmas. Aqui paramos um dia, pois o navio fez
carregamento de carvão. Depois que zarpamos, sempre fomos em
direção do sul, até o Brasil, cidade que leva o nome de Rio de Janeiro.
Essa travessia durou 15 dias e 15 noites. Neste lugar existe uma ilha com
entreposto, porque está na divisa entre o Brasil e a Inglaterra (sic) e aqui
devem ficar todos que viajam ao Brasil e ali se fazem as inscrições para onde
alguém deseja ir. Nós nos inscrevemos para Porto Alegre do Sul (Rio Grande do
Sul). Trata-se de uma província semelhante a nossa “gubernia”. Lá chegaram
milhares de povos.
Para
aqueles que desejarem ler minha carta, vou descrever a minha viagem pelo mar.
Tivemos uma travessia difícil e árdua. Não é qualquer um que pode gozar de
saúde no navio, porque balouça bastante como se fosse um berço. Outras vezes o
navio segue em linha reta e outras vira de tal forma
que a gente fica aguardando o instante de nadar na água. Atravessamos vários
tipos de água, salgada de forma que não se pode por na boca. A
água para cozinhar, levam dentro do navio. No que respeita olhar a
terra, somente vimos de início, junto à ilha e depois no litoral, o resto, durante
12 dias, não vimos nada. A alimentação no navio é boa: carne, café, chá, arroz,
batatinha, pão de trigo preto, o repolho e pouco, (...) também à vontade, mas o
café e o chão são amargos. É pena que não se possa comer, porque sofre-se de tonturas de cabeça, o que impede comer.
Todos viajamos para o sul, em direção ao sol. Fazia muito
calor porque atravessamos a trajetória do sol. Passamos a quatrocentas milhas
do centro do sol (?). Desembarcamos em terra firme no dia 31 de outubro e
ficamos na ilha durante quatro dias. Novamente partimos de navio, singrando
durante dois dias e duas noites, quando o navio entrou em dunas e encalhou.
Vários navios passaram ao largo e não podiam desencalhar o nosso. Ficamos
retidos durante 10 dias, até a chegada das chatas, em que embarcamos. Elas
foram engatadas em outro navio, que nos rebocou até Porto Alegre, onde chegamos no dia 16 de novembro. Ali permanecemos e
tivemos intenção de ficar permanentemente, mas não foi possível. Disseram-nos
que há serviço nas fábricas, mas não aqui, porque somente existem algumas, mas
o que significa isto para tanta gente? A cidade é linda, localiza-se sobre um
grande morro as
margens das águas. Há igrejas, só católicas. As cerimônias são lindas mas não se pode entender nada. O povo é todo preto, os
brancos são poucos e há outros que não crêem em Deus e toda manhã (?). Nesta
cidade inscreveram-nos no dia 18 de novembro, mandaram através da água e no dia
1º chegamos a uma ilha e ali ficamos até o dia 3 de dezembro, quando partimos
de trem, viajando algumas milhas. Depois mandaram-nos de carretas, tiradas por quatro parelhas de bois, isto porque não existem
estradas. Há enormes montanhas, canhadas, matas, de forma que é impossível
existir uma estrada. Levaram-nos nestas carretas durante 6 dias e eles possuem tais carroças, porque com outras não conseguiriam passar.
Depois andamos a pé, mais 7 horas, enquanto as crianças foram em bruacas, nos
lombos de cavalos, porque as carretas não podem chegar até lá.
Chegamos ao
destino. Lá construíram barracos, onde moramos provisoriamente, porque ainda
não estamos estabelecidos definitivamente em nossas propriedades. Nesta
situação encontramo-nos desde o dia 11 de dezembro, morando nos barracos e nós, os homens vamos ao trabalho, ao passo que as mulheres
ficam
em casa. A
vida é boa, desde Bremen e assim continua sendo. Quem trabalha, recebe 4,3 marcos e mais a manutenção. O serviço que fazemos é
semelhante ao que entre nós vale 2 “zlotes”. A terra
que receberemos terá uma légua de comprimento e meia légua de largura. Dão
igualmente as construções, mas quem construir por conta própria receberá em
dinheiro e mais
ainda os instrumentos necessários para trabalhar.
Agora vou
descrever o Brasil. Desde o início não vi nada mais do que montanhas,
pirambeiras, matas. Os habitantes são escassos nestas serras.A
riqueza da terra permitiu-nos ver cereais, batatinha, cevada, trigo, milho,
feijão (...), “burbr” (lubina), repolho e tudo que for semeado crescerá. As
colheitas são duas vezes ao ano e a batatinha até três vezes e as espigas são
de
8 polegadas
(?) e mais vigorosas porque aqui o inverno é
fraco. O povo, todavia, semeia muito pouco, mas tem muita criação, segundo
pudemos ver. Aqui e acolá reside um negro, no meio das
montanhas. Ele cria umas quarenta cabeças de gado, umas 20 vacas e cabras e
muito de toda espécie de criação.Possui uns 40
cavalos, geralmente anda a cavalo e não a pé. Este animal nunca sai do campo,
por isso torna-se selvagem como um touro. O país é fracamente povoado e tudo é
deserto, montanha, pirambeira, rios entre montanhas e mata que entre nós não se pode
imaginar. Há árvores no Brasil e nestas montanhas e pirambeiras crescem cactus,
mirta, fina e grossa, “oleander” de forma que nestas os pássaros se aninham. Todas
as árvores são folhosas e não existem com espinhos. São várias espécies, cujos
nomes nós não sabemos. Existem árvores grossas, próprias para construção. O
calor não é exagerado, é igual ao que existe entre nós na época da colheita. O
ar e o clima são bons para nós, porque escolhemos tais regiões, embora existam
outras onde é quente. Aqui a atmosfera é bastante boa. O dia aqui é assim: O
sol levanta às 5 horas e põe-se às 7. O sol nasce aqui
no lugar, onde na Polônia, desaparece, enquanto ao meio dia esconde-se debaixo
dos pés . (—) O
sol fica verticalmente (—). A terra é arável, mas é preciso limpa-la, pois são
desertos, mas tudo cresce, mesmo que seja na maior das montanhas.
Agora vou
noticiar o que não é verdade. Não é verdade que o dinheiro gasto, é devolvido.O governo constrói casa por conta própria. Aqui
servem os cobertores de penas, toda sorte de roupas, como entre nós, e também
os calçados. Os maiores pacotes podem ser trazidos, desde que se consiga
transpor a fronteira, pois podem ser levados, uma vez que custam muito caro, de
forma que na Prússia pode se comprar duas pelo valor que lá custa uma. Quanto
ao dinheiro enganam muito na Prússia. Se alguém tem intenção, bem como os conhecidos de vir,
que se mantenha no lugar, aguardando a minha segunda carta, porque ainda não me
encontro no lugar definitivo, e não sei como será.
Peço-te,
meu irmão, depois de receber a minha carta, responda o mais depressa possível e
eu escreverei e explicarei melhor. Comunique-me, porque aqui se fala que
mataram o César russo, bem como o seu sucessor. Peço-te que me informe sobre
tudo o que está acontecendo. Agora informo que no navio morreram muitas
crianças, morreram 30 no navio e agora continuam perecendo. Faleceu a filha dos
Tomkowski, Estanislava e outras seis estão doentes. Talvez Deus ajudará e elas superarão a doença.
Enviamos
lembranças a Alexandre Slawski e Kucinski, queridos pais —
pai e mãe — irmãos, cunhada e vossos filhos. Mandamos cumprimentos às
famílias Hulewycz, Mokalaewski, Solowecki, Kucenski e aos solteiros
João Dobrowski, Gabriel Mokalanski, Worcel, Soliwocki e igualmente à
senhorita Rosália Dobrowski, Leocádia Mikolaski, a toda a família e a todos os
conhecidos. Peço-vos, colegas, escrevam-me informando como vão as coisas por lá
agora, enviando para o endereço que será escrito, porque isso me interessa
muito e demonstrará a vossa gentileza. Eu teria muita coisa a escrever, mas
talvez a carta não chegue, mas se chegar podereis escrever um pouco para o endereço que aqui está escrito.
Agora não
tenho nada mais a escrever, somente apresento meus cumprimentos e peço simpatia
de vossa parte. Desejo-vos todo bem, sorte, saúde e tudo o que pedis a Deus eu
vos desejo. Amém.
Endereço:
Europa (erro no original — autor), Brasil, Estado do Rio
Grande do Sul, Porto Alegre, Município de Encruzilhada, Colônia Francisco
Glicério, Herr Alexander Slawski. Se estiverem para responder, anotem este
endereço que aqui está escrito e cuidem para que seja exato como aqui está.
Quem tiver curiosidade, estas são as “cifras” brasileiras: 1
– um; 2 – dois ; 3 – três; 4 – quatro; 5 – cinco; 6 –
seis; 7 – sete; 8 – oito ; 9 – nove; 10 – dez, etc. 30 – trenta (sic); 40 –
quorenta (sic). O dinheiro é contado: mil reis, marcos, vintém, reis.
66. José, Josefa e Estanislau Sobiesiak de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul aos pais. Zyrardów, 3/04/1891
Veja local desta carta: Zirardów
Colônia
Alfredo Chaves.
Brasil,
dia 3 de abril de 1891.
Queridos
pais, informo-vos que estamos, os dois, com saúde,
graças a Deus Supremo. O filho também está, o que vos
desejamos de todo o coração. Mandei-lhes uma carta no dia 1º de março e aguardo resposta com
grande ansiedade. Pelo fato de que a distância é muito grande, não pode chegar depressa.O Brasil fica
2.740 milhas
distante
e só pelas águas a viagem é de 18 dias, através do Grande Oceano. Viajamos
ainda no Brasil, 5 dias, igualmente através de águas.
Estamos muito aborrecidos porque não nos podemos entender com os padres e com
outras pessoas. Já entendo mais ou menos e posso falar, mas não com todas as
pessoas. Compreendo, porque
aqui no Brasil escrevem tudo com letras polonesas.
Estão
construindo uma igreja em nossa brigada (sic). Virá um padre polonês, que nos
entenderá. Agora, a igreja que fica na cidade, dista quatro milhas. Lá existe
uma igreja polonesa.
Em
Porto Alegre
existem 14 (sic) igrejas polonesas e duas
alemãs. A maior parte dos padres pertence aos Jesuítas. A nossa colônia é
composta de 200 colonos, todos da Polônia. O nosso município compõe-se de 29
brigadas, todas polonesas. São cinco famílias, oriundas de Zuyrardów: Bzozoski;
Antônio Czerwinski, Jacó Fufal, Feler e eu.
Aqui
crescem árvores de várias espécies, mas nós não as conhecemos. Somente
conhecemos “mahon”, os carvalhos, que são iguais aos da Polônia, embora na
parte baixa não possuem nós, pois estes ficam no topo
(provavelmente refere-se à araucária – tradutor). Não as serramos, mas rachamos
como cunhas de ferro, fazendo tábuas e tabuinhas, por que lascam-se fácil, como baralhos. Não crescem juntos, mas distam um do outro umas 30 ou 40
braças, enquanto entre eles vegetam arbustos e pequenas árvores. Sua altura
atinge entre 28 e 35 braças, enquanto a largura pode ser de 2, 4, 6 ou 8 braças. São ótimas para construção.
Quanto aos
animais selvagens, existem tigres, porco do mato, macacos em quantidade, vacas
selvagens, veados, cobras e ainda muitos outros animais.Não
se encontram lobos. Os pássaros são de muitas variedades, bonitos e grandes
como perus, mas não cantam nada. Os insetos são muitos. Existem tais que ao
voar à noite iluminam como se fosse luz elétrica. Estes são muito bonitos. Os
animais domésticos constam de cavalos, burros, vacas. Um bom cavalo pode ser
adquirido por 25 ou 30 mil reis, uma vaca boa pode ser comprada por 30 ou 40
mil reis. As vacas aqui são enormes. Há ainda porcos, cabritos, carneiros,
cachorros, gatos, marrecos, perus, gansos, galinhas, galinhas de angola,
pombos, coelhos, tudo igual ao da Polônia.
Cada um
possui seu lote de terra, com
1.100 metros
de comprimento e 275 de largura. A
minha casa já está construída, fiz sozinho, com mais dois ajudantes e
trabalhamos durante 16 dias. Recebi do governo 80 mil reis, recebi igualmente
32 libras
de pregos, 4 pares de dobradiças, uma fechadura, pois o governo dá tudo
isso. Isso tudo deverá ser pago no montante de 200 mil reis, durante 12 anos,
mas se alguém não puder pagar nesse espaço de tempo, poderá pagar até a morte,
porque ninguém o explusará da Colônia. Já cortei duas “morgas” de mato, mas não
semeei nada, porque já é tarde. Agora aqui se aproxima o inverno que vai
começar em maio, junho e julho. A geada mais forte atinge 3 graus. Aqui não
neva. As chuvas e trovoadas são freqüentes. As trovoadas são fortes e dão a
impressão de que sempre estão perto, de modo que,
mesmo que caísse um raio, não se saberia. O calor não é forte, a temperatura mais
alta atinge 20 graus. O clima é mais ou menos saudável. O povo é pardo, mas com
muita saúde e são muito bons para nós. A diferença em horas é de 7, pois no Brasil é meio dia, na Polônia são 7 horas. Nós
estamos mais longe, atrás do sol (sic) do que vocês, em frente do sol. Aqui os
dias santificados são guardados da mesma forma que na Polônia, mas não o fazem
da mesma forma que nós. A Páscoa é muito curiosa, não temos ovo
bento, nem doces como na Polônia. Quando conseguirmos alguma fortuna,
faremos do mesmo modo como na Polônia, mas agora é muito difícil. Comprei uma
cabrita, pagando 10 mil reis, bem como os talheres iguais aos usados na Polônia, somente aqui
eles são bem mais caros. O restante fiz eu mesmo:
cama, banquinhos, armários, mesa. As casas tem o mesmo
modelo que na Polônia, mas sem chaminés e sem janelas. Cozinhamos no pátio.Não existem panelas pequenas, como lá, mas somente panelões. Vestimo-nos da mesma
forma como na Polônia, somente não se usa paletó porque faz muito calor.
Durante o
dia faz calor, a noite é fresco e cai bastante orvalho. Aqui o sol se põe às 7 e nasce às 6 horas e é igual o ano inteiro. A gente
vive aqui tanto tempo, quanto na Polônia.
A plantação
é feita de forma diferente do que lá. Aqui se planta no meio de tocos, porque
não se ara, nem vira a terra. Queima-se o mato, deposita-se a semente entre
tocos e troncos e tudo cresce muito bem. O centeio
cresce muito maior do que na Polônia. O centeio e o trigo são plantados uma vez
ao ano, a batatinha tão logo é colhida, pode ser plantada novamente. A cenoura,
a beterraba, salsinhas, ervilhas, a cebola, o milho, a cevada, o sorgo, o
linho, a “tatarca”, a aveia, a viça, tudo isto cresce como na Polônia. Pode-se
semear duas vezes ao ano e não é necessário estrumar, nem arar, porque toda a terra
é como argila e fofa.
Quanto ao
custo de vida, o quilo de batata custa 200 réis, farinha de trigo 200 réis,
centeio 150 réis, milho 100 réis, uma dúzia de ovos 200 réis, o quilo de arroz
300 réis, o quilo de açúcar 500 réis, este não é como na Polônia, mas em pó,
o quilo do café, um mil réis, o quilo de manteiga 1 mil réis, o quilo de carne
200 réis, carne de porco 300 réis, toucinho 500 réis, o quilo de fumo, 1.200
réis, ervilha (feijão) 120 réis, um quilo de sal 180 réis, uma galinha 400
réis. Um quilo equivale a duas libras, um mil-réis é igual a dois
marcos russos. Um mil réis, possue mil réis. Nós contamos 100 réis, 12
centavos, por isso o marco possue 2 “zlotes”.
Eu ganho um
mil-réis e duzentos réis por dia quando vou trabalhar na construção da estrada.
Numa semana ganho 7.200 (sete mil e duzentos réis). Os calçados aqui são mais
caros do que entre nós, mas o produto é melhor. Quanto às mercadorias, é a
mesma coisa que na Polônia, somente os marceneiros são mais caros. Não existem
fábricas e se o governo traz imigrantes não é para as fábricas
, mas é para a terra. As sementes também recebe-se do governo: batatinha, feijão de bagas, centeio, trigo, milho.
Não tenho
mais nada a escrever. Na minha terceira carta vou escrever, quando estiver em
melhor situação.
Querida
Teófila, meus mais profundos respeitos a vocês três. Peço resposta, dizendo
como vão por lá. Teófila, peço-te que mande
informações onde anda Alexandre. Queríamos encontra-nos com ele, porque não
sabemos para onde ele foi. Estamos aborrecidos sem a família, em regiões tão
diferentes. Mandamos lembranças a toda a família: ao
avô, à avó, à mãe, à tia e ao tio. Mandamos lembranças ao Zienkiewicz e seus
filhos, a ti Romão, aos Puszynski, Szulc, Koproski, Biernatowicz, Niepostyn e
sua mãe, aos Kauecki, Kobierski, o abraço do afilhado e a todos os conhecidos.
Agora peço
que mandem notícias, o que acontece
em Zyrardów.
Escrevam-nos
com urgência, pois esperamos ansiosos e
ficaremos alegres. Entreguem esta carta a todos para lerem e aguardo resposta.
Cordialmente vosso amoroso José e Josefa Sobiesiak. Fiquem com saúde.
Peço que
mandem resposta quanto antes.
Brasil,
Porto Alegre, Colônia Alfredo Chaves. Picada. O endereço pode ser em polonês.
67. José Sobiesiak, de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul (endereço
desconhecido). Zyrardów. Falta data.
Veja local desta carta: Zirardów
Querida Teófila, peço-te cordialmente, seja tão bondosa e
mande-me alguns livros de canções e para leitura, porque aqui não existem em
língua polonesa, mas só em português e eu não possuo nenhum e quando chega um
dia santificado, não tenho nada para ler e fico muito aborrecido.
Pode enviar
pelo correio. Quando estiver em melhor situação, vou-te retribuir este favor.
Não me esquecerei de ti e mandarei minhas fotografias. Você mesmo pode escrever
uma carta para nós e ficaremos muito satisfeitos. Podes endereçar
em polonês. Escreva-me
tudo sobre Valéria, se ela te obedece e sobre Flora, sobre os Tuszynski, sobre
todos e sobre o Szulc. Peço-te encarecidamente, responda com urgência. Escrevo
no primeiro dia da Páscoa e tenho dias santos muito tristes.
Sinceramente
com amor
José
Sobiesiak
68. Antônio Stolarski, de Caxias do Sul aos pais (endereço desconhecido).
Escreveu João Wietrzykowski. 25/01/1891.
Queridos
pai e mãe. Envio-vos os meus respeitos filiais e comunico sobre a minha saúde e
situação. A nossa saúde não é das piores, mas o pequeno Francisco, certamente
não viverá. A criança pequena nasceu no navio e hoje tem treze semanas.
Ainda não
estamos em nosso lugar definitivo, embora estejamos perto.
Inscrevemo-nos para São Marcos. Agora vou descrever ligeiramente a viagem e a
situação em que nos encontramos.
A viagem de
início foi bastante perigosa. O navio balouçava demais, durante três dias, a
ponto de fazer rolar os cofres e o povo dizia que chegou o fim do mundo. Depois
destes três dias, a viagem não era das piores. Viajamos neste navio, ao todo,
28 dias. Chegamos ao entreposto brasileiro e descansamos 16 dias. Ali nos
inscrevemos para Porto Alegre, onde repousamos 8 dias.
A viagem para Porto Alegre foi com outro navio e durou 8 dias.
Em Porto Alegre
alistamo-nos para Caxias, onde atualmente estamos. Até o presente, a nossa vida
é bastante boa. Vivemos de carne, pão, farinha de trigo e arroz. O cuidado que
nos dispensam é muito bom (—) temos bom. Os padres poloneses intercedem por
nós. Consertam todo o mal porque há bastante padres e
igrejas. Há mais igrejas do que na Polônia, somente que não podemos entender,
mas em breve teremos padres poloneses. Tudo é bastante bom, somente as montanhas
são enormes. São tais que desde que Deus criou o mundo lá não pisou o pé
humano. Nos morros a terra é melhor, porque um “korzec” de milho produz até
sessenta espigas (?). Tudo o que for semeado, produz em abundância.Aqui
tudo é caro, porque essa gente produz pouco, semeiam pouco e possuem muito
dinheiro.Criam muitos cavalos, burros, porcos, porque alimentam-se no campo uma
vez que não existe inverno. Entre nós, ninguém se preocupa com nada para o
inverno, porque tudo é fresco. Mal colhem uma coisa e outra já está nascendo e
a terceira florescendo. Nós ganhamos 110 morgas de terra e a medida é das
grandes, bem como todas as sementes, enxadas para a limpeza, facão para usar
sempre consigo e utensílios domésticos. Ainda destinaram-nos uma vaca e um burro,
mas isto não estamos recebendo por ora. O governo nos
sustenta até conseguirmos a própria subsistência, isto é, durante 6 meses e isto não é retribuído com trabalho. Numa palavra,
recebemos tudo de graça. Os impostos só pagaremos daqui a alguns anos e são muito pequenos. Dizia-nos um brasileiro que mora
vinte anos e somente pagou 2 rublos. Quem construir
uma casa em sua propriedade receberá do governo 150 rublos e ainda, se tomar
parte na construção de estradas, recebe pagamento.
Quanto ao
clima, é mais ou menos saudável e fresco, mas isto não acontece em todo lugar.
Nós viajamos através de lugares quentes onde mal se podia agüentar.
Informaram-nos onde seria melhor e com a ajuda de Deus achamos um bom lugar.
Tudo o que escrevi é verdade. Quem tiver vontade e desejo pode vir, segundo a
orientação da minha carta.
Queridos
pais, enviai esta carta para os pais da esposa em Kempy e a todos os
conhecidos. Advirto-te, Adão Guntowski, para que case e venha para junto de
mim. Não tenha medo de nada, basta ter dinheiro para a viagem —20 rublos até
Bremen. No final de minha carta mando lembranças à família e aos conhecidos.
Antônio Stolarski
Escreveu
João Wytrzykowski
Província Rio Grande do Sul
Correio de Caxias nº 1
Hernon Antônio Stolarski
Brasil.
Este é o meu endereço. Respondam-me no mesmo dia que
receberem, porque esta é uma carta registrada e aqui é muito severo. Eu pagarei
18 rublos.-
69. Constantino Strzelarski de Santo Antônio da Patrulha,
Rio Grande do Sul ao irmão Max (endereço desconhecido) 23/02/1891.
Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Amadíssimo
irmão.
Nas
primeiras palavras da minha carta, comunico-te que, por graça de Deus Supremo
permaneço com vida e gozo de boa saúde o que também desejo a você a toda família de todo
o coração, Max. Minha esposa Constância já faleceu. Morreu na cidade de Porto
Alegre. Igualmente as duas crianças, Catarina e Adão, foram para o túmulo atrás
dela. Estou com a mãe da esposa e com José. Até o presente, estamos com saúde.Informo-te que ainda nos achamos em viagem e só depois da Páscoa é que cada um estará em
sua colônia.
Agora vou
descrever a viagem. Desde a divisa prussiana até a cidade de Bremen, levamos 40
horas de viagem. Atravessamos as cidades de Torun, Bydgoszcz e Berlim. Em
Bremen, detivemo-nos 10 dias de graça num hotel e dali partimos em trem
prussiano para Bremerhaven. Aqui embarcamos em navio passageiro e atravessamos
o Mar do Norte alemão em 24 horas. Desembarcamos na cidade Belga, Antuérpia, e
aqui adentramos o Oceano. Viajamos durante 18 dias e desembarcamos com o pé
enxuto numa ilha, próxima a Capital do Brasil, Rio de Janeiro. A partir dali
recebemos comida pronta, por conta do governo. Nesta ilha ficamos 4 semanas e novamente embarcamos em navio brasileiro, a
vapor, denominado “Estrela”. Viajamos durante sete dias até Porto Alegre e ao
mesmo tempo passamos pelo grande rio da América do Sul, o Amazonas (sic). Nesta
cidade detivemo-nos 4 semanas. Aqui sepultei a esposa
e os dois filhos. Alojaram-nos em enormes carroções de duas rodas e cada
carreta era tocada por 12 parelhas de bois. Viajamos 5 dias e chegamos às serras da parte do sul do Brasil. Aqui nos encontramos,
porque os geômetras, isto é, os
agrimensores, estão demarcando as terras para cada um de nós. Mantêm-nos aqui,
para que nos aclimatemos e acostumemos com o ar. Aqui, na assim chamada Velha Colônia de Santo Antônio, recebemos dinheiro para a
manutenção e moramos em grandes barracos, construídos especialmente para nós.
Com isto, saimo-nos muito bem. Cozinhamos o que queremos: sopas,
batatas, ervilhas de campo, feijão, carne, café e chá, fazemos broa de
farinha de trigo, pastéis fritos
em banha. Ganhamos
500 réis diários, por pessoa, o
que significa que a família que possuir mais filhos é melhor. Além disso, 15
mil-réis para aquisição de utensílios de cozinha e ferramentas para cortar o
mato e para a lavoura, nos primeiros momentos. Com 25 mil réis, compramos:
machados, cortadeiras, enxadas, facões e outros. Para isto, cada família
recebeu 50 mil réis. Esperamos receber 120 “morgas” de terra, com mato denso de
tal forma, que não se pode introduzir a mão.
As cobras
não nos são estranhas e quando se encontra assemelha-se a um tirante de couro
estirado. Não se vêem outros animais, porque ainda nos encontramos em estradas
carroçáveis, pisadas por gente que mora aqui. A fé que aqui se pratica é a
católica e a língua é portuguesa.O povo aqui é muito
bom, agradável e cordato. Os pretos são gentis igualmente. O Governo aqui é
muito bom e mantém a ordem. Se alguém é ruim na Polônia, que não venha para cá,
porque também vai-se dar mal. Deve-se compreender que
sem castigo não haveria fim para a maldade e aqui também sabem por na prisão
aqueles que não querem obedecer.
Agora descrevo-te o que é 1.000 réis. Um mil-réis vale a mesma
coisa que 4 “zlotes” e seis níqueis, ou seja 63
“kopiicas”. Informo-te que cada filho maior de 18 anos, casado ou solteiro,
ganha a mesma quantidade de terreno, quanto os demais. Se quiser, venha, se tiver permissão levarão gratuitamente. Por
dinheiro, poderá viajar só quem for magnata.
Aqui a
vestimenta é a mais cara. Um quilo de açúcar, aqui nas montanhas, custa 400
réis; um quilo de carne 260; um quilo de batata 140; um quilo de farinha de
trigo, bonita, 340; um quilo de feijão 260; um quilo de toucinho 700; uma
abóbora grande 100, cujo peso atinge
25 libras
e o seu tamanho é como de um balde grande.
Não posso
escrever mais, pois não tenho tempo. Desejo-te saúde, bem como a tua esposa e a
teus filhos, desejo-te de toda alma e de todo o coração e almejo tudo aquilo
que pedis a Deus Supremo, tanto para a família como para todos os conhecidos.
Peço-te,
irmãozinho Máximo, responda-me quanto antes e peço-te de todo o coração que não
esqueças e escrevas o que se passa entre nós.
O meu
endereço, para onde deves escrever é este: Brasil, América do Sul, para a
cidade de Porto Alegre, Província Santo Antônio, para Constante Strzekalski ( o melhor é escrever o endereço em alemão). Se me
responderes logo, mandarei outra carta.
Beija-te,
teu irmão
Constante
Strzekalski
Fiquem
com Deus!
70. João Strzelec do Brasil para Mariana Seklicka, (endereço
desconhecido). 15/12/1890. Não existe o original. O presente é transcrição
reconstituída durante a ocupação pelos alunos da Universidade Polonesa Livre e Oculta de Varsóvia. 15/XII/1890.
Em minha
última agonia, falo a você, querida esposa. Louvado seja Nosso Senhor Jesus
Cristo. Queridíssima esposa minha, estimadíssimos filhos e amadíssima mãe, a todos vocês mando o adeus em última agonia da minha
vida. Despeço-me da esposa, das crianças, da mãe e de toda a família, por meio
deste papel branco, porque não vos verei, a não ser no Juízo Final de Deus. Já
me despedi deste mundo e de vocês todos. Desejava rever-vos antes da minha
morte, mas não pude alcançar. A minha doença consistiu no seguinte: adoeceu o
dedo da mão direita e toda a mão ficou inchada de forma que não tinha condições
de me virar, mas viravam-me de um lado para outro e eu não podia suportar essa
doença. Deus levou-me deste mundo. Fiquei doente durante três domingos e neste
tempo visitei Antônio Strzelec. Ele me tocou de sua casa, porque ele me tocou
de sua residência, argumentando que fedia, em sua
casa, somente estranhos me levaram sob seu cuidado e cuidaram de mim durante
sua doença, até a morte. Falou-me, quando ainda em vida, antes de sua hora
derradeira que se despedia de sua mulher, filhos e mãe e toda a família e
falava de que se encontraria com eles no último Juízo Divino, quando todos se
apresentarão na
mesma hora. Agora não tenho mais nada a escrever sobre ele, somente mando
minhas cordiais lembranças.
João
Strzelecki
João Strzelecki escreveu esta carta para vós. Se quizerem
escrever para mim, este é o meu endereço. Além disso peço-vos, Mariano Seklicki, tão logo receber esta carta, responda-me, então
saberei se receberam a minha carta.
Queridíssima
Marian Seklicki, vosso marido morreu no dia 19 (há erro, deve ser no dia 9 —
autor) de dezembro, depois do almoço, às três horas e foi enterrado na
quinta-feira, às 10 horas da manhã. Foi sepultado em cemitério polonês. Durante
a doença recebeu a visita do médico três vezes e uma vez do padre. Teve boa
assistência, não há de que se queixar, somente mandem rezar uma Santa Missa e recomendações. Agora não tenho mais nada a escrever,
somente envio meus respeitos, em nome do falecido, e peço a mais rápida
resposta.
J.S
(João
Strzelec)
Observação do tradutor: Esta carta foi escrita para a esposa
de um imigrante falecido, cujo nome não é mencionado. João Strzelec, o autor da
carta, usa uma forma estranha. Inicialmente ele se coloca no lugar do falecido
e transmite os sentimentos que animavam o extinto nos últimos instantes.
Posteriormente ele se confunde com a esposa do falecido e usa a forma
narrativa.
71. Mariana e Teófilo Suchowski de Porto Alegre à mãe
(endereço desconhecido). 25/04/1891.
Ano
de 1891, mês 4º, 25 de abril
Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
Eu, Mariana Sychocki. Minha querida
mãe eu vos saúdo, juntamente com o marido Teófilo Sychocki, ambos saudamos e
mandamos lembranças aos irmãos queridos e irmãs e nós vos desejamos que Deus
vos dê tudo o que desejais. Agora informamo-vos sobre a nossa situação.Ganhamos 130
morgas de terra com mato, isto com árvores que na Polônia não existem. Querida
mãe, recebemos mais 50 mil-réis para ferramentas, 100 mil-réis para construção
de casa própria, que já está pronta. Cada mil réis,
corresponde a um rublo russo e ainda nos pagam para a manutenção, pelo
espaço de meio ano. No primeiro ano teremos muito trabalho, mas se Deus nos
ajudar, com saúde e vida por mais tempo, então por sua graça esperamos que ficaremos melhor do que um senhorio, em sua propriedade
Agora,
querida mãe, comunico-vos a respeito do pai do meu marido e sua senhora e dos
dois irmãos e uma irmã que são muito bons para mim. Mande notícias, querida mãe
sobre a situação, quais são agora os ganhos nas fábricas, porque se não houve melhoria
no trabalho que a mãe me comunique, porque eu trarei a mãe e a família para
junto de mim.
Eu Teófilo
Sychocki, genro da mãe, paguei 20 mil-réis para o casamento no cartório, o que
significa 20 rublos e ao padre 14 mil réis. Já temos cavalos e porca enxertada,
duas cabritas e quinze galinhas. Graças a Deus ambos estamos com saúde. Estas
são as notícias sobre as terras brasileiras: Durante os meses de abril, maio e
junho é inverno, como na Polônia durante a colheita da batata. Não tenho nada
mais a escrever. Agradeço a estremosíssima mãe pela criação da filha, porque
estou satisfeito com ela.
Teófilo
Sychocki, escreveu e isto era de noite (—).
Teófilo Sychocki, Estado do Rio Grande do Sul, Porto Alegre,
por Caxias, Brasil.
72. Estanislau Ratas de Alfredo Chaves, Rio Grande do Sul
aos pais, (endereço desconhecido). 23/03/1891.
Alfredo
Chaves, 23 de março de 1891.
Queridos
pais!
Primeiramente,
cumprimento-vos segundo o nosso tradicional costume polonês: Louvado seja Nosso
Senhor Jesus Cristo. Para sempre. Agora vou descrever a minha viagem. Graças a
Deus foi feliz, todos estivemos com saúde, paramos duas semanas em Bremen,
viajamos pelo mar, durante 18 dias, até Rio de Janeiro. Do Rio de Janeiro para a nossa cidade,
Porto Alegre, levamos 8 dias de viagem. De lá para a cidade St. (—), de barco a
vapor e pequeno, que levou 12 horas. Aqui findou a nossa viagem por água. Desta
cidade até a de Dona Izabel, viajamos
em carroções. A
estrada segue por serras e pedras, mas Deus nos ajudou. Ali detivemo-nos quatro
dias. A partir dali viajamos em lombos de burros e cavalos, tanto os homens
quanto as mulheres. Foi uma bela viagem até Alfredo Chaves, onde descansamos um
dia. Depois levaram-nos para as colônias, isto é,
levaram a cada um para a sua propriedade. Cada família recebeu uma colônia de 5 “wlocas” de terra
com mato. A terra é boa e fértil. A comida durante a viagem foi boa e farta e
nas colônias ninguém experimentou fome. O governo ajuda-nos
em tudo. Deu
a cada uma a colônia, todas as
ferramentas indispensáveis para o trabalho e ajuda para a construção da casa
própria. Quem construir por conta própria recebe 75 mil réis, o que equivale a
85 rublos, em dinheiro russo.
Numa
palavra, no Brasil, é melhor do que na Polônia. Se Deus me der saúde, como até
agora, não me arrependerei. Agora comunico-vos as
minhas tristezas. Primeiramente, em dezembro faleceu o pequeno Wenceslau,
depois adoeceu meu cunhado Simeão, ficando de cama 7 semanas e no dia 26 de fevereiro, Deus o levou deste mundo. Minha irmã é viúva
e ficaram duas crianças. Estanislava está com muito boa saúde e a segunda
recebeu no dia 15 o nome de José.Estamos bastante
tristes, mas o que se há de fazer? Deus faz como lhe apraz. Deus nos
entristeceu, mas ele há de nos consolar, seja feita a sua vontade.
Desta
feita, não tenho nada mais a escrever. Ainda não plantamos nada. Em maio vamos
semear trigo e depois em seguida plantar todas as coisas: feijão, milho,
batatinha, aqui crescem duas vezes ao ano. Tudo o que se planta cresce bem.
Mandamo-vos
lembranças, queridos pais, irmãos, irmãs, parentes e
conhecidos. Desejamos saúde e sucesso e todo o bem. Permanecemos vossos,
amando-vos como filhos, até a morte.
Estanislau
Tartuss e Mariana Wieczorek e
Antonina
Tartuss.
Pedimos
resposta urgente. O nosso endereço é o seguinte:
Ao colono
Estanislau Tartass/Colônia Alfredo Chaves, 7ª secção, Lote nº 5 /
Porto Alegre/ Estado
do Rio Grande do Sul / Brasil.
Ao lado a
seguinte anotação:
Não tivemos
padre até agora. No presente já temos, compreende polonês. A igreja foi
edificada pelo governo. Mandem-nos no envelope uma
canção polonesa, como aquela, como o bom Jesus entrava no céu ou (—) e sobre o
barriqueiro.
73. João Wietrzykowski de Caxias do Sul aos pais, (endereço desconhecido). Falta a data
Queridos
pais. Uma coisa me corrói. Faleceram os meus filhos. Marta morreu no primeiro
entreposto, faleceu de sarampo. Boleslau e Olga morreram em Caxias, atingidos por uma
espécie de varíola. Os dois foram sepultados no mesmo túmulo. Isto me aborrece
bastante. Também morreram muitas crianças dos meus conhecidos. Os médicos não
ajudaram a ninguém. As crianças maiores não morreram, só as pequenas.
No final da
minha carta, despeço-me de vós queridos pais, irmãos, irmãs e bons colegas. Que
Deus vos ajude por ver, não nos veremos:
Este é o
meu endereço:
Provinz Rio Grande do Sul, Porto
Alegre / — Correio Caxias/Nº.
/ Herrn João Wietrzykowski, Brasil/.
Só escrevam com clareza. Vocês
precisam mandar a resposta necessariamente porque do contrário eu pagaria uma
multa de 18 rublos, isto porque a resposta tem de voltar em seis semanas.
Até
logo!
Wietrzykowski
Helena juntamente conosco e seu
marido/ estão bem de saúde / e todos os conhecidos.
74. João Wietrzykowski, de Caxias, Rio Grande do Sul à família, (endereço desconhecido). 26/01/1891.
Caxias,
26 de janeiro de 1891.
Queridos
pais, irmãos, irmãs, mando-vos uma cordial saudação, filial e fraternal e
comunico que estou escrevendo a segunda carta do Brasil. Estou curioso em saber
se recebestes. Nesta carta vou escrever tudo sobre a situação e toda a viagem,
desde que embarcamos no navio no dia 29 de outubro. Os primeiros dias de nossa
viagem foram muito difíceis, porque o navio balouçava bastante nos três
primeiros dias, de forma que as pessoas caíam das camas. Cada um dormia quase
sem alma. Depois nos acostumamos e o resto da viagem foi razoável. Navegamos 28 dias e chegamos à cidade
brasileira, um entreposto, chamada Rio de Janeiro. Lá descansamos 16 dias. No
entreposto inscrevemo-nos para Porto Alegre, para onde nos dirigimos em outro
navio, navegando 8 dias e descansamos outros oito
dias.
Em Porto Alegre
inscrevemo-nos para Caxias, onde até o presente nos encontramos, porque ainda
não estamos em lugar definitivo, mas já estamos perto do destino. Viajamos até
agora através de rios e em carroções e muares. Tudo estaria bem, mas não me
agradaram as serras. Há montanhas tais que as nuvens se partem contra elas e
nos morros a terra é turfística (preta, estéril) e nas canhadas argilosa. Eu me
inscrevi para uma colônia e ganhei 110 morgas de terra, de medida grande e
recebi todas as sementes necessárias e ajuda, bem como
enxadas para a limpeza (—), machados, utensílios de cozinha e facão para defesa
contra animais. Se construir a casa, receberei 150 rublos do governo. Pela
abertura da picada em próprio terreno, também se recebe pagamento, segundo
consta 2 rublos por dia de trabalho. Os impostos são
pequenos. Dizia-nos um brasileiro, que reside em sua terra há vinte anos, que
pagou dois rublos. Ganha-se manutenção durante seis
meses, até que se colha a própria cultura. Hoje para sustentar duas pessoas,
temos 6 rublos para 10 dias e com isto pode-se viver
muito bem. Quando trouxeram os italianos, cada família custou dois rublos.
Deram-les cavalos, vacas e toda espécie de ajuda. Para nós cortaram, não dão
cavalos, nem vacas. Sabem que isto é feito sem nenhuma retribuição, porque a
gente não teria condições de pagar durante toda a vida. Os serviços são bem
pagos, dois rublos diários. Há mais igrejas do que na Polônia e igualmente o
número de padres é maior. A população é uma mescla de gente de todo o mundo e
somente católicos, mas não nos podemos entender, a não ser por sinais. O povo é
rico e misericordioso, trabalham pouco, mas criam bastante burros, cavalos,
gado, porcos, porque isto não dá trabalho. Alimentam-se no pasto, tanto no inverno,
quanto no verão, porque aqui, por graça de Deus, não existe inverno.
Nós
acertamos, pois escolhemos regiões frescas e saudáveis. Não há muito calor.
Sempre seguimos rumo Oeste e Sul, de forma que passamos debaixo do sol (sic) e
nesta travessia não pudemos suportar o calor. Espero que poderemos viver melhor do que na Polônia, porque um “korzec”, de milho produz até 60
espigas. A batatinha é cara, porque um “korzec” custa 19 rublos. A carne é a
mais barata, uma libra custa 18 centavos. Nós vivemos de carne, arroz, farinha
de trigo e broa. Pode-se plantar quando se quiser,
pois enquanto se colhe um lote, outro está florescendo e o terceiro nascendo.
Numa palavra, vai bem, o comércio é excelente. Quem tiver algumas centenas de
rublos pode enriquecer, pois aqui não exigem patentes. Comuniquem isto ao
Orelów, mas digam-lhe que a viagem é penosa, pois nós já estamos viajando mais
de três meses e ainda não chegamos ao destino. Por aí se conclui que a viagem é
difícil. Quem chegar depois de nós, não levará tanto tempo, porque nós
vadiamos, perguntamos onde seria melhor e duvidamos para onde se dirigir e
acertar boas regiões e vocês poderão vir diretamente
sem paradas, seguindo os nossos passos. Ainda temos um dia pela frente, uma
viagem em muares em direção das serras de São Marcos, porque assim é chamada a
aldeia e a cidade, todos com nome de santos, como na Polônia. Lá será a nossa
residência permanente. Não existem em absoluto cata-ventos, mas moinhos. As
casas são todas de madeira. “Passas” e pimenta não vi nas árvores, não vi igualmente animais, coelhos e veados. Vi um pequeno
crocodilo e quando enxerga a gente refugia-se
em tocas. Há
macacos, gatos do mato e papagaios. Esse país é bastante triste, mas rico
porque há muito dinheiro, prata e pouco ouro, mas dinheiro de papel. Quem vier
para o Brasil com dinheiro que o troque na Prússia por ouro e traga para o
Brasil, porque terá muito lucro com isto. Em Bremen não devem pagar pela
alimentação, não fale que tem dinheiro, porque irá pagar desnecessariamente, uma
vez que eles são obrigados a fornecer a manutenção gratuitamente. No navio
deve-se escolher um lugar no centro e em baixo, porque lá balouça menos.
Durante a viagem deve-se ter cuidado de não comer laranjas, porque isto traz a
primeira doença. Cuidado para não brigar com alguém, porque o castigo é pesado.
Em caso de roubo é diferente, chamam-nos de mudos, mas depois de três anos a
lei é dente por dente, cabeça por cabeça, porque se o castigo fosse imediato
haveria muitas mortes, uma vez que no início vieram muitos ladrões, razão
porque é igualmente ruim para nós. Talvez vocês pensam que vou ganhar 110 morgas de terra arável; não, pois vou receber mato e
tigüera, onde não se pode introduzir um dedo. Primeiramente tem que se queimar,
cortar o resto e só então teremos lavoura. Peço-vos que comuniquem aos
Krajewski que venham para junto de nós. Eu lhe darei pinho de graça, com o qual
ele poderá construir metade do cata-vento e não lhe vai custar nada.
Queridos
pais, escrevi-lhes a verdade. Orientem-se como quizerem para que ninguém tenha
queixa de mim. Tenho a esperança de que aqui se pode viver melhor do que na
Polônia, desde que Deus ajuda a fazer uma viagem, por que a
metade das crianças se perdem na viagem. Eu próprio vou lhes contar a
verdade real. Esperem que eu lhes mande a segunda carta, pois saberei melhor
sobre tudo e descreverei. A não ser que na Polônia tenha algum surto de miséria
que force o povo a sair, então mandarei conselhos como devem portar-se na
viagem. Não levem nenhum endereço na Prússia, somente quando desembarcarem a
polícia levar-vos-á para um acampamento, lá aparecerá um agente e dará as
passagens. Levem estas passagens ao padre e perguntem se são verdadeiras ou falsas .No navio não se alistem para fazendas ou fábricas.
Não recebam nenhum dinheiro, porque muita gente afunda-se como trocos para
sempre. Muita gente se vende por burrice, recebem dinheiro, como volta pelas despesas, alistam-se para chácaras, mas tudo
isto é mentira. Conduzem-nos para o navio e levam para outra parte e nunca mais
voltam. Ao chegarem ao primeiro entreposto, cidade de nome Rio de Janeiro, lá inscrevam-se para Porto Alegre e dali para Caxias e em
Caxias para São Marcos. Certamente nós estaremos lá e seremos conhecidos porque
nos alistamos, a não ser que não nos recebam, então vamos para Antônio Prado. O
melhor de tudo é aguardar a minha segunda carta.
João
Wietrzykowski
75. Estanislau Wisniewski de Nova Trento, Santa Catarina aos pais, (endereço desconhecido). 15/03/1891.
Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Trago-vos, queridos pais, notícias sobre a
minha situação. Viajei sobre água 18 dias. Desembarquei felizmente, com a ajuda
da Santíssima Trindade. Graças a Deus Supremo, eu, minha mulher e minhas
crianças, estamos com saúde até o presente.Nas segundas
águas, viajei durante dois dias e duas noites. Desembarquei. Depois até a
cidade viajei de carroções, através de selva se montanhas escarpadas e
pirambeiras. Lamentava-me por ter partido para o Brasil. Estou muito aborrecido
com a falta da família.
Meus
queridos pais, eu vos peço que me respondam com urgência sobre a situação e
sobre toda a família. Estão todos vivos e sobre o meu irmão Inácio. Digam se
foi alistado para o Exército e escrevam-lhe se quiser vir venha, porque eu lhe
mandarei a passagem, porque julgo que não nos veremos, a não ser depois da
morte. Estou muito melhor do que na Polônia, somente pelo fato de não estar
submisso a nenhum senhor. Ganhei 150 morgas de terra, mas isto não me alegra,
porque empurraram-nos para meio de gente estranha,
selvagem e onde há muitos insetos. Há bichos que, nem a gente sabe, penetram no
corpo, e corroem a gente
em
vida. Essa
gente selvagem possui espingarda que consegue
matar uma pessoa a 300 passos, sem o mínimo barulho, por isso temos que estar
alertas e possuir ao lado uma arma dia e noite, ou um revólver à cinta de cano
duplo, um fuzil ou uma faca e por esta razão vivo sempre com
medo.
Nada mais
tenho a dizer, somente peço encarecidamente, queridos pais, que mandem resposta
urgente e escrevam-me sobre o que estou pedindo. Estou bastante curioso, porque
alguns falam que a carta chega e outros que não. Isso me deixa muito curioso.
Escrevam-me igualmente quem partiu para o Brasil. Acho-me a
2.500 milhas
da
Polônia. Oh! Doce é a nossa Polônia, mas não se consegue voltar mais para lá.
Se tivesse uns trezentos rublos retornaria a Polônia, mas apenas tenho comida à
vontade e pouco dinheiro. Em último caso peço-vos uma resposta urgente,
queridos pais, e peço encarecidamente que respondam o mais depressa possível e
em carta registrada. Desde que saiba que as cartas chegam, descreverei tudo, o
lado bom e o ruim. Todos que saíram de Biskupianka, chegaram junto ao Brasil e hoje
acham-se espalhados. Dos conhecidos, somente apenas permaneceram junto os
Sienglieski, como estamos sozinhos que nem palanque,
sentimo-nos tristes. Os Wesoloski, Knerek e Lisiecki moram a
20 milhas
daqui.
Escrevo-lhes
as últimas palavras. Saúdo juntamente com a esposa os pais, mando lembranças ao
avô e a avó, seu neto e aos parentes, conhecidos e desconhecidos. Eu Estanislau
Wisniewski, 15 de março de 1891. Escrevam assim o meu endereço:
Pan
Estanislau Wisniewski, Província Santa Catarina, Nova Trento, Brasil.
76. Inácio Zielenski, são Mateus, Paraná, para destinatária desconhecida, Ostrowy, província Kutno, 15/11/1891. A carta foi escrita por uma outra pessoa.
Brasil,
15 de novembro de 1891.
As
primeiras palavras de minha escrita sejam louvado seja
N.S.Jesus Cristo, queridíssima tia. Comunicamo-vos que, por graça de Deus
Supremo estamos com saúde, o que também vos desejamos. Descrevo-vos a nossa
viagem que estivemos com o pai e o filho com saúde, enquanto a esposa estava
doentia. Estabelecemo-nos na localidade de São Mateus. Ganhamos terras, de
conformidade com a medida brasileira, 100 morgas, o que em medida polonesa
significa duas “wlocas” e 10 morgas. Tudo é mata virgem. Só é necessário saúde
para trabalhar e em breve teremos um pedaço de pão. Peço mandar lembranças ao
irmão do Prygonski com votos de saúde, segundo o nosso desejo, ao tio Kurpik e
para toda a família e a todos os conhecidos. Quanto a vossa vinda, façam como
querem, porque nós ainda não testamos este lugar, mas julgamos que será bom por
que temos a manutenção governamental até a colheita. Não venham antes de receber a segunda carta nossa, daqui a quatro meses. Se estiverem para
vir levem roupas, também de cama e tudo o que puderem, porque o transporte no
mar é gratuito. Viajamos pelo mar, em navio, durante um mês inteiro e
desembarcamos em plenas festas, exatamente ao meio dia do Nata, em terra firme,
no Rio de Janeiro.
Junto
conosco há conhecidos de Ostrowy. Eles estão
em São Mateus
e
outras localidades. Nossa colônia situa-se em Taquaral, nº 69. Não temos nada
mais a escrever, a não ser mandar profundos cumprimentos, desejando-vos todo
bem que pedia a Deus.
Eu
Inácio Zielenski
Escreveu Alexandre Marciniak. Pedimos a mais urgente
resposta porque teremos que esperar muito.
Nosso endereço:
Brasil, Província Paraná, Município São Mateus, Inácio
Zielenski
No envelope. Danificado. Pode ser visto o final de “Ostrowy”
e a palavra “Warschau”, tudo escrito com outra mão, a mesma que escreveu a
carta nº 38.
No verso do envelope: Anotação a lápis do Censor “ Zadierzat” e um bilhete com resumo da carta.
77. Antônio Zielinski de Santo Antônio da Patrulha, Rio Grande do Sul para Nicolau Bama, (endereço desconhecido). Correio Ciechanów. 26/11/1891.
Dia
26 de fevereiro, Santo Antônio, ano de 1891.
Assento-me
à mesa para escrever ao vosso coração.
Saúdo-te,
Nicolau Bama, juntamente com a esposa, filhos e toda a família. Estou graças a
Deus com saúde, o que também vos desejo de todo o coração, saúde e sucesso.
Vou-te descrever a minha viagem. Não é verdade como falavam em casa, que é preciso dormir e viver sob o céu aberto. Tão logo chegamos a
Bremen, levaram-nos para estalagens e deram-nos comida e bebida e não pagamento
nada. Saímos de Bremen no dia 26 de novembro. Viajamos 18 dias, até a ilha no
Rio de Janeiro. Quando viajamos no navio prussiano, a comida era muito boa, a
broa era limpa, como entre nós, pastéis de farinha de trigo, sardinhas, duas
vezes por semana carne e todos os dias café da manhã e chá para o jantar.
Vou
descrever como é a ilha. Ela chama-se Brasil (sic) é o país no qual vamos
viver. Estivemos lá durante oito dias. Lá recebemos bebida e comida e não
tivemos nenhum contratempo. Dali partimos para Porto
Alegre, ficamos ali durante um mês e de Porto Alegre fomos para Santo Antonio.
Levaram-nos de carretões, puxados por bois. Em cada carreta atrelaram dez bois
e viajamos quatro dias. Atrás de nós seguiam os panelões e paramos de 6 em 6 horas, quando cozinhavam os alimentos. Durante estes
quatro dias, comemos dois bois. Chegamos a Santo Antônio. Ali destinam um marco
diário, para cada um. Nos três dias, ganhamos 30 marcos para aquisição de utensílios e durante alguns dias recebemos 40 marcos para
ferramentas, porque, como sabem, no instante em que estamos escrevendo esta
carta, ainda não nos encontramos em nossa colônia. Alguns já estão há três meses em suas colônias e falam que é muito bom e se alguém adoece,
imediatamente é levado para o hospital e cuidam bastante do doente e o cercam
de atenção. Dizem por lá que somente emigram da Polônia. Não é verdade, partem da Espanha, Suíça, Itália, e de todas as partes
chegam gentes. Dizia o povo que no Brasil não há nada, que lá existem animais
selvagens. É que no Brasil não há nada, que lá existem animais selvagens. É
mentira. Atravessamos tão grande parte do país e ainda não vimos nenhum bicho.
E falavam que não há igrejas. Elas existem mas são
raras, estão mais nas cidades. As cerimônias realizam-se da mesma forma como
entre nós,
em latim. A
língua é outra. Falam da mesma forma como gansos, grasnam. Viajamos muitos
dias, mas ainda não vimos terra cultivada. Os moradores possuem apenas uma
casinha, um pequeno eito de milho, um pouco de abóbora e vivem como animais.
Quando nós começarmos a trabalhar, tudo será diferente. A população é metade
branca e metade preta. Os pretos são bons, melhores que os brancos, porque
estes são mais orgulhosos e mais ateus. Os pretos são católicos convictos.
Dizia o povo que no Brasil não existe gado, cavalos, nada. Lá existe de tudo:
gado, cavalos, carneiros, até cabritas, da mesma forma que na Polônia.
Meus
queridos irmãos, eu não trocaria convosco a minha propriedade. Eu agora sou
dono, isto não é assim como era na Polônia. Peço-te encarecidamente, querido
tio, para fazer chegar estas palavras a João Zielinski, porque tenho
dificuldade em escrever tantas cartas. Escrevo-te, querido irmão, estas
palavras, porque se estás em miséria é melhor vir para cá, junto de nós. Quanto
aos pais, não sei para onde foram. Afastamo-nos, mas a seu respeito não sei
nada. Vi-me com Antônio Jazabkowski e sei onde se encontra. Não tenho nada mais
a escrever, somente mando lembranças, querido tio e (desejo) tudo aquilo que
pedes a Deus e a Mãe de Deus, Rainha do céu e da terra e um encontro, em breve,
que Deus nos ajude. Amém.
Antônio
Zielinski, 1891.
(Acrescentado a lápis):
Aqui estão os endereços. Respondam com urgência, dizendo se
a carta chegou ou não.
Os endereços são estes:
Brasil, Estado Rio Grande do Sul, Porto Alegre / Santo
Antônio da Patrulha / Antônio Zielinski.
(Novamente com pena): Pedro Muklik (talvez assinatura de
quem escreveu a carta).
Envelope: (Danificado):
42/Na den Mikolaj Bama/in (—) Plock Kranc,/(—) Correio Ciechanów / Aldeia. / Ruszland.
No verso:
Carimbo brasileiro: Comissão de Terras Santo Antônio da
Patrulha, carimbo do correio russo de Varsóvia e um recado a lápis, ilegível.
78. Um autor desconhecido da região de São Feliciano, Rio Grande do Sul à esposa, (endereço desconhecido). Falta a data.
Querida
esposa! Levo ao seu conhecimento que ganhei a colônia Leopleneto (segundo autor
não foi possível determinar sua localização), nº
41. A
colônia corresponde a
uma chácara e é igual a 40 morgas polonesas. Recebi somente mato. É necessário
limpar primeiro para depois plantar. Não há gente para trabalhar, embora nesta
terra tudo o que se planta cresce. A menina que levei comigo é uma vagabunda,
nem sequer sabe lavar uma camisa, nem cozinhar. Querida esposa, mandei-a
embora. Peço-te querida esposa que venha quanto antes, porque é pesado para mim trabalhar na terra, sem ter quem cozinhe e lave a roupa.
Querida
esposa se estiveres para partir, traga consigo utensílios domésticos e
ferramentas para a lavoura, como enxadas, martelos, crianças, porque aqui são
caros. Traga sementes de cereais, alfafa e sorgo. Peço aos pais que me dêem
minha herança, a que tenho direito na propriedade, e peço ao pai que tenha
bondade de dar o dinheiro a minha esposa, porque eu já não volto à Polônia.Querida esposa, reúna todo o dinheiro e guarde-o
bem, costure um saquinho e guarde-o bem junto ao corpo. Quando resolveres
viajar, venha a
Torun e depois que atravessares, querida esposa a fronteira, imediatamente
troque o dinheiro porque na fronteira o câmbio é melhor e na Prússia já
oferecem menos. Em Torun você comprará os bilhetes e em Bremen mantenha-se de
sobreaviso, porque enganam muito. Em Bremen compre bastante remédios,
10 libras
de açúcar, alguns limões, três garrafas de álcool, três litros de conhaque (—), remédios no valor de 4 marcos,
4 marcos de vinho, porque, querida esposa, tudo isto é necessário no navio.
Tudo será útil na viagem e em caso de fraqueza evite alimentos. No navio tudo é
caro e por isso não se deve comprar. Tudo o que tens contigo será necessário,
não para a alimentação e sim para a saúde.Querida
esposa, em Bremen tenha muito cuidado com o dinheiro. No hotel receberás a
comida de graça e tudo será grátis até a partida do navio. Querida, o navio irá
até o Rio de Janeiro, principal entreposto brasileiro. No entreposto
inscrever-te-ás para Porto Alegre e ali para Feliciano, colônia Cleploneto
(sic) nº 41.
A minha
viagem até Bremen foi com saúde. De Bremen parti de navio e viajei até o
destino, sem um vintém. Querida esposa, não tenho mais nada a escrever, somente
peça ao pai, por mim e em meu nome na qualidade de marido, essa com a mais
profunda humildade. Queridos pai e mãe, irmão e irmãs, tenham a bondade, toda a
família minha, peçam ao pai que se digne mandar-me dinheiro que é a minha parte
da herança. Em verdade ganhei uma boa colônia, não tenho como começar o serviço
porque não tenho dinheiro. Estou muito aborrecido por me achar por tão longo
tempo sem a minha família.
Agora não
tenho nada mais a escrever, somente imploro-te, querida esposa, para que tenhas
a bondade de vir para junto de mim, quanto antes.
Agora mando-vos os mais profundos cumprimentos, mando a toda a
família porque já não retornarei mais a Polônia.
Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo.,
79. Autor desconhecido de Rio dos Patos, Paraná, ao filho (endereço desconhecido). 21/03/1891
1891,
dia 3 de março.
Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Cumprimento-te, querido filho, juntamente com
sua esposa. Levo ao teu conhecimento que, por graça de Deus Supremo, estamos
com saúde, o que também vos desejamos, queridas crianças.Agora
vou-te contar a respeito da nossa viagem. Somente eu e o filho João estivemos
com saúde. A mãe e as duas crianças estavam doentes. A manutenção no navio era
gratuita. Agora, se tens vontade de vir para o Brasil, leve consigo roupa de
cama e coisas miúdas e ao chegares a Prússia, primeira parada, compre passagem
para Bremen. Em Bremen a permanência é gratuita. Em Bremen você vai embarcar em
trem e numa viagem de 7 dias (sic) para Bremerhaven.
Ganhei para meu uso 80 morgas de terra e igualmente o João. Agora, querido
filho, peço-te que mandes lembranças a todos os meus conhecidos.
Se tens
vontade de vir, venha para a cidade do Rio de Janeiro que é a capital, ali inscreva-te para Paranaguá. Depois chegarás a Curitiba e ali aliste-se para Rio dos Patos, onde eu me encontro.
Querido
filho, peço-te que me respondas o mais depressa possível.
80. Autor desconhecido, de um lugar desconhecido do Brasil, para Tomás Konecki, (endereço desconhecido). 13/02/1891. Não existe o original, mas uma transcrição feita durante a ocupação pelos alunos da Universidade Polonesa Livre e Oculta de Varsóvia.
Dia 13 de fevereiro de
1891. Adentro vossa casa, dizendo Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
Escrevo esta carta para Tomás Konecki. Inclino-me diante de vós, pai e mãe, que
não chegastes a sê-los, para que não sejais faladores.
E peço ao pai, nesta carta, que leve em conta o “deve ser” (sic), na Polônia e
no Brasil.
Cumprimento-te,
amadíssima Andzió (não se sabe o nome exato) e abraço-te cordialmente. Preste
atenção para isto, amadíssima Andzio, como tinhas a intenção, pois não na hora,
não há momento que não pense em ti queridíssima. Peço-te que venhas quanto
antes, pois então libertar-te ás dos grilhões, e serás uma distinta senhora. Estou na cidade (—) e aguardamos dia-a-dia a nossa
propriedade, porque a colônia já foi demarcada. Cada um receberá 5 “wlócas”. Agora tenho que descrever toda a viagem. No dia
de Todos os Santos atravessamos a fronteira, custou-nos 3 rublos. Somente eu e Frederico atravessamos e fomos para Torun —
2 milhas
a pé —, onde
embarcamos em trem e chegamos a Bremen e de Bremen para o Brasil, que foi
totalmente gratuita. Viajamos em águas durante 20 dias. Agora Andzió, leve
roupa consigo, tudo o que puder. Aquilo que o povo fala, tudo é mentira. Nada mais tenho a escrever, somente caio aos vossos pés, pai e
mãe e mando lembranças a família inteira e a querida
Vitória. Se ela não casou pode vir, juntamente com a irmã e você, queridíssima
Andzió. Se não vier, responda-me.
81. Autor desconhecido, do Brasil aos pais. (endereço desconhecido). 6/03/1891.
Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
Nas
palavras que seguem ouso perguntar-vos a respeito da carta que escrevi no dia
28 de novembro, se ela chegou ou não. Por acaso ficastes brabos ou a carta não
chegou?Aqui no Brasil nós sabemos muito bem que toda a correspondência que sai
do Brasil para a Europa, dura dois meses. Já se
passaram três meses e não há nenhuma notícia.
Agora,
queridos pai e mãe, cumprimento-vos e descrevo a minha viagem que, por graças
de Deus Supremo, fiz com felicidade. Viajamos
3.500 milhas
e não
tivemos nenhum problema sério com o mar. Deus nos protegia contra toda
desgraça, embora ouvimos que outros navios tiveram
acidentes, mas nós, graças a Deus, atravessamos felizes. Viajamos durante 21
dias, além das paradas. Comunico-vos que ao chegarmos ao Brasil à Província
de São Paulo, permanecemos em casas para imigrantes, semelhantes a quartéis. Lá
recebemos a manutenção e pouso durante 8 dias. Durante
estes dias quizeram tirar-nos de lá e atirar fora porque não aceitamos
inscrições para fazendas, isto é para trabalhar para a nobreza, que cultiva
café. Nesta cidade é difícil agüentar, por causa do calor.
Nas
fazendas desta nobreza é assim: em sua fazenda o dono, por desobediência pode
mandar fuzilar, não há nenhuma lei que impede, porque no Brasil é República, o
que significa liberdade da nobreza. Quando chegamos de São Paulo para São
Bernardo, graças à ajuda governamental, e estabelecemo-nos em nossa
propriedade, o que quer dizer: saímos da cidade para a colônia que haveremos de
ganhar, pois já estão instalados em suas colônias. Por este motivo, podemos ter
certeza que receberemos. No Brasil, a propriedade em que se habita, chama-se
colônia. No que diz respeito à terra, cada um ganha 40
morgas. As matas são enormes. A madeira é dura e as tábuas são caras. Cada
tábua de
7 pés
custa dois rublos, ou seja dois
mil réis, em português.Agora vou falar a meu respeito. Sepultei meu filho no
dia 9 de novembro. Francisca está doente desde o Natal. Minha esposa, Inês,
esteve doente até agora, mas Glória a Deus, está com
saúde. Graças a Deus, já pode andar e cozinhar a comida.
Desde o
instante que saímos de São Paulo e chegamos para São Bernardo, trabalhamos nos
serviços públicos e ganhamos 10 “zlotes” por dia. A vida é cara, por isso o
gasto de farinha em “pud”* custa, em dinheiro polonês,
6 rublos. Agora, queridos pais, peço notícias a respeito do meu irmão Casemiro.
Se não foi incorporado no exército, que venha para o Brasil, então em breve
poderemos chegar à felicidade ( O original é confuso —
trad.). Ninguém deve arriscar a viagem com crianças.
Não tenho
nada mais a escrever, somente estas palavras. Beijo-vos, queridos pais, eu,
José e minha esposa Inês, que não vos esquecerá até a taboa sepulcral. Mando
igualmente lembranças aos conhecidos e desconhecidos. Peço que respondam o mais
depressa possível.
82. Autor desconhecido para destinatário desconhecido (falta o princípio da carta).
Paz a
todos!
... Ainda
vos recomendo o que deveis levar consigo. Traga vestes leves, alguns pares de
calçados e para mim, peço, quando chegarem a Bremen comprem uma pistola, de
pólvora, que custa 6 marcos, um relógio pelo valor de
35 marcos que no seu interior possui um “cabelo” e anda 8 dias sem que lhe dê
corda, isto pode ser visto nas vitrines. Podereis também comprar alguns
despertadores pelo preço de 6 marcos, porque no Brasil
podeis ganhar com eles. O dinheiro podereis trocar em
Bremen pelo ouro inglês, com isto não tereis prejuízo no Brasil. Se não
chegarem, pelo menos que venha o pai. Podeis emprestar dinheiro, porque eu
restituirei mais tarde. No momento não tenho. Se fosse trabalhar numa fábrica,
mas não posso, porque terei que deixar a mulher no mato, uma vez que as
fábricas ficam longe .
Apresento
meus cumprimentos a toda a família e conhecidos. Peço
desculpas por não ter escrito por tão longo tempo. Podem viajar para Nieszawa
de trem, podem perguntar pela aldeia Golembie e ali perguntar pelo
administrador Ostrowski. Ele ajudará a transpor a fronteira, mas recomendo-vos
todo cuidado com o dinheiro.
Levem
consigo para o navio vinagre, chá, açúcar e remédios. Em Bremen podeis comprar
algumas garrafas, bem como broa preta, porque no navio isto será como mel. Os cobertores, se não
puderem vender, tragam consigo ou podem comprar em Bremen, porque aqui os dias
são quentes, mas as noites frescas e os cobertores poderão ser úteis.
Peço que em
Oryszew entendam-se com João Plucinski, pois ele também está para chegar e assim será melhor
atravessar a fronteira. Em Ruda, podeis comprar as passagens para Nieszawa e
depois seguir para Golembie e procurar o proprietário Ostrowski, ele vos
ajudará atravessar a fronteira. Na ultrapassagem da fronteira
muito cuidado com os pertences, para não serem roubados. No trem
prussiano, podeis conservar consigo as bagagens, porque custa muito fazer
expedição. Termino aqui. Agora previno: aqueles que têm crianças pequenas, que
não se arrisquem para a viagem, porque para elas a viagem é crucial.
Agora peço-vos encarecidamente que tragam o que peço. Peço que me
respondam quanto antes, porque estamos com muitas saudades porque por tanto
tempo não nos
pudemos ver, nem falar. Que dor deve ser! Dor daqueles que partem para tão
longa viagem! Fim.
Peço
resposta urgente para esta carta.